Nobel, LSD e verdades incômodas: a vida de Kary Mullis

Nobel, LSD e verdades incômodas: a vida de Kary Mullis

O Gênio Que o Mundo Preferiu Esquecer: A Vida, as Verdades e a Morte Misteriosa de Kary Mullis. O homem que dividiu a biologia em antes e depois — e foi silenciado antes de poder falar. Imagine que você inventa algo tão poderoso, tão revolucionário, que a imprensa mundial o compara ao impacto da eletricidade. Imagine que o New York Times escreve sobre a sua descoberta dizendo que ela "dividiu a biologia em duas épocas: antes e depois".

Imagine ganhar o Nobel. E aí, no auge da relevância da sua invenção — quando o mundo inteiro estaria usando ela para diagnosticar uma pandemia —, você simplesmente não está mais aqui para dar a sua opinião. Essa é a história de Kary Banks Mullis. E ela é muito mais estranha, densa e perturbadora do que qualquer livro de ficção científica.

Quem era esse cara, afinal?

Kary Banks Mullis nasceu em 28 de dezembro de 1944, em Lenoir, na Carolina do Norte, próximo às Blue Ridge Mountains. Desde menino, tinha aquela faísca que a gente identifica nos gênios antes mesmo de saberem o que são: ele descreveu seu interesse precoce em química, aprendendo como sintetizar quimicamente e construir foguetes de propulsão a combustível de estado sólido como estudante do ensino médio durante a década de 1950. O garoto não brincava de carrinho — ele construía foguetes no quintal.

Mullis recebeu um diploma de bacharel em química pelo Georgia Institute of Technology em 1966, e depois ganhou um PhD em bioquímica pela Universidade da Califórnia, Berkeley, em 1972. Mas aí vem a parte que ninguém te conta na escola: depois do doutorado, o futuro Nobel abandonou a ciência. Foi trabalhar em padaria. Isso mesmo. Após receber o doutorado, Mullis se afastou da ciência para perseguir um interesse em escrever ficção, e depois passou cerca de dois anos trabalhando em uma padaria. Parece improvável, né? Um gênio bioquímico atrás de um balcão vendendo pão. Mas era ele. Um cara com a cabeça cheia de moléculas e DNA, escolhendo amassar farinha. Até que a ciência o chamou de volta.

A ideia que surgiu numa estrada de montanha (e talvez com um pouco de ajuda do LSD)

Mullis trabalhou na Cetus Corporation como químico de DNA a partir de 1979, e foi lá, em 1983, que ele inventou o procedimento da reação em cadeia da polimerase (PCR). Mas a história de como essa ideia nasceu é tão exótica que parece roteiro de filme. O bioquímico Kary Mullis conta que estava viajando de carro da baía de São Francisco até seu chalé em Mendocino em 1983 quando, tão repentinamente quanto um raio que corta o céu da Califórnia, ele inventou uma maneira de localizar uma parte específica de DNA e sintetizar uma enorme quantidade de cópias. Era uma sexta-feira à noite, a estrada serpenteava à luz da lua e, de repente, a fiação do universo se conectou na cabeça dele.

E o LSD? Mullis não escondia isso. Falava abertamente sobre o uso de substâncias psicodélicas durante seus anos em Berkeley. Sobre a relação entre o LSD e a invenção do PCR, ele disse: "Se eu nunca tivesse tomado LSD, será que eu teria inventado o PCR? Não sei. Mas duvido. Eu seriamente duvido." É claro que isso chocou o establishment científico. Mas Mullis nunca se importou muito com o que o establishment pensava. Esse era justamente o problema dele — e talvez o seu maior valor. Mullis demonstrou com sucesso o PCR em 16 de dezembro de 1983, mas a equipe permaneceu circunspecta enquanto ele continuava a produzir resultados ambíguos em meio a supostos problemas metodológicos. Os colegas não acreditaram de cara. Claro que não. É assim que funciona com os gênios: primeiro a gente ri, depois nomeia laboratórios com o nome deles.

