Dica de Cinema

Predadores Assassinos: O Filme de Terror que Quase Matou o Elenco

Predadores Assassinos: O Filme de Terror que Quase Matou o Elenco

Predadores Assassinos: A Verdade Suja, Sangrenta e Deliciosamente Tensa que Ninguém Te Contou Sobre o Filme. Sabe aquele filme que você coloca num sábado à noite, quase por desencargo de consciência, esperando mais um terror genérico com bicho de computação gráfica meia-boca? Então, prepara o coração. "Predadores Assassinos" (ou Crawl, no original) é o tapa na cara que você não sabia que precisava.

Esquece a premissa que parece saída de um filme B da Sessão da Tarde: "nadadora presa em furacão luta contra crocodilos". Na real, o longa de 2019 é uma aula de como fazer muito com pouco, um soco no estômago de 87 minutos que te deixa sem fôlego e com as mãos suando frio. E o melhor? Tem um monte de história cabeluda por trás das câmeras que faz o filme ser ainda mais insano.

Não Era Para Ser Só um "Filme de Jacaré"

Antes de qualquer coisa, vamos alinhar os fatos: o filme é dirigido pelo francês Alexandre Aja. Se o nome te soa familiar, não é à toa. O cara é o doente responsável por filmes como Alta Tensão e o remake de Viagem Maldita. Mas aqui vai a primeira curiosidade que ninguém te conta: o roteiro original que caiu nas mãos do Aja era uma porcaria. Sério. Não era um elogio. O texto dos irmãos Rasmussen se passava inteirinho dentro de um espaço apertado, com basicamente um único jacaré infernizando a vida dos protagonistas. Só no finalzinho um segundo bicho aparecia . Aja leu aquilo, achou a logline genial ("filha tenta salvar o pai durante um furacão com crocodilos"), mas pensou: "cara, isso aqui vai ser um tédio se eu não explodir tudo". Ele então largou um projeto que estava desenvolvendo com ninguém menos que James Wan (sim, o mago de Sobrenatural e Invocação do Mal) para reescrever a história do zero . A visão dele era clara: transformar o furacão em um antagonista tão letal quanto os animais.

A Realidade Foi Mais Punk que a Ficção (E Olha que Foi Tudo de Mentira)

Se você achou que o sofrimento na tela foi atuação, se prepara. A Kaya Scodelario (a Haley) não estava "interpretando" cansaço. Ela estava vivendo um inferno. As filmagens não foram num tanquezinho chique em Los Angeles. Foram num galpão em Belgrado, na Sérvia, onde a produção construiu tanques gigantescos que inundavam os cenários de verdade. A água não era morna. Era uma sopa verde, suja e gelada, onde o elenco passava de 12 a 16 horas por dia se contorcendo. A própria Kaya descreveu a experiência como "a mais fisicamente exigente da minha carreira". E não é exagero de ator querendo atenção. A mulher quebrou um dedo durante uma cena. Perdeu cerca de 12 quilos. Voltava para casa todo dia ensanguentada, machucada e exausta . E sabe o detalhe mais insano? Ela exigiu filmar quase tudo descalça. Isso mesmo. A produção ofereceu proteções de borracha para os pés, mas ela recusou. Disse que a personagem era nadadora, usava chinelos e, no primeiro sufoco, os teria chutado para longe. Então ela rastejou e nadou de pés nus, com risco real de infecção e machucados, para ficar autêntico. Isso não é amor à arte, é coragem (ou loucura) pura.

O Segredo Sujo dos "Jacarés"

Agora, me diz: como você filma uma atriz sendo atacada por crocodilos de 4 metros? Simples: você não filma. Não tinha um único jacaré de verdade no set. Nenhum. Zero . Mas a mágica não foi só CGI, viu? O Alexandre Aja é um diretor old school e sabia que, se não houvesse peso físico, a mentira apareceria na tela. Então ele usou uma combinação de três coisas: bonecos animatrônicos em tamanho real (que mordiam de verdade e tinham uma força absurda), dublês vestidos de "macacão verde" para gerar a interação física e, aí sim, a computação gráfica da Rodeo FX para finalizar. O resultado é tão realista e brutal que você jura que alguém perdeu um braço de verdade durante as filmagens. Tem cena de gente sendo arrastada pela lama, braço sendo mastigado, osso exposto... é gore raiz, sem dó. O filme não tem pudor de mostrar a carnificina. Se você tem estômago fraco, pode passar mal. Mas se você curte um terror visceral que te faz pular da cadeira, é um prato cheio.

