O Verão da Lata !

lata1O verão da lata, foi um  dos mais surreais e malucos acontecimentos da história da terra brasilis.No verão de 1987/1988, ou seja, há quase 20 anos,um navio panamenho batizado de Solana Star levantou âncora na Austrália e fez uma pequena parada em Cingapura, onde carregou para seus porões cerca 22 toneladas de erva prensada e acondicionada em 20 mil latas lacradas a vácuo!  Destino?Brasil.Porém, longe da costa mas já em águas brasileiras o ....

cargueiro passou a ser perseguido pela marinha, que havia sido alertada por um instituto amerciano anti-drogas, que a carga do navio era fumaça sólida. Acuados pelos militares os tripulantes dispensaram toda a carga ao mar. Por motivos divinos, demoníacos, marleísticos ou por mera coincidência, as latas foram espalhadas por várias praias, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

Começaram a chegar uma a uma, até que uma alma curiosa abriu um exemplar. Em poucos dias as praias cariocas viraram a Meca de todo tipo de maluco que você possa imaginar. A comoção foi geral, pessoas passavam o dia olhando pro mar em busca de um reflexo que pudesser ser uma lata desgarrada do "rebanho".

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A fama da boa qualidade do produto espalhou-se rapidamente, e uma verdadeira caça as latas se iniciou, pescadores encontravam e as enterravam para a venda posterior ou por medo da polícia, que estava em total alerta para o acontecimento. Surfistas, playboys, traficantes, todos de olho na lata. Aliás, religiosos e conservadores em geral, pregavam que o fim dos tempos estava se iniciando com o culto à maconha que estava ocorrendo no litoral brasileiro. Apenas 4,5 toneladas foram recuperadas, o restante literalmente virou fumaça. A lata, virou camiseta, gíria, sinônimo de algo muito bom e deu nome ao verão mais louco de que se tem memória (ou não).

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Do total da carga, a polícia só conseguiu recuperar cerca de 2.500 latas. Durante várias semanas, milhares de latas com maconha de altíssima qualidade, embaladas a vácuo, foram arrastadas pela correnteza e levadas às praias do litoral brasileiro. Entre Setembro de 1987 e Março de 1988, uma das diversões prediletas da juventude entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul foi ‘caçar latas’ à beira-mar. Passavam o dia em pranchas de surf e outros meios ‘patrulhando’ o litoral em busca do objeto de desejo. O episódio ficou conhecido em todo o Brasil como o “Verão da Lata”.

Muitos revenderam a mercadoria ilegalmente, e ganharam dinheiro com isso. Nos pontos de venda da droga, a pergunta era: "Esse é da lata?". A maioria, porém, apenas fumou uma erva de elevado teor de THC, prensada com mel e glicose. A expressão "da lata" passou a designar ‘alta qualidade’, e foram escritos livros, compostas músicas e feitos filmes sobre o episódio. O termo foi celebrado em música pela cantora Fernanda Abreu, e a banda do baixista ex-parceiro da Legião Urbana, Renato Rocha, chegou a ser batizada como “Solana Star”. O Verão da Lata acabou virando filme - com o diretor João Falcão - e livro ("O Verão da Lata", de Oscar Cesarotto, editora Iluminuras, 2005).

O responsável pela investigação do caso

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Encontramos numa loja de armarinho no subúrbio do Rio de Janeiro o homem responsável pela investigação desse caso. O dono do estabelecimento é Carlos Landim, 63 anos, delegado aposentado da Polícia Federal. No final dos anos 80, ele trabalhava na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), quando chefiou a operação Cisne Branco e também presidiu o inquérito do caso do Solana Star. Segundo Landim, o alerta às autoridades brasileiras sobre a carga do navio foi feito pelo Drug Enforcement Administration (DEA), agência de combate às drogas dos Estados Unidos. O DEA informou que a embarcação teria apresentado pane mecânica e estaria na altura de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. “A Marinha cedeu a fragata Independência para auxiliar nas buscas da Polícia Federal na costa”, lembra Landim.

