"Ela matou, postou e virou heroína: quando o crime vira influência e a justiça some no Brasil" 2025. Você abre o Instagram. Rolou um pouco. E lá está ela. Foto em preto e branco, olhar fixo na câmera, sobrancelhas arqueadas como quem diz: "Eu sou forte. Eu superei. Eu venci." Legenda? "Minha vida antes e depois da liberdade." Nos comentários, uma legião: "Mulher guerreira!", "Inspiradora!", "Me deu coragem para sair do relacionamento tóxico."
Só que tem um detalhe — um pequeno detalhe, digamos assim. Essa mulher não saiu de um relacionamento abusivo. Ela mandou matar o marido. Planejou. Contratou. Pagou. Esperou o momento certo. E depois, com tornozeleira eletrônica, começou a contar sua história como se fosse um livro de autoajuda: "De vítima a vitoriosa." E o Brasil... aplaudiu. Sim, senhoras e senhores. Estamos vivendo num país onde matar pode ser empoderamento, desde que você tenha peitos, saia curta e um bom storytelling. Se for homem? Tchau, direitos humanos. Vai pra cela sem julgamento. Mas calma. Antes que você me xingue de machista ou transfóbico (como se isso ainda fosse argumento), vamos falar sério. Vamos rasgar a maquiagem social desse circo jurídico-midiático e ver o que realmente tá rolando por trás das cortinas de rendição emocional. Porque aqui não é sobre gênero. É sobre vida. É sobre lei. É sobre verdade.
O plano perfeito: não foi crime de emoção, foi crime de conta bancária
Vamos deixar claro desde o início: ninguém tem licença para matar. Não importa se você foi traída, humilhada, ignorada, ofendida, esbofeteada ou ameaçada. Nenhum desses motivos — por mais dolorosos que sejam — te dá direito de transformar seu parceiro num cadáver. Agora, se você planeja o assassinato, contrata um pistoleiro, negocia preço ("tá baratinho hoje, R$ 15 mil, posso fazer até com parcelamento"), espera o momento ideal, e depois confirma se o serviço foi feito... você não é vítima. Você é criminosa. Ponto. O que essa mulher fez não foi um ato de defesa. Foi um contrato de morte. Um homicídio qualificado. Artigo 121, parágrafo 2º, incisos I (motivo torpe), II (recurso que dificultou a defesa da vítima) e IV (meio cruel). E sim, ela responde por tudo isso, mesmo sem ter apertado o gatilho.
No Direito Penal, isso tem nome: autor mediato. Ela não sujou as mãos, mas foi a mente por trás do massacre. Como um chefão da máfia. Só que, ao invés de usar gravata, usou influência feminina. E sabe o pior? Ela cumpre pena em casa. Com tornozeleira. Posta selfie. Ganha seguidores. Monetiza o crime. Vende livro. Dá palestra. Faz evento lotado. É tipo aquele filme Clube dos Cinco, só que em vez de adolescentes rebeldes, é uma mulher celebrando o assassinato como se fosse um glow up.
A válvula de escape que virou porta giratória
Tem um conceito no Direito Penal chamado inexigibilidade de conduta diversa. Traduzindo: em situações extremas, tão absurdas, tão desumanas, que o Estado não pode exigir que a pessoa obedeça à lei. Tipo: você mata alguém pra salvar sua filha de um sequestro. Ou foge de um tiroteio em favela. Nessas horas, o juiz entende: “cara, não dava pra esperar outra reação”. Mas atenção: isso não é licença para matar. É uma exceção rara, quase mítica. Como unicórnio. Juristas estudam anos e mal encontram um caso verdadeiramente aplicável. O Código Penal, no artigo 22, só reconhece duas hipóteses legais: coação moral irresistível e obediência hierárquica devida. Em ambas, a pessoa perde o controle da própria vontade. Alguém aponta arma na sua cabeça e diz: “Mata ou morre”. Aí, talvez, a Justiça entenda.
Mas no caso da mandante do assassinato? Ela planejou. Ela decidiu. Ela agiu com lucidez total. Era coação moral? Não. Era escolha. Era emergência? Só se for emergência de vingança. A jurisprudência é clara: tribunais de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Rio — todos exigem prova incontestável de que não havia alternativa. Que a pessoa estava encurralada, sem saída, sem recursos, sem proteção estatal. Só que nesse caso, a mulher tinha advogado particular. Tinha acesso à Justiça. Tinha Lei Maria da Penha. Tinha medidas protetivas. Tinha polícia, Defensoria Pública, Ministério Público, botão do WhatsApp da Guarda Municipal... Ela tinha tudo. Menos vontade de resolver dentro da lei. Em vez de ir ao delegado, foi ao pistoleiro.