O Polêmico Caso do Cachorro

Você é daqueles que sofre mais pelo bicho do que pelo humano em filme de terror? Então segura essa: o destino do cachorro Sugar, a bolinha de pelos que acompanha os protagonistas, foi uma das brigas mais homéricas dos bastidores. Aja e a equipe criativa discutiram por horas qual seria o fim do animal. E veja bem, um dos finais alternativos que quase foi parar na tela era: os protagonistas usarem o cachorro como isca. Isso mesmo. Jogar o vira-lata para os jacarés comerem, enquanto os humanos fugiam. Outra ideia era o cão se sacrificar heroicamente. Ou simplesmente ter o rabo arrancado. Sabe o que salvou a vida do Sugar? O público-teste. Simplesmente odiaram a ideia de ver o cão morrer. Aja percebeu que matar o bicho seria uma maldade gratuita que destruiria a experiência do espectador, que já estava massacrado pela tensão. No fim, o final feliz canino foi escolhido para "arrancar uma resposta positiva da plateia" . Ufa!

Tempestade Perfeita de Marketing (ou a Falta Dele)

A Paramount Pictures fez uma aposta muito doida com esse lançamento. Normalmente, filmes assim são exibidos antes para a crítica especializada, para gerar burburinho. Aqui, não. A Paramount deliberadamente pulou as sessões convencionais para a imprensa. Eles lançaram o filme direto no colo do público em julho de 2019. Foi um voto de confiança na reação da galera, e funcionou. Com um orçamento mixuruca de cerca de 15 milhões de dólares (troco de bala para os padrões de Hollywood), o filme desembarcou nos cinemas e arrecadou mais de 91 milhões mundialmente . Foi um lucro estrondoso, que inclusive já rendeu a aprovação de uma continuação em agosto de 2024, conforme anunciado pela Paramount. E quanto à ambientação? Por mais que 99% do filme tenha sido rodado na Sérvia, as cenas externas, aquelas de "passagem" que mostram a cidade alagada e a chegada do furacão, foram captadas em Tampa, na Flórida. A produção veio até a região real dos furacões para gravar placas de fundo . O timing foi tão sinistro que, durante as gravações dessas cenas externas, um corpo de um adolescente desaparecido foi encontrado... justamente no lago usado como referência visual, cercado por jacarés de verdade. A realidade, às vezes, é o melhor roteirista de terror.

Um Tique-Taque Sem Fôlego

Diferente do que aquele roteiro inicial propunha, Aja fez questão de usar o espaço. O filme começa na rua, entra no porão (o crawlspace), sobe para a casa, vai para o telhado. É uma escalada de tensão literal e metafórica. A água, que no começo bate no tornozelo, vai subindo, subindo, até engolir tudo. E, junto com a água, o número de crocodilos vai aumentando. No começo é um. Depois dois. Depois uma ovada inteira de filhotes e uma mãe gigantesca protegendo o ninho. A metáfora é simples: a natureza não está nem aí para os seus problemas familiares. E, falando em problemas, o filme não economiza no melodrama familiar. Haley e o pai, Dave (interpretado pelo ótimo Barry Pepper), não se bicam. Tem mágoa de divórcio, tem cobrança de treinador, tem tudo ali no meio da lama.

O crítico Abdul Moeed Qurishi resumiu bem: "É o O Regresso da Kaya Scodelario". Não no sentido filosófico, mas no sentido físico, de uma mulher levando pancada e sobrevivendo na base do ódio . E o próprio Aja citou Alien e Cujo como inspirações, o que faz todo sentido. É terror claustrofóbico, sujo, onde o monstro é real e implacável. O fato de Haley ser uma nadadora competitiva não é um detalhe bobo de roteiro; é a justificativa lógica para ela conseguir prender a respiração por minutos e nadar mais rápido que as criaturas. Sem isso, seria inverossímil. Com isso, você compra a história.

Pensa num filme que não tenta ser mais do que é, mas entrega exatamente o que promete, só que com um capricho absurdo de fotografia, direção de arte e atuação. "Predadores Assassinos" é visceral, sangrento, e carrega uma energia de filme B de qualidade altíssima. É aquela pérola que te faz lembrar por que filmes de sobrevivência são tão bons: quando tiram toda a gordura, fica só o osso. E aqui, eles mastigam o osso. Com susto, gore e um bom gosto duvidoso que dá gosto de ver. Vai encarar?

 

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