O que é a PCR, afinal? Explicando sem enrolação

Antes de entrar na controvérsia, vale entender o que Mullis realmente inventou, porque é aí que tudo se encaixa. A PCR — Polymerase Chain Reaction, ou Reação em Cadeia da Polimerase em português — é basicamente uma máquina de xerox do DNA. A técnica permite copiar bilhões de vezes uma sequência específica de DNA em apenas poucas horas. Pega um fragmento minúsculo de material genético, quase invisível para qualquer instrumento, e o amplifica até que seja possível detectá-lo, estudá-lo, analisá-lo. O processo envolve quatro ingredientes: o DNA de dupla fita a ser copiado, chamado de DNA modelo; dois primers oligonucleotídeos; nucleotídeos, os blocos de construção químicos que compõem o DNA; e uma enzima polimerase que copia o DNA. Esses ingredientes são aquecidos, fazendo o DNA se separar em dois filamentos, e depois resfriados, permitindo que os primers se fixem às sequências complementares nos filamentos. Esse ciclo se repete várias vezes, e a cada rodada o material se duplica. Dois viram quatro. Quatro viram oito. Oito viram dezesseis. Em poucos ciclos, você tem milhões de cópias.

É exatamente por isso que o New York Times disse que a PCR dividiu a biologia em dois períodos: ela foi utilizada em tarefas tão diversas quanto decodificar o genoma humano e salvar recifes de corais. Foi a PCR que permitiu o surgimento do Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990 pelo cientista James Watson com o objetivo de mapear o genoma do ser humano. E sim — sem a descoberta de Mullis, o filme Jurassic Park provavelmente nunca teria existido, já que foi a técnica do PCR que inspirou a teoria de que os dinossauros poderiam ser clonados a partir do DNA fossilizado. Não é pouca coisa.

O Nobel, os 10 mil dólares e a venda por 300 milhões

Em 1993, Mullis recebeu o Nobel de Química. Ao sair da Cetus, a empresa pagou a Mullis alguns meses de salário e um bônus de US$ 10.000, o maior da história da empresa já pago a um cientista por sua invenção. A Cetus deteve os direitos da tecnologia — e a partir desse ponto a contribuição de Mullis para o desenvolvimento da PCR foi, em sua maior parte, popularizar a tecnologia em eventos de palestras e consultorias. Mais tarde, esses mesmos direitos que custaram à empresa dez mil dólares para ele foram vendidos por... trezentos milhões de dólares.

Mullis inventou uma das tecnologias mais valiosas da história da medicina moderna e ganhou dez mil reais de bônus por isso. Tem história mais capitalista que essa? O cara que fez a fortuna dos outros levou dez mil e uma fama que virou Nobel. Pelo menos o Nobel veio. Mullis ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1993 pela invenção da tecnologia PCR. E no discurso de agradecimento, sendo Mullis, não deu outra: foi cheio de irreverência. Segundo fontes, ele aproveitou o momento para narrar sua vida de um jeito que desconcertou boa parte da audiência sueca — falando de estradas noturnas, namoradas e da solidão de um cientista que havia acabado de mudar o mundo enquanto a namorada o deixava.

O lado B de um Nobel: excentricidades que custaram caro

Aqui a gente precisa ser honesto sobre Mullis — e honestidade total é o que esta matéria propõe. Ele não era um santo. Era um gênio, o que é uma coisa completamente diferente.
Mullis adquiriu uma reputação por comportamento errático na Cetus, uma vez ameaçando trazer uma arma para o trabalho; ele também se envolveu em "brigas amorosas em público" com sua namorada da época e "quase veio a socos com outro cientista" numa festa da equipe. Durante sua vida, Mullis também negou que o vírus HIV causava AIDS, questionou a influência humana nas mudanças climáticas, mostrou imagens de mulheres nuas em palestras e fez comentários sexistas a jornalistas. Isso custou caro para a sua reputação no mundo científico tradicional. Os céticos o chamavam de louco, de negacionista, de excêntrico perigoso.

