A lista de espera do tráfico que ninguém quer ver

A lista de espera do tráfico que ninguém quer ver

A Lista de Espera do Tráfico: Por Que Matar um Traficante é Só Trocar um Nome na Planilha do Crime. Peraí. Deixa eu te contar uma parada que vai virar sua cabeça de ponta-cabeça. Você já parou pra pensar no que realmente acontece quando um traficante de 17, 18 anos é “desvivido” — usando aquele eufemismo que a gente conhece bem — numa operação policial? No dia seguinte, ele já foi substituído. Não tem velório com comoção nacional. Não tem comoção nenhuma, na real.

Tem um moleque novo assumindo a boca, pegando a pistola que ainda tá quente do disparo que matou o anterior, e seguindo o baile como se nada tivesse acontecido. Porque, pra estrutura do tráfico, nada aconteceu. Só trocou um nome na planilha. Parece duro de engolir? Parece. Mas é a realidade nua e crua que um livro publicado em 1994 já escancarava com uma precisão cirúrgica. Tô falando de “Cidade Partida”, do Zuenir Ventura. E tô falando especialmente de um trecho específico — uma entrevista com um cara que, se você viveu no Rio dos anos 90, sabe muito bem quem foi: Flávio Negão, o então “dono” do Vigário Geral. Senta que lá vem história, dados, e um soco no estômago chamado realidade.

“Chefe, eu tenho 16. Mas a lista de espera tem 400.”

Vamos direto ao ponto que interessa. Zuenir Ventura, na época em que mergulhou na favela de Vigário Geral pra entender o que tinha acontecido naquele fatídico massacre de 1993 (quando policiais invadiram a favela e mataram 21 pessoas em retaliação à morte de quatro agentes), sentou pra conversar com o próprio Flávio Negão. E o Negão, que era o maior ladrão de carro forte do Rio na época, comandava a boca de fumo da região. Numa hora da entrevista, ele solta uma frase que deveria ser gravada a fogo em todas as delegacias e secretarias de segurança pública do Brasil. Ele disse: “Eu tenho 16 bandidos na boca de fumo comigo, por dia. Mas eu tenho 400 nomes de adolescentes, jovens, que estão tentando uma vaga na boca de fumo e eu não tenho como pagar todo mundo. Eu só tenho como absorver 16.” Deixa eu repetir pra ver se entra: 400 moleques na fila. 16 vagas. A conta é simples, mas o significado dela é um abismo. Enquanto a polícia, o estado, a sociedade e todo mundo que lê jornal no café da manhã fica comemorando (ou se lamentando) sobre a “baixa” de um traficante na comunidade, o Flávio Negão — ou qualquer gerente do tráfico em 2024 — tá ali, tranquilo, com uma lista de espera maior que vaga em concurso público.

Enxugando gelo: a metáfora perfeita pra uma guerra sem fim

Aí você me pergunta: “Mas então a polícia não devia fazer nada? Devia deixar rolar?” Não foi isso que eu disse. E não foi isso que Zuenir Ventura quis dizer com o livro. Vem comigo que a gente destrincha isso. O próprio Flávio Negão, nessa mesma conversa, reconhece que se a polícia parar de agir, “o gelo toma conta de tudo na hora”. É uma contradição aparente, mas que é a essência do problema. A gente vive num ciclo vicioso. Tá enxugando gelo? Sim, tá. Mas não se pode parar de enxugar, porque se parar, o negócio alaga de vez. O problema é que a gente fica só nisso. O discurso oficial, o senso comum e até boa parte da imprensa tratam a segurança pública como se fosse um jogo de matar o “chefe” e pronto, a missão foi cumprida. Só que não. O que o livro “Cidade Partida” mostra — e os dados atuais comprovam — é que o tráfico virou uma franquia. Pense comigo: se o McDonald’s perde um gerente, a loja fecha? Não. No outro dia, tem outro gerente. A marca continua. A estrutura continua. O estoque continua. A demanda continua. No tráfico, a “marca” é o poder paralelo, a “loja” é a boca, o “estoque” é a droga, e os “gerentes” são os moleques que tão na linha de frente. Se um cai, o sistema não quebra. O sistema só quebra se a demanda acabar, ou se a estrutura social que alimenta a fila de 400 nomes for desmontada.

Mas quem são esses 400 da lista de espera?

Aí que a coisa aperta. Porque não adianta a gente olhar pra esses números com olhar de julgamento. “Ah, mas são vagabundos”, “tem que matar tudo”. Discurso fácil, que não resolve nada e só alimenta o ciclo de violência. A maioria desses 400 moleques que tavam na fila do Flávio Negão em 1993 — e que tão na fila hoje — são crianças e adolescentes que cresceram vendo o tráfico como a única instituição que se importou com eles. Peraí, deixa eu explicar isso direito porque é crucial. O estado não dá educação de qualidade. Não dá lazer. Não dá perspectiva de emprego. O que sobra? O pai de família que não consegue pagar as contas, a mãe que trabalha em duas casas, e o moleque de 12 anos vendo o traficante da esquina com tênis de mil reais, corrente de ouro, respeito, poder e — pasme — status.

Pra esse moleque, o traficante é o “empregador” que apareceu. É o cara que deu um prato de comida, deu um celular, deu um “papel”. É cruel, é absurdo, mas é a realidade. Então quando a polícia “desvive” um desses caras, o que acontece? O moleque que tava no 401º lugar da fila, que acabou de ver o irmão mais velho morrer, não pensa: “nossa, que tragédia, vou mudar de vida”. Ele pensa: “abriu vaga”.

