Vizinhos, Policiais e Delatores: A Outra Face do Holocausto
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Vizinhos, Policiais e Delatores: A Outra Face do Holocausto

A Cumplicidade que Ninguém Quer Lembrar: Como a Europa Ajudou Hitler a Matar os Judeus. Tem uma história que o mundo prefere contar pela metade. A versão oficial é conhecida: Hitler foi o monstro, os nazistas foram os executores, e a Europa foi a vítima. Fim. Mas essa narrativa tem um buraco enorme no meio — um buraco do tamanho de milhões de pessoas que morreram não só pelas mãos alemãs, mas pelas mãos dos seus próprios vizinhos, policiais, burocratas e governos.

A colaboração europeia com o Holocausto é um dos temas mais desconfortáveis da história moderna, e é exatamente por isso que precisa ser contado sem rodeios.

A França que se Rendeu — e Depois Ajudou a Matar

Vamos começar pela que talvez doa mais: a França. O país da Revolução, da liberdade, da fraternidade. O país que ensinou o mundo a falar sobre direitos humanos. Em setembro de 1939, a França declarou guerra à Alemanha ao lado do Reino Unido. O mundo respirou aliviado — finalmente, uma resistência. Mas aí veio o balde de água fria. Em dez meses de guerra oficial, com um dos maiores exércitos da Europa, com a Linha Maginot construída justamente para defender o território, com recursos e aliados, a França caiu em aproximadamente quinze a vinte dias de combate real. Os alemães simplesmente contornaram a Maginot pelo norte, atravessaram as Ardenas — que a inteligência francesa achou que era impossível —, e fim de papo.

Em 22 de junho de 1940, o armistício foi assinado. Paris já havia sido ocupada doze dias antes, em 14 de junho, sem nenhuma batalha pelas ruas, sem resistência organizada, sem um Berlim em chamas para comparar. Os alemães entraram em Paris e foram recebidos com... normalidade. Cafés abertos, bistrôs funcionando, cidadãos na calçada. Não houve Stalingrado às margens do Sena. A cidade foi declarada "aberta" para evitar destruição — o que é, diplomaticamente falando, uma rendição disfarçada de elegância.

E então veio o Regime de Vichy. O governo francês se reorganizou na cidade de Vichy, sob o comando do Marechal Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, e se tornou um Estado colaboracionista. Não foi uma ocupação total no sentido em que os franceses foram obrigados a obedecer cada ordem alemã com uma arma na nuca. Em grande parte, Vichy quis colaborar. Havia uma ideologia ali, um antissemitismo que não chegou com os nazistas — já estava enraizado na sociedade francesa há décadas, alimentado por escândalos como o Caso Dreyfus no final do século XIX, quando um oficial judeu foi falsamente condenado por traição e a França se dividiu ao meio entre os que acreditaram na mentira e os que lutaram pela verdade. Quando os alemães pediram que os judeus fossem identificados, fichados e retirados da vida pública, Vichy não só concordou como foi além. O governo francês criou suas próprias leis antissemitas antes mesmo de os alemães exigirem. O Statut des Juifs, de outubro de 1940, foi uma iniciativa francesa, não alemã. Os judeus foram excluídos de cargos públicos, da imprensa, do cinema, do ensino, da advocacia. Isso foi a França falando por conta própria.

A Rafle du Vél d'Hiv: Quando a Polícia Francesa Caçou Crianças

O capítulo mais sombrio da colaboração francesa tem nome e data: a Rafle du Vél d'Hiv, a Grande Rusga do Velódromo de Inverno, em 16 e 17 de julho de 1942. Os alemães queriam prender judeus estrangeiros em Paris — adultos, para deportação. Mas foi a polícia francesa que executou a operação. Mais de 9.000 policiais e gendarmes franceses saíram pelas ruas de Paris de madrugada, batendo em portas, arrancando famílias das camas, colocando homens, mulheres e crianças em ônibus. Nenhum alemão precisava estar presente — os franceses fizeram o trabalho sozinhos. Aqui vem um detalhe que vai direto ao estômago: a ordem original alemã era deportar apenas adultos. Mas o governo de Vichy, por iniciativa própria, insistiu em incluir as crianças. A justificativa dada pelo secretário-geral da polícia, René Bousquet, era que não fazia sentido separar as famílias. Bonito, né? Só que as crianças estavam sendo mandadas para campos de extermínio na Polônia, e os funcionários franceses sabiam disso.