As afirmações anticientíficas de Mullis sobre tópicos fora de sua área de especialização foram nomeadas pelo Skeptical Inquirer como um exemplo de "doença Nobel" — a tendência de laureados com o Nobel a depois se aventurarem em áreas onde não têm expertise e fazerem declarações controversas. Mas tem uma diferença importante que muita gente não faz: uma coisa é Mullis negando o papel do HIV na AIDS — aí sim, ele estava fora do seu terreno e as evidências científicas o contradizem — e outra coisa completamente diferente é Mullis falando sobre as limitações do PCR, a tecnologia que ele próprio criou. Nisso, a opinião dele não é a de um curioso: é a de quem fez a coisa funcionar.

"O PCR não te diz que você está doente" — e o que isso realmente significa

Esta é a frase que virou bomba no mundo todo durante a pandemia de Covid-19. E precisa de contexto honesto, sem maquiagem de nenhum dos lados. Mullis disse em diversas ocasiões: "O PCR, se você fizer bem, você pode encontrar quase qualquer coisa em qualquer pessoa." E completou, em entrevistas que circularam amplamente depois de 2020: "PCR é apenas um processo que é usado para fazer muito de alguma coisa a partir de alguma coisa. Não diz que você está doente, e não diz que a coisa que você tem vai realmente te machucar." Isso é conspiração? Não. Isso é técnica. O ponto central de Mullis era o seguinte: a PCR amplifica material genético. Ela não mede quantidade relevante de vírus — ela detecta presença. E presença não é o mesmo que doença ativa. Quanto mais ciclos de amplificação são usados no PCR, mais probabilidade há de testar positivo. Mullis abordava a questão do que deve ser considerado significativo — que é a questão central do uso dos testes PCR.

Paradigmas

Isso tem suporte técnico. Levantamentos revelaram que até 90% dos diagnosticados positivos para o vírus da Covid-19 não têm carga viral para adoecer ou para infectar outras pessoas, dependendo do número de ciclos de amplificação utilizados. E o próprio campo da medicina reconhece isso: o RT-PCR é considerado o padrão-ouro para diagnóstico da Covid-19, porém ainda possui limitações que o laboratório deve considerar. A questão não é que o PCR é uma fraude. A questão é que toda ferramenta poderosa pode ser usada de forma inapropriada, e que o contexto clínico — os sintomas do paciente, a carga viral, o número de ciclos — importa imensamente. Isso Mullis sabia melhor do que ninguém. E dizia isso sem papas na língua.

Fauci, o debate que nunca aconteceu e as palavras que ninguém queria ouvir

E aí chegamos na parte mais politicamente quente desta história. Desde os anos 1990, quando a controvérsia sobre o HIV e a AIDS estava no centro do debate científico americano, Mullis tinha uma conta a acertar com Anthony Fauci, então diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA. A raiva de Mullis era antiga, consistente e notavelmente específica. Em entrevistas, Mullis afirmou que o presidente da Universidade da Carolina do Sul convidou Fauci para debater com Mullis, mas que Fauci recusou. E o que Mullis disse sobre isso ficou gravado para a história.

"Esses caras como Fauci aparecem e começam a falar, e ele não sabe nada realmente sobre nada e eu diria isso na sua cara. Nada. O homem acha que você pode pegar uma amostra de sangue e colocá-la em um microscópio eletrônico e, se houver um vírus lá, você vai saber. Ele não entende microscopia eletrônica e não entende medicina e não deveria estar na posição em que está." Palavras duras? Sim. Injustas? Aí depende de quem você pergunta. Fauci construiu uma carreira de décadas no serviço público de saúde americano e foi uma das figuras mais centrais da resposta à AIDS e depois à Covid-19. Mas também é verdade que ele nunca aceitou o debate com Mullis, e que as críticas de Mullis sobre o uso do PCR no diagnóstico em massa têm fundamento técnico legítimo, mesmo que alguns as tenham distorcido para fins políticos.