O delegado e “um grupo de15 a 20 homens” embarcaram na Ilha das Cobras, no interior da Baía de Guanabara, para partir na captura do navio. Depois de 15 ou 20 dias, contando com o apoio até de aeronaves da Marinha, a busca se mostrou infrutífera. “Era como procurar uma agulha no palheiro”, diz Landim. Ao fim desse período, a busca foi interrompida. Até então, não havia nem sombra do Solana Star. “Quando estávamos retornando, porém, fomos informados de que a própria Marinha tinha encontrado o navio atracado na Baía de Guanabara”, lembra o delegado. “Enviamos a nossa equipe para dar apoio e, no primeiro momento, já deu para perceber as marcas de latas no interior do navio.” A superintendência fez perícias no local e encontrou marcas no chão que eram, exatamente, do mesmo tamanho das latas de maconha apreendidas no litoral. Além disso, medindo o espaço interno da embarcação, os especialistas da polícia também verificaram, por meio da cubagem (relação entre o peso e o espaço que a mercadoria ocupa), que ali caberia a carga despejada no litoral. Então, bateu tudo! “Depois que conseguimos as provas, pedimos a prisão preventiva da tripulação”, diz Landim. “Apenas o cozinheiro Stephen Skelton estava lá e, por isso, acabou sendo o único detido.”

Fiel aos versos da famosa música de Bezerra da Silva (“Não sou agricultor, desconheço a semente”), o cozinheiro sempre sustentou que nada sabia sobre a carga do navio. Para o delegado, a história era uma piada e não convenceu ninguém. “Skelton foi deixado para trás, tomando conta da embarcação, porque dentro da organização ele tinha o papel menos importante, mas sabia que a mercadoria transportada era maconha”, diz. Já Wanderley Rebello Filho, advogado de Skelton e autor do livro 1988 — O Verão das Latas de Maconha — O Processo, não achou graça nenhuma nas afirmações do inquérito policial. Falando hoje sobre o caso, sugere que o envolvimento do Solana Star no processo e a condenação de seu cliente foram frutos de um trabalho afobado das autoridades. “O Solana Star estava sendo reparado de suas avarias, já havia bastante tempo, num píer da Praça Mauá, quase em frente, portanto, do prédio da Polícia Federal”, afirma o advogado. “Essa história de tripulação fugitiva não passa de uma fantasia.”

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Prova disso, segundo o advogado, é que o cozinheiro ficou um bom tempo hospedado num hotel em Copacabana esperando o conserto do navio. Além disso, no decorrer do processo, ele se apresentou espontaneamente duas vezes, na tentativa de explicar que não era nem fugitivo nem traficante. Por fim, segundo o advogado, não foi encontrada nenhuma prova ligando o Solana Star ao despejo de maconha no litoral. “Depois de inúmeras buscas no navio, a polícia encontrou apenas uma ínfima quantidade de maconha no porão”, diz.

Durante cerca de um ano, Skelton comeu o pão que o diabo desberlotou no nosso “sistema prisional”. Teve de ser isolado num subsolo infecto e semialagado para não ser mais brutalizado pelos outros presos, que achavam que ele era um gringo rico. “Numa das visitas, falou que iria se matar na prisão caso não fosse libertado, tamanho era seu desespero”, diz o advogado. Ao que parece, sua alegação de inocência tem alguma procedência, já que nossa própria Justiça anulou o primeiro julgamento, devolvendo a liberdade ao cozinheiro que entrara numa fria.

Hoje, morando na Flórida, Skelton ainda se mostra arredio quando o assunto é sua participação no “caso das latas”. Tentamos entrar em contato, mas só conseguimos dele uma resposta por e-mail: “Sim, eu era o cozinheiro. Fui condenado a 20 anos. De tempos em tempos, alguém do Brasil me procura para contar a história das latas. Mas até hoje só se escreveu besteira. Essa história é como uma cebola, que precisa ser descascada para chegar ao ponto certo. Ninguém que esteja vivo conhece a história real, exceto eu. Se algum dia alguém fizer um filme, seria um sucesso de público, um blockbuster mundial. Sugiro Edward Norton para interpretar meu papel, ele seria perfeito para ser ‘O Cozinheiro’. Quando alguém estiver disposto a pagar pela verdade e pelo meu tempo gasto em seu belíssimo sistema prisional, contate-me”. Assinado: The Cook.

Não sei se Edward Norton toparia participar de meu documentário, portanto já começo a duvidar se essa história é realmente possível de ser filmada. Mas, peraí, ela ainda não acabou. E o Solana Star ? Como é que ele foi parar no fundo do mar? Quem sabe todos os detalhes é o carioca Paulo Dias, 47 anos, com mais de três décadas de experiência em mergulho e recordista em visitas ao naufrágio do navio. “Depois de ser comprada num leilão, a embarcação virou o Tunamar, um dos atuneiros mais modernos da América Latina”, diz ele.

