Raulzito e os Panteras: O Fracasso de R$ 12,70 que Pariu o Mito Raul Seixas. Sabe aquele ditado chinfrim que diz que todo grande artista tem uma gaveta cheia de vergonha? Pois bem. O Pai do Rock Brasileiro, o homem que mandou a gente tentar outra vez e desconfiar do "carrão 73", tinha uma gaveta muito específica no seu passado. Uma gaveta empoeirada, com cheiro de naftalina e iê-iê-iê, que ele preferia manter trancada a sete chaves enquanto cantava sobre discos voadores e sociedades alternativas.
Mas a verdade, nua e crua, sem maquiagem de assessor de imprensa, é que o maluco beleza começou tomando um belo de um chá de banco. Estamos falando de Raulzito e os Panteras, a banda que provou que nem sempre o primeiro passo é pra frente — às vezes é um tropeção homérico numa poça de lama da Jovem Guarda. Antes do mito, antes das brigas com a censura, antes do gogó de veludo cantar Metamorfose Ambulante, existiu um disco de 1968 que é, ao mesmo tempo, uma peça de museu para colecionadores e uma prova cabal de que o universo adora uma ironia. Porque o álbum que deveria lançar Raul ao estrelato conseguiu a proeza de vender tão pouco, mas tão pouco, que o sonho carioca do grupo se dissolveu mais rápido que um torrão de açúcar em chuva de verão. O resultado foi um retorno melancólico a Salvador, com o rabo entre as pernas e o bolso tão vazio quanto a alma .
Os Panteras: De Relâmpagos a Gatos Pingados no Rio

Vamos dar um passo atrás, porque a história é boa. Lá nos confins da Salvador do final dos anos 50, Raul Santos Seixas era um garoto magricelo, péssimo aluno (reprovou três vezes na segunda série, veja você) e completamente vidrado no rebolado de Elvis Presley. Ele não queria saber de matemática, queria saber de rock. Fundou o Elvis Rock Club e depois montou uma banda chamada Os Relâmpagos do Rock — um nome que, convenhamos, já mostrava que o tino comercial ainda estava engatinhando. Num surto de modernidade bilíngue típico da época, o nome evoluiu para The Panthers, que logo foi abrasileirado para o definitivo Raulzito e os Panteras. A formação era a nata do rock and roll soteropolitano: Eládio Gilbraz (guitarra), Mariano Lanat (baixo) e Carleba (bateria), tendo o próprio Raulzito nos vocais e na guitarra base. Eles eram a atração underground de Salvador, tocando um som que misturava o que havia de mais moderno: a beatlemania histérica, o rock clássico de Elvis e a energia da Jovem Guarda que dominava o Sudeste.
O grande ponto de virada — ou seria de queda? — veio quando cruzaram o caminho de Jerry Adriani. O galã da Jovem Guarda estava em apuros no Norte/Nordeste, sem banda de apoio. Alguém soprou: "Tem uns malucos aí em Salvador, os Panteras, que tocam tudo dos Beatles". Dito e feito. Os garotos deram conta do recado e Jerry, impressionado, fez a fatídica promessa: "Vão para o Rio de Janeiro que eu ajudo vocês". Ah, o Rio de Janeiro... A Cidade Maravilhosa que, para Raulzito, mais parecia uma panela de pressão prestes a explodir na cara dele.
O Disco Maldito: Gravado, Lançado, Esquecido
Chegando no Rio com a cara, a coragem e uma mãozinha de Jerry Adriani, conseguiram um contrato com a poderosa EMI-Odeon. Era a chance de ouro. Gravaram o álbum homônimo "Raulzito e os Panteras" em 1968. O repertório trazia faixas como "Branca de Neve", "Um de Nós Dois", "Me Deixa Em Paz", "Triste Mundo" e "Dê-me Tua Mão". Eram canções redondinhas, românticas, com aquela pegada de rock comportado que a Jovem Guarda havia popularizado. Nada de Ouro de Tolo ou Sociedade Alternativa. Era um Raul certinho, penteado, tentando caber numa caixa que não foi feita pra ele.
