Dica de Cinema

V de Vingança: Muito além da máscara e das explosões

V de Vingança: Muito além da máscara e das explosões

O Sorriso de Plástico que Incendiou o Mundo: Por Que "V de Vingança" Ainda é o Pesadelo dos Ditadores. Sabe aquele filme que você assiste e, quando sobem os créditos, você fica uns cinco minutos olhando fixo para a tela preta, tentando processar o tamanho do soco que acabou de levar no estômago? Pois é, V de Vingança (2006) é exatamente esse tipo de obra, e olha que já se passaram quase duas décadas desde que ele estreou nos cinemas, mas parece que a cada ano que passa a história fica mais atual, mais urgente e, admitamos, um tanto quanto assustadora.

Se você acha que é só uma história de um cara fantasiado explodindo coisas, é melhor puxar uma cadeira, porque o buraco é bem mais embaixo, já que a gente está falando de uma trama que disseca como o medo é usado para domesticar populações inteiras e como um símbolo, por mais simples que seja, pode ser mais resistente do que qualquer blindagem de tanque.

Do Papel para a Tela: A Fúria de Alan Moore e o Toque das Wachowski

Tudo começou lá nos anos 80, quando o "mago" dos quadrinhos, Alan Moore, junto com o ilustrador David Lloyd, criou uma HQ visceral que servia como uma resposta direta ao governo de Margaret Thatcher no Reino Unido. Moore estava cuspindo fogo, querendo mostrar o que acontece quando o conservadorismo extremo flerta abertamente com o fascismo, mas o tempo passou e, quando as irmãs Lilly e Lana Wachowski (sim, as mentes por trás de Matrix) decidiram adaptar a obra para o cinema, o contexto era outro: o mundo pós-11 de setembro. O diretor James McTeigue assumiu o leme, mas a mão das Wachowski está em cada frame, transformando a anarquia crua da HQ em um manifesto visual que, embora tenha irritado profundamente o Alan Moore — que, para variar, exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos —, conseguiu capturar a essência da rebeldia contra sistemas apodrecidos. Enquanto na HQ o V é quase um psicopata anarquista, no filme ele ganha contornos de um herói trágico, um romântico vingativo que usa citações de Shakespeare enquanto corta gargantas de opressores.

O Pesadelo Inglês: O Regime do Fogo Nórdico

A Inglaterra que vemos no filme não é a dos cartões-postais de Londres, mas sim um lugar cinzento, vigiado e silencioso, onde o partido Fogo Nórdico (Norsefire) tomou o poder após uma série de crises globais, guerras e pandemias que deixaram a população implorando por ordem, mesmo que o preço fosse a liberdade. O Chanceler Adam Sutler, interpretado de forma magistral por John Hurt, é a personificação do déspota moderno: ele não aparece nas ruas, ele é apenas um rosto gigante em telas de TV, gritando sobre pureza, fé e obediência. É aqui que o filme bate forte na realidade, pois ele mostra como o governo utiliza a BTN, a rede de televisão estatal, para fabricar notícias, disseminar pânico e manter as pessoas trancadas em casa sob o pretexto de segurança nacional. O uso da religião como arma política e a perseguição implacável a minorias, homossexuais e dissidentes não são apenas elementos de ficção científica, mas sim uma análise crua de como regimes totalitários historicamente se estabeleceram e, infelizmente, ainda tentam se estabelecer por aí.

V: O Homem, a Ideia e a Máscara de Guy Fawkes

No centro desse caos temos o V, e aqui precisamos tirar o chapéu para Hugo Weaving, que passou o filme inteiro sem mostrar o rosto e, ainda assim, entregou uma das atuações mais expressivas da história do cinema apenas com a voz e a postura corporal. V não é um homem comum, ele é o resultado de experimentos ilegais em um campo de concentração chamado Larkhill, onde o governo tentava criar armas biológicas e acabou criando o seu pior inimigo. A escolha da máscara de Guy Fawkes é o toque de mestre da produção, remetendo à Conspiração da Pólvora de 1605, quando um grupo de católicos tentou explodir o Parlamento inglês, e o filme brinca com essa data, o famoso 5 de novembro, transformando um feriado tradicional britânico em um símbolo global de resistência. A frase clássica de que "ideias são à prova de balas" resume o espírito da coisa, porque não importa se você mata o homem, o que ele representa já se espalhou como um vírus na mente do povo.