Cerca de 13.000 pessoas foram presas naquela operação. Mais de 4.000 eram crianças. Elas foram levadas ao Velódromo de Inverno, uma arena de ciclismo coberta sem ventilação adequada, com apenas alguns banheiros para todos, sob sol de julho, sem comida suficiente, sem água. As cenas descritas por sobreviventes são de um horror tranquilo e burocrático — exatamente o tipo de horror que Hannah Arendt chamaria de "banalidade do mal". Não havia monstros gritando; havia funcionários fazendo seu trabalho. De lá, foram transferidos para campos de internamento em Drancy, Beaune-la-Rolande e Pithiviers — campos no solo francês, administrados por franceses. E depois, para Auschwitz. No total, aproximadamente 77.000 judeus foram deportados da França durante a ocupação. A grande maioria foi assassinada. Apenas cerca de 2.500 sobreviveram aos campos.

Drancy: O Campo Francês que Poucos Conhecem

Quando se fala em campos de concentração, a mente vai imediatamente para a Polônia — Auschwitz, Treblinka, Sobibor. Mas poucos sabem que a França tinha sua própria rede de campos de internamento, sendo Drancy o mais notório. Drancy ficava nos arredores de Paris, num conjunto habitacional inacabado transformado em campo. De 1941 a 1944, funcionou como o principal ponto de triagem e embarque de judeus para os campos de extermínio no leste. Mais de 67.000 pessoas passaram por Drancy antes de serem deportadas. A administração do campo era francesa até agosto de 1943, quando os alemães assumiram o controle direto — mas por dois anos inteiros, foi a gendarmaria francesa que controlou aquele lugar. As condições eram miseráveis. Superlotação, alimentação insuficiente, falta de higiene, separação de famílias. E do lado de fora, a vida continuava normal em Paris. As pessoas pegavam o metrô, compravam baguetes, iam ao cinema. Drancy estava a menos de 15 quilômetros do centro da cidade. Existiam outros campos também: Gurs, nos Pireneus, onde judeus e refugiados espanhóis eram confinados; Rivesaltes, no sul; Récébédou, próximo a Toulouse. Todos administrados por autoridades francesas, todos servindo como antecâmaras da morte.

A Holanda: 75% dos Judeus Mortos, a Maior Taxa da Europa Ocidental

Se a França é o exemplo mais famoso de colaboração, a Holanda é o mais devastador em termos proporcionais. Em 1940, havia cerca de 140.000 judeus vivendo nos Países Baixos. No final da guerra, aproximadamente 102.000 tinham sido assassinados — uma taxa de extermínio de cerca de 75%, a mais alta de qualquer país da Europa Ocidental. Alguns historiadores trabalham com estimativas ainda maiores, chegando perto de 80%. A pergunta óbvia é: por quê? O que fez da Holanda um lugar tão letal para os judeus?

A resposta, em grande parte, está na burocracia holandesa. O Estado holandês era notoriamente organizado. Os judeus foram registrados, fichados, mapeados. Quando os alemães ocuparam o país em maio de 1940, encontraram um aparato administrativo eficiente e uma polícia treinada, e simplesmente disseram: "continue fazendo o que faz, mas agora para nós." E a polícia holandesa continuou. As forças de ordem dos Países Baixos participaram ativamente das deportações. Foram policiais holandeses que bateram nas portas, que fizeram as rusgas, que escoltaram os presos. Não eram todos — houve resistência, e houve policiais que se recusaram ou que avisaram famílias com antecedência. Mas institucionalmente, o aparato policial colaborou.

Westerbork: O Campo Holandês no Caminho para a Morte

O campo de Westerbork, no nordeste da Holanda, é o equivalente holandês de Drancy. Ironicamente, havia sido construído em 1939 pelo próprio governo holandês para abrigar refugiados judeus que fugiam da Alemanha. Com a ocupação, se tornou um campo de trânsito para deportações. De Westerbork partiram, toda terça-feira, os trens com destino a Auschwitz, Sobibor, Bergen-Belsen e Theresienstadt. É de Westerbork que Anne Frank e sua família foram deportadas em setembro de 1944, após serem descobertas no esconderijo no número 263 da Prinsengracht em Amsterdã. A guarda do campo era, em grande parte, holandesa. O comandante alemão, Albert Konrad Gemmeker, era notório por sua frieza administrativa — mas foi a engrenagem holandesa ao redor dele que manteve o campo funcionando. Havia até uma espécie de hierarquia entre os próprios prisioneiros, com judeus designados para funções administrativas dentro do campo, pressionados a ajudar a organizar os transportes — uma das mais cruéis invenções do sistema nazista, forçar as vítimas a participar de sua própria destruição.

