Dica de Cinema

Como X-Men mudou Hollywood sem você perceber

Como X-Men mudou Hollywood sem você perceber

Vamos combinar: se você tivesse ouvido em 1999 que um filme com um australiano completamente desconhecido, um capitão da Enterprise careca e um punhado de atores britânicos vestidos de coure preto ia redefinir o cinema blockbuster, provavelmente teria pedido outra rodada e mudado de assunto. Afinal, a memória mais recente que o público tinha de adaptações de quadrinhos era aquela tragédia chamada Batman & Robin, com mamilos de borracha e gelo seco.

Os super-heróis tinham virado piada. Estavam mortos e enterrados, coitados. Mas aí, no verão americano de 14 de julho de 2000, um grupo de párias genéticos entrou em cena e fez algo que ninguém esperava: eles salvaram o gênero. E fizeram isso sem uniformes coloridos, sem palhaçada, e com um discurso sobre preconceito que até hoje ecoa mais alto que qualquer explosão. Bem-vindo à matéria definitiva sobre X-Men (2000). Senta que o Professor Xavier vai te explicar como funciona.

A história que você acha que sabe (mas provavelmente não)

O filme começa de um jeito que nenhuma adaptação de quadrinhos tinha coragem de fazer: num campo de concentração nazista, 1944. Enquanto um menino judeu é separado dos pais, ele estica a mão em direção ao portão... e ele entorta. O garoto é Erik Lehnsherr, e aquela raiva, aquela dor, acabam de despertar um poder absurdo de controlar metal. Pesado, né? Pois é. O diretor Bryan Singer já estava entregando o recado: isso aqui não é pra criança pintar o rosto e sair por aí. É sobre trauma. Sobre ser diferente num mundo que te odeia por isso. Corta para o presente (bem, o presente de 2000). A gente conhece Marie D'Ancanto, uma garota comum do Mississipi que tem um probleminha: se ela encostar em alguém com pele, a pessoa entra em coma. Num beijo com o namoradinho, quase mata o coitado. Desesperada, ela foge de casa e acaga encontrando Logan, um sujeito brutamontes que participa de lutas clandestinas no Canadá e tem um esqueleto de metal e garras que saem das mãos. Ah, e ele também não lembra quase nada do próprio passado. Os dois viam amigos improváveis enquanto são perseguidos por um agente do governo que quer capturar mutantes.

É aí que a tal "van" aparece. Na verdade, um jato particular super tecnológico, pilotado por um cara com visor vermelho (Ciclope) e uma mulher de cabelo branco (Tempestade). Eles levam Logan e Vampira para conhecer o tal Professor Charles Xavier — o careca da cadeira de rodas que, ao contrário do que todo mundo esperava, não está num hospício, mas numa escola. Uma mansão gigantesca cheia de jovens mutantes aprendendo a controlar seus poderes.

É dentro dessa escola que o filme ganha alma. Enquanto Xavier acredita na coexistência pacífica entre humanos e mutantes, seu velho amigo Erik — agora autointitulado Magneto — está cansado de esperar. Ele viveu na pele o que acontece quando uma sociedade resolve "eliminar" os diferentes. E quando o Senador Kelly começa a articular uma lei de registro obrigatório de mutantes (tipo um "RG" que te coloca num campo de concentração), Magneto decide agir. Seu plano? Transformar os líderes mundiais em mutantes à força, usando um dispositivo na Estátua da Liberdade. E é ali, na coroa da Lady Liberdade, que o bicho pega. Wolverine, Ciclope, Jean Grey, Tempestade e Vampira — mesmo sem treinamento direito — enfrentam a Irmandade de Mutantes: Mística (aquela azul que muda de forma), Dente-de-Sabre (um tanque de músculos) e Sapo (um cara elástico que cospe). O confronto final é tenso, confuso, e termina com Magneto sendo preso... numa prisão de plástico, já que metal não segura ele. Mas a mensagem fica: os X-Men existem. E tão só começando.