A questão não é gostar ou não de Fauci. A questão é que o próprio inventor da tecnologia que foi usada para contar casos de uma pandemia global dizia, em vida, que aquela tecnologia não deveria ser usada como ferramenta de diagnóstico isolada de doenças infecciosas. E essa voz foi silenciada — não por assassinato, como alguns teorizam, mas pela morte mais prosaica e mais implacável de todas: o tempo.

karybioquimico

7 de agosto de 2019 — e o timing que ninguém pediu

Kary Mullis morreu em agosto de 2019, em sua casa na Califórnia, vítima de uma pneumonia aguda. Ele tinha 74 anos. Sua morte marcou o fim de uma vida notável repleta de contribuições científicas revolucionárias. E três meses e dez dias depois, em 17 de novembro de 2019, o primeiro caso documentado de Covid-19 explodia em Wuhan, na China. O mundo entraria em colapso alguns meses depois. E a PCR — a invenção de Mullis — se tornaria o instrumento central de diagnóstico de uma pandemia que paralisou o planeta.

O timing é o que é. Pode ser coincidência. Quase certamente é coincidência. Mullis tinha 74 anos e morreu de pneumonia — uma causa de morte comum nessa faixa etária — antes de a Covid sequer existir como problema público. A viúva de Mullis, Nancy, veio a público para rebater as teorias conspiratórias, chamando-as de "ridículas e ultrajantes": "Esses lunáticos do Covid saíram de todos os cantos para me dizer que Kary provavelmente foi morto para mantê-lo quieto e que Fauci pode estar por trás disso. Isso é tão ridículo."

Mas o que o timing revela de interessante não é uma conspiração de assassinato — isso é improvável e não tem nenhuma evidência. O que revela é algo mais simples e mais filosófico: o homem que criou a lupa que o mundo usou para "ver" o vírus não estava aqui para dizer como essa lupa deveria ser usada corretamente. Mullis era polêmico, desbocado, excêntrico — mas era o criador da tecnologia. E a voz do criador estava ausente justamente quando mais seria necessária.

A widow, as teorias e o que realmente deve nos preocupar

Desde a pandemia, várias entrevistas antigas de Mullis foram ao viral na internet, com ele dizendo que o PCR "não te diz se você está doente" e atacando Fauci por seu papel na crise da AIDS. Teóricos da conspiração usaram esses vídeos para afirmar que o maverick da ciência havia sido assassinado porque supostamente teria revelado que os testes PCR produziriam casos falsos de Covid. Essas afirmações são facilmente refutadas pelo fato mais simples possível: Kary Mullis faleceu em 7 de agosto de 2019, quase cinco meses antes de ter sido confirmado o primeiro caso de Covid-19. Não havia razão logística para que ninguém o silenciasse antes de uma pandemia que ainda não existia.

Mas isso não significa que as perguntas que ele levantava devam ser descartadas junto com as teorias conspiratórias. Esse é o erro que o debate público costuma cometer: confundir a legitimidade de uma pergunta com a legitimidade de quem a está fazendo de forma mais barulhenta. As limitações técnicas do PCR para diagnóstico de doenças infecciosas em massa são reais e reconhecidas pela própria comunidade científica. O debate sobre os ciclos de amplificação e o que constitui um "caso" foi legítimo durante a pandemia. Misturar isso com teorias de assassinato e chips de rastreamento é não apenas errado — é contraproducente, porque enfraquece as críticas técnicas que têm fundamento.

O que a PCR faz de fato, de fato

Para fechar com chave de ouro, vale ser direto: o PCR é uma das invenções mais importantes da história da ciência. Ponto. Ele permite detectar doenças, identificar criminosos, sequenciar genomas, estudar evolução, autenticar produtos alimentícios, diagnosticar patógenos com precisão que antes era impensável. A PCR foi utilizada em tarefas tão diversas quanto decodificar o genoma humano e salvar recifes de corais. Ela está em laboratórios forenses, hospitais, universidades, startups de biotecnologia. Ela é real, funciona e salvou vidas. O que Mullis disse, e dizia com consistência ao longo de décadas, é que toda ferramenta pode ser mal aplicada — e que o PCR, usado sem o contexto clínico adequado, sem atenção aos ciclos de amplificação e sem a interpretação correta dos resultados, pode gerar informações enganosas. Não porque seja ruim. Mas porque é tão poderoso que amplifica qualquer coisa: o que você quer encontrar e também o que não deveria estar ali. É como a diferença entre uma lupa e um diagnóstico. Uma lupa mostra o que você apontar para ela. A interpretação do que você vê é outra história.