E tem mais um detalhe que vai direto para o nervo: estima-se que cerca de 25% dos judeus holandeses sobreviventes tenham se escondido durante a ocupação, ajudados por cidadãos holandeses que arriscaram a própria vida. Isso mostra que havia uma escolha. Nem todo holandês colaborou. Mas o Estado, como estrutura, colaborou — e isso fez toda a diferença.

Lituânia e Letônia: Onde o Massacre Começou Antes dos Alemães Chegarem

Se a França e a Holanda são casos de colaboração burocrática, a Lituânia e a Letônia são casos de participação direta e, em muitos casos, entusiasmada no assassinato em massa.
Quando as forças alemãs entraram nos países bálticos em junho de 1941, em alguns lugares os massacres de judeus já haviam começado antes dos alemães chegarem. Grupos de nacionais lituanos, nutridos de um antissemitismo profundo e de um ódio ao regime soviético que havia ocupado o país no ano anterior — e que associavam os judeus ao comunismo soviético, numa generalização brutal e mentirosa, mas amplamente acreditada —, iniciaram pogroms por conta própria.

Em Kaunas, segunda cidade da Lituânia, houve massacres nas ruas nos primeiros dias da chegada alemã. O Forte IX, nos arredores da cidade, se tornou um dos maiores locais de extermínio do país — mais de 30.000 pessoas foram assassinadas ali. A maioria dos executores era lituana. Os Sonderkommandos lituanos — unidades paramilitares locais — foram inteiramente voluntários. Eles se alistaram, pegaram as armas e foram para as florestas atirar em judeus. O mais famoso desses locais é o de Ponary, perto de Vilnius: uma série de poços cavados pelos soviéticos para armazenar combustível, que os nazistas e seus auxiliares lituanos transformaram em valas coletivas. Entre 70.000 e 100.000 pessoas foram assassinadas em Ponary — judeus, poloneses, russos, outros lituanos considerados indesejáveis. A maioria dos atiradores era lituana.

A taxa de extermínio dos judeus lituanos foi de aproximadamente 95% — das mais altas de qualquer comunidade judaica na Europa. Em 1941, havia cerca de 220.000 judeus na Lituânia. No final da guerra, restavam menos de 10.000. Na Letônia, o quadro é semelhante. Havia cerca de 90.000 judeus no país antes da guerra. Cerca de 85% foram assassinados. A Arājs Kommando, uma unidade letã voluntária liderada por Viktors Arājs, é responsável pelo assassinato de dezenas de milhares de pessoas — não só judeus, mas também pacientes psiquiátricos, ciganos e outros. Arājs foi julgado e condenado na Alemanha Ocidental apenas em 1979, décadas depois de ter vivido tranquilamente sob identidade falsa.

Ucrânia: Voluntários para Guardar os Campos

O caso ucraniano é ainda mais complexo, porque a Ucrânia vivia sob ocupação soviética desde 1939 e carregava traumas profundíssimos — incluindo o Holodomor, o genocídio por fome imposto por Stalin nos anos 1930, que matou entre 3 e 5 milhões de ucranianos. Parte da população ucraniana via os alemães como libertadores, numa ilusão que logo se desfez quando os nazistas demonstraram que também desprezavam os eslavos.

Mas durante o período de colaboração, alguns ucranianos serviram ativamente no aparato de extermínio. Os guardas Trawnikis — treinados num campo chamado Trawniki, na Polônia —, incluíam ucranianos, letões, lituanos e outros cidadãos soviéticos recrutados ou que se voluntariaram para servir como guardas em campos de extermínio e nas operações de deportação. Para muitos, era uma alternativa a morrer como prisioneiro de guerra — uma escolha horrível entre ser vítima ou algoz. Para outros, foi uma escolha que fizeram com menos pressão do que se admite.