Zuenir Ventura e a coragem de mostrar o outro lado

“Cidade Partida” não é um livro qualquer. É um mergulho antropológico, jornalístico e humano numa ferida aberta. Zuenir Ventura não foi pro Vigário Geral com uma câmera na mão e um colete à prova de balas pra filmar de longe. Ele foi pra dentro. Ele sentou com Flávio Negão, um cara acusado de matar policiais do Bope, e ouviu o que ele tinha a dizer. E o mais chocante? O Flávio Negão, na entrevista, não tava tentando pagar de mocinho. Ele tava explicando, com a lógica fria de quem gerencia uma empresa multimilionária, como o sistema funciona. E a frase sobre os 400 nomes foi o ápice da lucidez. Aquilo deveria ter virado política pública na hora. Deveria ter acendido uma luz vermelha na cabeça de todo mundo: “Meu Deus, não adianta só prender ou matar. A gente tem que competir com o tráfico pelo coração e pela mão de obra desses 400 moleques.” Só que a gente não fez isso.

Dados atuais: a fila só aumentou

Passaram-se 30 anos desde a publicação de “Cidade Partida”. Trinta anos. E adivinha? Onde antes tinham 400 nomes na fila de uma boca de fumo só, hoje o Brasil tem números que beiram o surreal. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o país bateu recordes consecutivos de apreensão de drogas, mas a violência não cai na proporção que deveria. Por quê? Porque o modelo é o mesmo. A polícia ainda opera na lógica do “confronto”, da “guerra”, da “remoção”. Só que remover um traficante de uma área, hoje, não significa enfraquecer o crime organizado. Significa, muitas vezes, criar uma disputa violenta pelo território vago.E aí você tem um fenômeno que virou rotina: uma facção perde o controle de uma favela pra outra, e o saldo são dezenas de corpos na rua. Cada corpo ali é um “funcionário” que foi substituído em horas. E os 400 da lista? Cresceram. Viraram milhares. Em algumas comunidades do Rio e de São Paulo, os próprios traficantes já admitem em conversas informais (aquelas que não viram livro) que têm mais moleques querendo entrar do que eles conseguem “empregar”. E aí a sobra? A sobra vira aviãozinho (olheiro), vira “soldado” do morro vizinho, ou vira alvo fácil pra facção rival.

Ironia do destino: Flávio Negão e a profecia que ele mesmo cumpriu

A história do Flávio Negão também é um capítulo à parte. Ele era um dos caras mais procurados do Rio. Ladrão de carro forte, chefe do tráfico no Vigário Geral. Ele sabia que o fim dele seria trágico. E foi. Em combate no Beco, ele foi morto por um policial do Bope, o sargento Garcez. O mesmo grupo que ele enfrentava. A guerra continuou. Mas antes de morrer, ele deixou um legado curioso: ele foi um dos primeiros traficantes a entender que o poder dele não vinha só da pistola, mas da administração. Ele sabia que enquanto ele tivesse 400 moleques querendo trabalhar pra ele, o negócio dele tava seguro. Ele era, numa palavra cruel, um “empregador” numa região onde não tinha mais ninguém contratando. E aí você pergunta: isso é uma defesa do tráfico? Claro que não. Isso é uma constatação de que a gente falhou miseravelmente em oferecer alternativa.

“Mas então qual é a solução, porra?”

Toda vez que a gente coloca esse debate na mesa, tem alguém que já vem com o dedo em riste: “Tá defendendo bandido!”. Não, amigo. Tô tentando entender por que a gente gasta bilhões em operações de guerra que não resolvem o problema de fundo. Se a gente sabe que tem uma lista de espera de 400 moleques querendo entrar pro crime, por que a gente não cria uma lista de espera de 400 vagas em escolas técnicas, em programas de aprendizagem, em cooperativas, em projetos culturais? Parece utopia? Parece. Mas enquanto a gente não encarar que o problema é estrutural — desemprego jovem, educação precária, falta de perspectiva, racismo estrutural que empurra o jovem periférico pro subemprego ou pro crime — a gente vai continuar no ciclo de “desviver” um e ver outro assumindo no dia seguinte. O Zuenir Ventura, no final de “Cidade Partida”, não dá uma receita de bolo. Ele só mostra as feridas. E a ferida principal é essa: a cidade (o Rio, São Paulo, Brasília, qualquer lugar) é partida porque tem uma parte que vive numa realidade paralela, onde o estado não chega, onde a polícia só entra pra matar, e onde o tráfico virou a única “instituição” que oferece alguma coisa.

A verdade que ninguém quer ouvir

A verdade nua e crua, sem maquiagem, sem meias-palavras, é que enquanto a gente tratar o jovem periférico como inimigo, como alvo, como “marginal”, ao invés de tratá-lo como um cidadão que o estado abandonou, a fila de espera do tráfico vai continuar lotada. E aí, quando a polícia mata um traficante de 17 anos, a gente até pode achar que deu uma “baixa”. Mas a conta do crime organizado não fecha assim. Pra eles, foi só uma demissão. E o candidato aprovado no vestibular do crime já tá na porta, esperando a chance. Então da próxima vez que você ver no jornal “Traficante é morto em confronto com a polícia”, respira fundo. Porque por trás daquele nome, tem um moleque que foi substituído em menos de 24 horas. E pior: tem uma lista de 400 outros que tão na fila, desejando estar no lugar dele. O livro “Cidade Partida” já avisou em 1994. A gente só não quis escutar.