Onde a realidade supera a ficção: bastidores que parecem mentira

Se você acha que a história do filme é boa, espera até conhecer o que aconteceu fora das telas. Porque, sinceramente, X-Men quase não aconteceu. E quando aconteceu, foi por um triz. O Wolverine que não era pra ser. Você consegue imaginar alguém além do Hugh Jackman com as garras? Pois saiba que o estúdio queria Russell Crowe, que recusou. Depois tentaram Keanu Reeves, Viggo Mortensen (isso mesmo, o Aragorn) e até Edward Norton. O escolhido foi o escocês Dougray Scott, mas ele teve que largar o papel por causa de Missão: Impossível 2. Entra Hugh Jackman, um ator australiano de musical, tão desconhecido que a própria esposa dele brincou: "Ah, então vão contratar um ator de verdade?" . Ele chegou no set no meio das filmagens, sem tempo pra preparação física. E ainda assim entregou o Wolverine definitivo. Detalhe: nas cenas de ação, Jackman usou 700 lâminas diferentes das garras, entre versões de plástico, madeira e aço .

O elenco que não sabia jogar xadrez. Patrick Stewart e Ian McKellen são cavaleiros da rainha da Inglaterra, dois monstros sagrados da interpretação. Mas tem uma coisa que eles não sabiam fazer: jogar xadrez. Aquelas cenas filosóficas dos dois no jardim? Tiveram que chamar um mestre de xadrez pra ensinar os caras a mexer as peças .

O Inferno da Mística. Rebecca Romijn passou por um verdadeiro calvário. Eram nove horas por dia na maquiagem, com 110 próteses coladas no corpo. Ela não podia usar hidratante, não podia voar de avião no dia anterior (a pressão alterava a química do corpo e as próteses caíam), e quando não estava gravando, ficava trancada num quarto sem janelas pra ninguém ver o visual. Ela mesma descreveu como "um inferno". No último dia de filmagem, ela levou uma tequila pra comemorar... só que era justo o dia da luta com Wolverine. Ela vomitou azul em cima do Hugh Jackman .

O menino que roubou a cena. Na estação de trem, tem um momento em que Ciclope olha pra um garotinho e sorri. Aquilo não tava no roteiro. O menino era fã dos quadrinhos, amava o Ciclope, e não parava de sorrir pro ator James Marsden. O diretor achou tão fofo que manteve no corte final. O Easter Egg do Homem-Aranha. Bryan Singer pregou uma peça nos atores: vestiu um dublê com a roupa do Homem-Aranha e mandou ele invadir o set. O "Peter Parker" entra em cena, olha em volta, e sai correndo quando vê que tá no filme errado. Ciclope ainda sai correndo atrás. A cena tá nos extras do DVD .

O banho gelado do Wolverine. Hugh Jackman tomava banho gelado todo santo dia de manhã pra entrar no personagem. Começou por acidente (não tinha água quente no hotel), mas ele percebeu que aquela sensação de querer gritar de raiva mas ter que segurar era exatamente a mente do Wolverine. Virou tradição.

O legado invisível: como um filme mudou as regras do jogo

X-Men não foi o primeiro filme de super-herói de sucesso. Isso foi Superman (1978). Também não foi o mais lucrativo. Mas ele é, de longe, o mais importante . Por quê? Porque ele provou que público estava pronto pra levar quadrinhos a sério. Até então, estúdios achavam que filme de herói tinha que ser infantil, colorido, com vilões caricatos. X-Men chegou com um dramalhão pesado, metáforas sobre racismo e homofobia, e um visual soturno que beirava o thriller político. E deu certo. Faturou US$ 57,5 milhões só no fim de semana de estreia — a segunda maior abertura do ano, atrás apenas de Missão: Impossível 2 . No total, passou dos US$ 296 milhões mundialmente. Mas o impacto vai além da grana. Foi nesse set que um produtor associado, fã de quadrinhos, aprendeu como adaptar histórias sem desrespeitar o material original. O nome dele? Kevin Feige. Hoje, ele comanda o MCU, o universo cinematográfico da Marvel que bateu todas as bilheterias possíveis. Sem a experiência de X-Men, talvez Feige não tivesse aprendido a equilibrar fidelidade e inovação .