O caso mais famoso de um guarda Trawniki é o de John Demjanjuk, ucraniano naturalizado americano, que passou décadas sendo processado — primeiro identificado erroneamente como o brutal "Ivan, o Terrível" de Treblinka, depois condenado na Alemanha em 2011 como cúmplice de assassinatos em Sobibor. Morreu antes que o recurso fosse julgado, mas o caso jogou luz sobre toda uma classe de colaboradores que viveram décadas em paz nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. A participação ucraniana em massacres diretos também é documentada — especialmente em Babyn Yar, o ravine nos arredores de Kiev onde, em 29 e 30 de setembro de 1941, 33.771 judeus foram assassinados em dois dias pelos Einsatzgruppen alemães, auxiliados por forças ucranianas e milícias locais. É um dos maiores massacres em dois dias de toda a guerra.

A Economia do Ódio: Quanto Valia Denunciar um Judeu

Há uma dimensão que raramente aparece nos livros didáticos, mas que é fundamental para entender por que tanta gente colaborou: a motivação econômica. Delatar um vizinho judeu não era só um ato ideológico. Era, em muitos casos, um negócio. Em vários países ocupados, havia recompensas financeiras pela entrega de judeus. Na Polônia, por exemplo, a pena por esconder um judeu era a morte para toda a família, mas havia também quem delatasse em troca de dinheiro, comida, álcool ou simplesmente para ficar com os bens da vítima. Quando uma família judia era removida de sua casa, os móveis, as roupas, as louças, os objetos de valor — tudo ficava para ser saqueado. Em alguns lugares, havia listas de espera para pegar os apartamentos de judeus deportados.

Na França, houve casos documentados de franceses que denunciaram judeus escondidos para as autoridades, às vezes por razões ideológicas, às vezes por desavenças pessoais, às vezes por pura cobiça. Os bens dos judeus deportados foram confiscados — empresas, imóveis, contas bancárias — e redistribuídos ou vendidos. Houve franceses que compraram apartamentos confiscados de judeus a preços irrisórios, sabendo perfeitamente de onde vinham.

Na Holanda, o paradoxo doloroso é que havia uma recompensa de sete florins e meio por judeu entregue à polícia — uma quantia pequena, mas suficiente para motivar informantes. Acredita-se que Anne Frank e sua família foram denunciadas por alguém — a identidade do delator nunca foi definitivamente estabelecida, mas pesquisadores do Anne Frank Huis trabalharam por décadas tentando descobrir. A pergunta "quem delatou a família Frank?" permanece uma das mais perturbadoras da história do século XX. O antissemitismo, portanto, não era só um fenômeno de ódio puro. Era também um sistema de incentivos. Se eu te denuncio, você some, e eu fico com a sua casa. Com a sua loja. Com o seu piano. Com as suas roupas. Era uma redistribuição de riqueza lubricada pelo ódio — e isso tornava muita gente economicamente interessada na perseguição.

Os Números que Não Deixam Mentir

Às vezes, a melhor maneira de entender a escala de uma tragédia é olhar para os números crus, sem filtro. Antes de falar nas porcentagens, é preciso ter em mente que cada unidade desse número era uma pessoa. Com nome, com família, com história, com planos para o futuro. Dito isso, os dados são os seguintes:

Na Polônia, havia cerca de 3,3 milhões de judeus antes da guerra. No final, estima-se que entre 2,9 e 3 milhões foram assassinados — uma taxa de extermínio de aproximadamente 90%. A Polônia foi o centro do Holocausto não por acaso: foi ali que os alemães instalaram os campos de extermínio industriais porque a maior concentração de judeus europeus estava ali. Mas a colaboração de parte da população polonesa — e a indiferença de outra parte — também facilitou o processo.

Na Lituânia, como já mencionado, cerca de 95% dos judeus foram mortos. É um número quase impossível de processar.

Na Letônia, entre 85 e 90%.

Na Holanda, entre 75 e 80%.

Na Hungria, o caso é peculiar: os húngaros eram aliados da Alemanha nazista, não ocupados, e durante anos o governo Horthy conseguiu proteger relativa mente os judeus húngaros de deportações em massa. Mas em março de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria — agora desconfiando de que Horthy queria sair da guerra —, os judeus húngaros foram deportados em uma velocidade aterrorizante. Em menos de dois meses, de maio a julho de 1944, cerca de 437.000 judeus húngaros foram transportados para Auschwitz. A taxa de extermínio final ficou em torno de 50% — um número "baixo" comparado aos demais apenas porque os húngaros tinham sido protegidos por mais tempo.