E sabe o que aconteceu? Nada. O disco foi um fiasco retumbante. Não tocou nas rádios, não vendeu, não rendeu um mísero convite para um programa de auditório. O motivo? Enquanto eles lançavam um disco de iê-iê-iê em 1968, o Brasil já estava de saco cheio desse estilo. A Jovem Guarda agonizava. A Bossa Nova era coisa "séria", e os tropicalistas já estavam logo ali, prontos para explodir tudo com guitarras distorcidas e experimentações. Raulzito e os Panteras pareciam uma banda tocando num baile de formatura enquanto o prédio pegava fogo lá fora — completamente fora do zeitgeist. A frustração foi tão violenta que a banda implodiu. Sem grana para se manter no Rio, o sonho carioca virou um pesadelo logístico. Um a um, os integrantes foram voltando para Salvador. Raul ficou por último, remoendo o fracasso, até fazer as malas e voltar para a Bahia com o orgulho ferido e a certeza de que talvez a música não fosse para ele. Só que a vida, essa senhora irônica, tinha outros planos. Foi nesse fundo do poço que ele descobriu que o que faltava no palco, sobrava nos bastidores.

O Fracasso que Forjou um Gênio (e um Produtor de Mão Cheia)
É aqui que a história fica realmente boa, porque o fracasso de Raulzito e os Panteras foi o empurrão necessário para o nascimento de Raul Seixas. De volta à Bahia, desiludido, Raul mergulhou em livros de filosofia, esoterismo e, claro, continuou compondo. Mas a ficha ainda não tinha caído. Foi Jerry Adriani, novamente, quem estendeu a mão, mas dessa vez com uma proposta diferente: "Vem pro Rio ser produtor musical da CBS".
Entre 1969 e 1973, Raulzito se enfiou no estúdio não para ser a estrela, mas para ser o cérebro por trás dos discos de outros artistas. E acredite: ele era bom pra dedéu nisso. Compôs e produziu sucessos para meio mundo: Jerry Adriani (Doce, Doce Amor), Renato e Seus Blue Caps (Playboy), Diana (Ainda Queima a Esperança), além de trabalhos com Odair José, Leno e Lílian e Trio Ternura. Ele tratava a música comercial como um artesão trata o barro — moldava hits com uma facilidade que só o fracasso anterior poderia ter ensinado. Foi nos corredores da CBS que Raul aprontou uma das suas maiores maluquices pré-fama. Aproveitando uma viagem do chefão da gravadora (ou não, reza a lenda que era tudo consentido), ele juntou os amigos Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada e meteu bronca no projeto "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10" , de 1971. Um disco completamente pirado, misturando rock, psicodelia, samba e deboche, que foi um sucesso de crítica, um fracasso de vendas e um problemão com a censura. Mas serviu para uma coisa essencial: reacendeu a vontade de Raul de ser artista.
Esse período como "operário da música" foi a escola que o Raulzito e os Panteras não conseguiu ser. Ele aprendeu como funcionava um estúdio, como se fazia um arranjo grudento, como se comunicar com o "povão". Quando finalmente se sentiu pronto para tentar a sorte mais uma vez, ele não era mais o garoto magricelo imitando Elvis. Era um estrategista. Inscreveu Let Me Sing, Let Me Sing no Festival Internacional da Canção de 1972, causou furor com sua performance e, finalmente, assinou com a Philips.
Dali pra frente, a história todo mundo conhece: veio o disco Krig-ha, Bandolo! em 1973, estourou Ouro de Tolo, e o resto é lenda. A parceria com Paulo Coelho, a Sociedade Alternativa, o exílio, o alcoolismo e a morte precoce em 1989, aos 44 anos, vítima de pancreatite aguda. Aquele LP de 1968, que hoje é item raro de colecionador vendido a peso de ouro nos sebos da vida, ficou como a cicatriz necessária. A prova viva de que, para nascer o Pai do Rock, foi preciso matar primeiro o Raulzito. E se tem uma coisa que esse disco nos ensina, sem dó nem piedade, é que até os gênios tropeçam — a diferença é que alguns transformam o tombo em passos de dança, outros em versos imortais, e Raul, bem... Raul fez os dois.