Evey Hammond: A Jornada do Medo para a Liberdade

Muita gente foca só no V, mas a alma do filme é a Evey, vivida por uma Natalie Portman que entregou tudo, inclusive o próprio cabelo em uma cena de raspagem que é impossível assistir sem sentir um aperto no peito. Evey começa como uma pessoa comum, alguém que só quer sobreviver e não ser notada pelo sistema, mas a sua convivência com V a força a encarar o trauma da perda de seus pais e a entender que o silêncio é, na verdade, uma forma de cumplicidade. A sequência da prisão de Evey, que depois descobrimos ser uma encenação de V para libertá-la do medo, é o ponto de virada mais polêmico e profundo da história, levantando o questionamento: até onde alguém deve ir para "acordar" outra pessoa? Quando ela lê a carta de Valerie, uma mulher que foi presa e morta por ser quem era, a matéria deixa de ser sobre política institucional e passa a ser sobre a preservação da dignidade humana e da nossa "última polegada" de integridade.

Curiosidades que Você Provavelmente Não Sabia

Para quem gosta de detalhes técnicos e fofocas de bastidores, "V de Vingança" é um prato cheio de fatos interessantes que mostram o capricho da produção e o impacto que ela gerou no mundo real:

A Troca de Protagonista: Originalmente, o ator James Purefoy estava no papel de V e chegou a filmar por seis semanas, mas ele não aguentou o desconforto de usar a máscara o tempo todo e foi substituído por Hugo Weaving, o que exigiu que Weaving dublasse as cenas já gravadas por Purefoy.

O Domínio da Máscara: David Lloyd, o ilustrador da HQ original, disse que a máscara de Guy Fawkes se tornou um símbolo tão onipresente em protestos reais (como o Occupy Wall Street e os atos do grupo Anonymous) que ele se sente orgulhoso de ter criado um ícone que o povo usa para esconder o rosto e, ao mesmo tempo, ser ouvido.

O Dominó Gigante: Aquela cena incrível onde V derruba centenas de dominós formando a letra V levou semanas para ser montada por profissionais e quase deu errado várias vezes, mas o resultado visual é uma das metáforas mais perfeicas do filme sobre o efeito cascata de uma revolução.

A Conexão com 1984: John Hurt, que interpreta o ditador Sutler no filme, foi o protagonista da versão cinematográfica de 1984, de George Orwell, onde ele era o torturado pelo sistema; em "V de Vingança", ele "virou a casaca" e interpretou o Big Brother da vez.

O Legado: Por Que o 5 de Novembro Nunca Será Esquecido?

O clímax do filme, com milhares de pessoas caminhando em direção ao Parlamento usando a mesma máscara e o som da Abertura 1812 de Tchaikovsky explodindo junto com o prédio, é catártico porque não celebra apenas a destruição, mas sim o fim de uma era de apatia. O Inspetor Finch, que representa a nossa visão como espectadores, acaba entendendo que a justiça não é o mesmo que a lei, e que às vezes a lei precisa ser quebrada para que a justiça prevaleça. V de Vingança nos ensina que governos devem ter medo de seu povo, e não o contrário, e que a vigilância constante, a manipulação da mídia e o discurso de ódio são ferramentas que só funcionam se a gente permitir que o medo nos paralise. É um filme que te faz questionar o que você faria se vivesse em um mundo onde a verdade é proibida, e nos lembra que, embora a violência nunca seja a solução ideal, a omissão diante da tirania é o caminho mais curto para a própria aniquilação. No fim das contas, a gente sai da sessão pensando: "E eu? Teria coragem de colocar a máscara?".

 

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