O elefante azul na sala: Bryan Singer e a sombra no legado

Falar de X-Men sem falar de Bryan Singer é impossível. E falar de Bryan Singer sem falar das acusações contra ele também é. Em 2014, começaram a vir a público denúncias de abuso sexual envolvendo o diretor, incluindo casos com menores de idade. O assunto é grave, extenso, e até hoje rende processos e debates. O que fazer com isso? A obra sobrevive ao criador? É uma pergunta sem resposta fácil. O fato é que dezenas de artistas talentosos — os atores, roteiristas, maquiadores, figurinistas — dedicaram anos da vida pra fazer esse filme acontecer. Lauren Shuler Donner, a produtora que passou 17 anos tentando tirar o projeto do papel, merece crédito. O roteirista David Hayter, que escreveu 28 versões do roteiro, merece crédito. Os atores que transformaram aqueles personagens em ícones merecem crédito. A história do cinema é feita de contradições, e X-Men é uma delas .

Por que você ainda deveria assistir hoje

Se você for rever X-Men agora, vai notar algumas coisas: os efeitos especiais envelheceram mal (o Sapo é tosco, a Tempestade voa igual um desenho da Xuxa), o uniforme de couro preto é meio sem graça, e a ação final parece mais um ensaio de teatro do que um blockbuster. Mas o coração do filme continua intacto. A cena em que Vampira descobre que tem amigos, a primeira vez que Wolverine solta as garras no bar, o discurso do Magneto sobre nunca mais ser controlado — tudo isso funciona porque o filme acredita na própria mensagem. Ele não tem vergonha de ser sobre preconceito. Ele não tem vergonha de mostrar que os "heróis" são imperfeitos, raivosos, confusos.

E tem mais: o filme plantou sementes que só floresceram depois. A mansão, os alunos nos corredores, a tensão entre Ciclope e Wolverine, o amor proibido de Jean Grey. Quem assistiu X-Men em 2000 não sabia, mas tava vendo o piloto de uma série que duraria 20 anos e 12 filmes.

Curiosidades que você vai usar pra impressionar os amigos

Stan Lee aparece como vendedor de cachorro-quente. É o único momento em que o cameo dele não tem fala.

O nome da Vampira. Nos quadrinhos, ela nunca teve nome civil. O filme batizou ela de Marie D'Ancanto. Joss Whedon escreveu o roteiro. Sim, o diretor de Os Vingadores fez uma versão, mas só duas falas foram aproveitadas. Uma delas é a famosa piada do sapo ("Vocês nunca morrem?").

Os alunos de fundo são personagens famosos. Jubileu, Vampira, Homem de Gelo, Colossus e Kitty Pryde tão ali, na mansão, sem nenhum destaque.

O visual da Tempestade. Halle Berry odiou as lentes de contato brancas. Usou uma vez, quase cegou, e exigiu que os olhos fossem feitos em computador.

O que vem depois? (E o que poderia ter sido)

X-Men abriu caminho pra tudo que veio depois: Homem-Aranha (2002), Batman Begins (2005), e eventualmente o MCU. Mas a franquia X-Men em si foi uma montanha-russa. Teve o auge com *X-Men 2* (2003), o desastre de O Confronto Final (2006), a vergonha de X-Men Origens: Wolverine (2009), a redenção com Primeira Classe (2011), a obra-prima Dias de um Futuro Esquecido (2014), e o desfecho amargo de Logan (2017). E agora? A Disney comprou a Fox. Os mutantes vão entrar no MCU. Em breve, vamos ter um novo Xavier, um novo Wolverine. Mas nenhum deles vai apagar o que Hugh Jackman, Patrick Stewart e companhia fizeram. Eles não foram apenas atores num filme de herói. Eles foram pioneiros. Eles enfrentaram um estúdio que não acreditava no projeto, um público cético, e uma indústria que zombava de quadrinhos. E venceram.

Pra fechar com chave de adamantium

X-Men (2000) é um filme sobre aceitação. Sobre aprender a conviver com o que te faz diferente. Sobre escolher entre o medo e a esperança. Charles Xavier ensina que as pessoas podem mudar, que o diálogo é possível. Magneto alerta que a história não perdoa os ingênuos. E Wolverine, no meio do fogo cruzado, só quer saber de uma coisa: quem ele é. No fim, a resposta tá menos nas garras e mais no coração. Ou, como diria o próprio Logan: "Você é uma pessoa de sorte. A maioria das pessoas nunca descobre o que realmente quer." Os mutantes descobriram. E nós, espectadores, também. Agora, se me permite, vou ali tomar um banho gelado. É pra entrar no personagem.

 

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