A herança de um gênio inclassificável

O White, seu antigo supervisor, ainda recorda sua criatividade inquestionável, astúcia e bom humor, mas lamenta o fato de o mito ter se apoderado do homem. E esse talvez seja o epitáfio mais honesto para Kary Mullis: um gênio que se tornou maior do que sua própria descoberta, e que por isso foi ao mesmo tempo celebrado e descartado — laureado com o Nobel e chamado de louco, idolatrado por conspiracionistas e ignorado por cientistas convencionais. Mullis também fundou algumas empresas de biotecnologia após o Nobel. A mais célebre foi a StarGene, que fabricava joias e outros produtos infundidos com o DNA de famosos. Vendia DNA de celebridades. Porque por que não? Era Mullis. Ele surfava, vivia em Newport Beach, falava o que pensava sem filtro, brigava com colegas, usava LSD, via mapaches alienígenas em bosques (provavelmente pela mesma razão que o LSD), escreveu um livro de memórias chamado "Dancing Naked in the Mind Field" — Dançando Nu no Campo da Mente —, e no processo inventou uma tecnologia que mudou a história da humanidade para sempre. Em seu discurso do Nobel, ele remarcou que o avanço histórico de 16 de dezembro de 1983 não compensou o fato de sua namorada ter terminado o relacionamento com ele: "Eu estava cabisbaixo enquanto caminhava até meu pequeno Honda Civic prateado. Nem Fred, nem as garrafas vazias de Beck's, nem o doce cheiro do amanhecer da era do PCR podiam substituir Jenny. Eu estava solitário." É exatamente isso. Um cara que mudou o mundo e ficou sozinho pensando na namorada. É humano assim. É contraditório assim. E é exatamente por isso que a história de Kary Mullis é impossível de largar no meio.

A pergunta que fica no ar

O que Mullis teria dito sobre a pandemia? Sobre o uso massivo do PCR para contar casos? Sobre as decisões que foram tomadas com base nesses números? Não sabemos. Nunca vamos saber. O que sabemos é o que ele disse em vida, repetidamente, sobre a ferramenta que criou: que ela é poderosa demais para ser usada sem critério, que os resultados precisam de interpretação clínica, que encontrar uma sequência genética não é a mesma coisa que diagnosticar uma doença ativa. Essas palavras estão gravadas. Os vídeos existem. As entrevistas foram transcritas. E o fato de ele não estar aqui para contextualizá-las foi, ao mesmo tempo, uma tragédia científica e um campo fértil para distorções de todos os tipos — tanto dos que queriam usá-lo para destruir toda a narrativa da pandemia, quanto dos que preferiram simplesmente fingir que ele nunca disse nada relevante. A verdade, como sempre, está no meio — mas não num meio confortável e politicamente conveniente. Está num meio que exige que você carregue duas ideias ao mesmo tempo: Mullis era um gênio com limitações reais e ideias controversas; e algumas das coisas que ele disse sobre sua própria invenção eram tecnicamente corretas e merecem ser levadas a sério.

Kary Banks Mullis morreu em 7 de agosto de 2019, com 74 anos, de pneumonia. Ele era excêntrico, brilhante, desbocado, inconveniente e absolutamente inclassificável. E a ferramenta que saiu da cabeça dele numa estrada de montanha californiana numa noite de 1983, enquanto ele pensava na namorada que tinha acabado de brigar com ele, ainda hoje é usada em laboratórios em todo o mundo — inclusive no Brasil, inclusive para detectar Covid, inclusive para identificar criminosos, inclusive para mapear genomas.

Não é pouco para um cara que passou dois anos atrás de um balcão de padaria.