Para inaugurar o navio, a tripulação e os familiares fizeram um churrasco na própria embarcação e saíram do cais pela primeira vez. Depois da comemoração, o navio foi abastecido com os suprimentos de pesca e, no dia 11 de outubro de 1994, fez a primeira viagem profissional, com destino a Santa Catarina. Mas a jornada inaugural teve um fim trágico. Os tripulantes foram surpreendidos pelo mau tempo na região de Arraial do Cabo, no litoral fluminense. A chuva intensa e os fortes ventos pioraram as condições do mar e uma onda muito forte alagou a casa de máquinas, fazendo o navio parar. “Nesse momento, outra onda atingiu o navio de través e fez com que ele virasse de ponta-cabeça”, afirma o mergulhador. Era madrugada e os pescadores estavam descansando. Alguns no dormitório que ficava na parte interna do barco, outros no cômodo onde se guardava o equipamento de pesca, porque era um local mais fresco. “Quem estava nessa sala conseguiu sair antes que o navio afundasse completamente. A turma do dormitório ficou presa, porque a porta foi bloqueada depois que o navio ficou de cabeça para baixo”, diz o mergulhador.

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Eram 31 tripulantes. Nove ficaram presos, afundando junto com o navio. Outros dois morreram afogados. Contratado pelos proprietários para periciar o navio e tentar descobrir a causa do naufrágio, Paulo Dias foi o primeiro a chegar nele após ir a pique. “Constatei que houve imprudência por parte dos pescadores”, diz. “Para deixar a parte interna do navio mais fresca, eles mantiveram abertos alguns compartimentos que deveriam estar fechados. Quando as ondas atingiram o barco, ele inundou mais facilmente.” Paulo também já fez algumas tentativas de resgatar os restos mortais dos nove tripulantes que ainda estão no navio. “Infelizmente, muita coisa bloqueia a porta do dormitório. Virou uma tumba mortuária, porque os nove corpos continuam lá”, afirma o mergulhador.

O navio está hoje a uma profundidade de 65 metros, praticamente intacto. Consegue-se entrar na embarcação, mas não se tem acesso a todos os lugares, porque vários corredores estão bloqueados por cabos, redes de pesca e móveis. Por causa da curiosidade gerada pela história, o Solana Star transformou-se num point para mergulhadores experientes que pagam 400 reais para visitar o maior protagonista do verão mais doidão que já existiu. “Desde a época do naufrágio, eu levo alguns grupos de mergulhadores que querem ver de perto como o navio está no fundo do mar”, afirma Paulo. É uma sensação única, mas exige um conhecimento técnico muito grande devido à profundidade elevada. “Uma vez, um homem que encontrou uma lata na praia quis fazer o mergulho, mas ele não tinha habilidades técnicas suficientes. Se a intenção for essa, nem adianta, porque não há nenhuma lata no interior do navio, já que ele passou por várias transformações antes mesmo de naufragar”, diz Paulo.

O mergulhador também suspeita de outra “causa” para o destino do navio: uma antiga maldição dos mares. Muitos pescadores acreditam que não se deve mudar o nome de uma embarcação, porque ela estará fadada ao naufrágio. Nosso navio maldito nasceu em 1973 e foi batizado de Foo Lang III. Em 1980, passou a ser chamado de Geraldtown Endeavour. Em 1986, recebeu o nome de Solana Star, o mais famoso. Em 1990, virou Charles Henri e afundou, em 1994, sob a alcunha de Tunamar. Ou seja, o Solana abusou.

Os números da tragédia

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Para muita gente, avistar e recolher uma lata no mar daquele Verão era como acertar na loteria. Os usuários da droga sentiam que haviam tirado na sorte grande ao escapar da polícia e dos traficantes ao mesmo tempo. E a polícia sabia o que essas pessoas fizeram no verão de 1987, sabia mas não pode fazer muita coisa. Era muita, mas muita lata invadindo 2 mil quilômetros de praias, do litoral do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. Mesmo quem não consumia a droga, caçava as latas. Durante o dia, as latas eram escondidas na areia e revendidas mais tarde para intermediários.

Alguns surfistas viraram traficantes, pescadores e marinheiros trocavam as latas que tinham alto valor no mercado negro por pranchas, redes de pesca, carros e até casas. “São pessoas humildes, que tentavam ganhar dinheiro fácil e acabaram se dando mal”, afirmaram policiais aos repórteres quando prendiam caiçaras que vendiam a lata por 8 mil cruzados para quem vinha buscar na fonte. Já os traficantes chegavam a passar para frente o conteúdo por cinco vezes mais. Um caseiro foi preso com 334 latas escondidas numa mansão em Angra dos Reis.

 

Fonte: http://www.kabs82.com/2008/04/o-vero-da-lata.html

          http://noholodeck.blogspot.com.br

          http://revistaalfa.abril.com.br

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