Na França, a porcentagem de judeus assassinados foi de aproximadamente 25% — menor que nos outros países citados —, em parte porque muitos judeus franceses conseguiram se esconder na zona livre antes de 1942, em parte porque a resistência foi real (mesmo que tardia), e em parte porque a ocupação alemã era menos total no sul do país. Mas 77.000 mortos ainda é uma catástrofe de dimensões inimagináveis.

No total, o Holocausto matou aproximadamente 6 milhões de judeus — dois terços de todos os judeus da Europa, e cerca de um terço de todos os judeus do mundo na época.

O Silêncio Pós-Guerra: Como a Europa Apagou Sua Cumplicidade

Quando a guerra acabou, o mundo precisava de uma narrativa. E a narrativa escolhida foi simples: os nazistas foram os culpados, a Alemanha foi punida, e os demais povos europeus foram vítimas ou resistentes heroicos. Na França, o mito do gaullismo dominou décadas: a ideia de que a França tinha resistido, de que Vichy era um governo fantoche e excepcional, de que a maioria dos franceses havia desejado a libertação. Charles de Gaulle, que liderou a França Livre de Londres, tinha interesse político em construir essa narrativa — uma França que se havia entregue não podia sentar à mesa dos vencedores com a mesma moral de quem havia lutado até o fim.

O problema é que essa narrativa era, em grande parte, uma mentira confortável. Foi o historiador Robert Paxton, um americano, quem demoliu o mito em 1972 com o livro Vichy France: Old Guard and New Order, mostrando com documentação exaustiva que Vichy não foi uma capitulação forçada, mas uma colaboração ideológica e entusiasmada. A recepção do livro na França foi, como se pode imaginar, turbulenta. A França só reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado francês no Holocausto em 1995, quando o presidente Jacques Chirac fez um discurso histórico admitindo que "a França, nesse dia, cometeu o irreparável." Antes disso, a posição oficial era de que o Estado francês durante a guerra era Vichy — um governo ilegítimo —, e portanto a República não era responsável. Chirac quebrou isso.

Na Holanda, a reconciliação com o passado também demorou. Durante décadas, o mito holandês era o da resistência: o país que havia protegido Anne Frank, que havia se levantado em greve geral em fevereiro de 1941 para protestar contra as deportações de judeus (a chamada Greve de Fevereiro — que de fato aconteceu e foi um ato de resistência notável). O que ficou menos enfatizado foi que a taxa de extermínio holandesa foi a mais alta do Ocidente europeu justamente porque a colaboração foi alta também. Os dois fatos coexistem. Na Lituânia e na Letônia, a chegada de lituanos e letões das comunidades da diáspora — muitos descendentes de colaboradores que fugiram para o Ocidente após a guerra — gerou, durante décadas, um cuidado especial em não falar sobre o passado. O retorno da independência em 1991 trouxe consigo um processo lento, e ainda inacabado, de confronto com a história.

Os Que Escolheram Diferente: O Lado que Não Pode Ser Esquecido

Seria uma injustiça terminar essa história sem falar dos que escolheram diferente. Em cada país citado, houve pessoas que arriscaram a vida para esconder, proteger ou ajudar judeus. O Yad Vashem, o memorial do Holocausto em Jerusalém, mantém um programa chamado "Justos entre as Nações", que honra não-judeus que salvaram judeus durante a guerra arriscando a própria vida. Até hoje, mais de 27.000 pessoas foram reconhecidas — entre eles, holandeses, franceses, poloneses, lituanos, ucranianos.

Raoul Wallenberg, um diplomata sueco em Budapeste, salvou dezenas de milhares de judeus húngaros distribuindo passaportes suecos falsos e criando "casas suecas" protegidas pela imunidade diplomática. Foi preso pelos soviéticos ao final da guerra e nunca mais voltou — sua morte em prisão soviética permanece enevoada em mistério e debates. Na Holanda, Corrie ten Boom e sua família esconderam judeus em Haarlem até serem delatados. Na Itália, Gino Bartali — o ciclista, sim, aquele — transportou documentos falsos escondidos dentro do quadro de sua bicicleta, ajudando uma rede de salvamento de judeus, um feito que só veio a público décadas após sua morte. Essas histórias importam porque mostram que havia uma escolha. Colaborar não era inevitável. Denunciar não era inevitável. Havia sempre, em qualquer situação, a possibilidade de recusar — com risco altíssimo, com consequências potencialmente fatais, mas havia. E alguns escolheram o caminho difícil.

Os Judeus Que Sobreviveram e Foram Embora — Com Razão

Quando a guerra acabou, os sobreviventes do Holocausto se viram numa Europa destruída, num mundo que havia tentado apagá-los. E muitos voltaram para as cidades onde tinham nascido, só para descobrir que suas casas estavam ocupadas por outras pessoas. Que seus vizinhos estavam usando os móveis deles. Que os negócios da família tinham sido vendidos. Que ninguém queria devolver nada.Em alguns lugares, os judeus que voltaram foram recebidos com hostilidade — houve pogroms no pós-guerra na Polônia, o mais notório sendo o de Kielce, em julho de 1946, quando 42 judeus sobreviventes foram assassinados por poloneses, mais de um ano depois do fim da guerra. Isso não foi a Alemanha nazista. Foi a Polônia livre, no pós-guerra, matando sobreviventes do Holocausto. Não dá para culpar quem decidiu ir embora.

Uma grande parte dos sobreviventes foi para Israel — especialmente após 1948, quando o Estado judeu foi criado. Mas muitos também foram para outros lugares: Estados Unidos, Argentina, Austrália, e o Brasil. O Brasil tem uma história curiosa e complexa com a imigração judaica. Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, tinha uma política oficial que dificultava a imigração de judeus — havia circulares secretas que instruíam cônsules a negar vistos a pessoas de "raça semita". Judeus refugiados que tentavam chegar ao Brasil no auge da perseguição europeia muitas vezes foram barrados. Mas muitos conseguiram entrar assim mesmo — com documentos falsos, subornando funcionários, ou chegando em janelas de maior abertura política. E os que chegaram, em sua maioria, encontraram um país onde podiam trabalhar, construir, viver. Não era um paraíso sem preconceito — o antissemitismo existia no Brasil também, e de formas às vezes sutis e às vezes explícitas. Mas era um lugar onde era possível existir sem ser caçado pelo Estado.

Para quem havia sobrevivido à Europa dos anos 1930 e 40, isso era quase um milagre. A comunidade judaica no Brasil cresceu, fincou raízes, construiu sinagogas, escolas, hospitais, negócios. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em Curitiba, em Recife. Os descendentes dessas famílias estão por toda parte no país hoje — em cada área da vida econômica, cultural, acadêmica e social brasileira. E há, nessas famílias, uma memória que não se apaga. A memória de quem sabe que sobreviveu por sorte, que deixou para trás cidades inteiras que foram varridas do mapa, que tem sobrenomes que não existem mais na Europa porque não sobrou ninguém para carregá-los.

O Que Fazer com Essa História

Contar essa história não é um exercício de punição coletiva. Não é dizer que todos os franceses, holandeses, lituanos ou ucranianos são culpados pelo Holocausto. A culpa coletiva é uma ferramenta intelectualmente preguiçosa e moralmente perigosa. É dizer que Estados colaboraram. Que instituições colaboraram. Que havia motivação ideológica, econômica e social para a colaboração — e que entender essas motivações é fundamental para não repetir o erro de achar que o Holocausto foi um episódio isolado de loucura alemã que nunca mais vai se repetir.

Porque não foi. Foi um sistema que funcionou porque muita gente quis que funcionasse, ou não se importou o suficiente para que não funcionasse. O antissemitismo que alimentou o Holocausto não foi criado pelos nazistas. Estava espalhado pela Europa há séculos — nas Cruzadas, na Inquisição, nos pogroms russos, nos guetos medievais, nas leis de exclusão. Os nazistas pegaram um preconceito que já existia e o industrializaram. E encontraram parceiros dispostos em quase todos os países que ocuparam. Isso não exime a Alemanha de nada. A Alemanha concebeu, planejou e executou o Holocausto. Mas a ideia de que foi só a Alemanha é uma falsidade que serviu para toda a Europa lavar as mãos e seguir em frente. E a história não permite isso.