E agora quer ser tratada como heroína? Lei Maria da Penha: proteção ou carta branca? Ah, a Lei Maria da Penha. Uma das leis mais importantes do Brasil. Criada pra proteger mulheres em situação de violência doméstica. E funciona — quando bem aplicada. Mas virou mantra mágico. Virou escudo pra qualquer coisa. Traiu? Violência psicológica. Discutiu? Violência verbal. Bateu? Crime hediondo. Ela matou? Ah, deve ter sido em legítima defesa emocional. Parece piada, mas é real. A Lei Maria da Penha não é um cheque em branco para assassinatos. Ela existe pra prevenir o crime, não pra justificá-lo depois. Se você sofre violência, você tem direito a:
Medida protetiva imediata
Saída segura da casa
Apoio psicológico e jurídico
Reclusão do agressor
Programas de acolhimento
Tudo isso sem precisar matar ninguém. Então, quando uma mulher com condições financeiras, acesso à Justiça e apoio jurídico escolhe contratar um assassino, ela não está fugindo da violência. Ela está executando a própria justiça. E isso, meu amigo, é poder privado de matar. E onde já vimos isso antes? Na Idade Média. Na guerra de facções. No Faroeste. Não numa república democrática.
O fenômeno silencioso: homens sendo mortos e ninguém fala
Enquanto isso, pouca gente fala dos homens assassinados por companheiras. DADOS REAIS, ANO DE 2024 (Fonte: FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública):
Em média, um homem é morto por dia no Brasil por parceira ou ex-parceira.
Cerca de 30% dos homicídios domésticos envolvem homens como vítimas.
Dos casos registrados, menos de 5% ganham cobertura nacional.
Quando ganham, o tom é sempre: "mulher desesperada", "gesto de dor", "situação extrema".
Nunca: "crimes bárbaros", "feminicídio reverso", "monstruosidade".
Por quê? Porque nossa cultura ainda acha que homem não pode ser vítima. Que todo homem é potencial agressor. Que se morreu, deve ter feito algo. E tem mais: muitos desses crimes são minimizados pela polícia, banalizados pela mídia, absolutos pelo sistema. Homem morto por mulher? "Ah, deve ter sido ciúmes." Mulher morta por homem? "Caso de feminicídio!" Dois pesos, duas medidas. E quando uma mulher mata, às vezes nem sequer entra como "homicídio doloso". Vira "crime passional". Vira "drama familiar". Vira novela das nove. Já vi processo em que o promotor pediu sursis pra uma mulher que envenenou o marido porque "ela era mãe de três crianças". Três crianças órfãs porque a mãe matou o pai delas… e ainda quer sursis?
O marketing do crime: do xadrez ao palco
Voltando à protagonista dessa história. Ela sai da prisão. Coloca tornozeleira. Abre perfil. Começa a contar sua "jornada". Chama de "superação". De "libertação". De "renascimento". E as pessoas engolem. Porque ela conta bem. Porque chora na hora certa. Porque usa palavras como "empoderamento", "autonomia", "amor-próprio". Mas entre as linhas, o recado é outro: "Matei meu marido. E ganhei." E sabe o que é pior? Isso vende. Livro best-seller. Palestras pagas. Patrocínios. Eventos lotados. Depoimentos emocionantes. Ela não está sendo punida. Ela está sendo celebrada. E cada like, cada compartilhamento, cada aplauso no auditório, é um incentivo tácito a outras mulheres: "Se você sofrer, pode matar. Depois você conta como vitória." Isso não é liberdade. Isso é anarquia disfarçada de justiça.
E se fosse um homem?
Imagina só. Homem descobre que a esposa o traiu. Sofre, chora, tenta reatar. Ela termina. Ele entra em depressão. Um ano depois, contrata um pistoleiro. Paga R$ 15 mil. Manda matar a ex na frente do filho. Seria empoderamento? Seria superação? Seria libertação? Ou seria manchete por meses? Campanha nas redes? Indignação nacional? Pedido de prisão perpétua? Claro que sim. Ele estaria preso. Sem tornozeleira. Sem livro. Sem palestra. Sem seguidores. Sem chance. Porque homem que mata mulher é monstro. Mulher que mata homem é símbolo de resistência? Isso não é igualdade. É inversão. É hipocrisia mascarada de progressismo.
Justiça tem gênero? Não. A vida humana não tem peso diferente por causa do DNA. Um coração pulsa igual, seja em peito masculino ou feminino. E matar, por qualquer motivo, é grave. Profundamente grave. Não estou dizendo que todas as mulheres que matam são criminosas. Existem casos reais de legítima defesa. De abuso extremo. De tortura psicológica diária. De ameaças reais. Mas não é esse o caso. Quando há planejamento, dinheiro envolvido, ausência de denúncia prévia, uso de terceiros… não é defesa. É execução. E execução não é direito. É poder. E quando damos poder de matar a uns, tiramos proteção de todos. O que estamos ensinando às próximas gerações Estamos criando um mundo onde:
Dor justifica crime
Identidade substitui responsabilidade
História pessoal anula a lei
E aplaudimos quem quebra as regras, desde que conte bem a versão. Isso não é sociedade. É tribo. E tribos não têm Justiça. Têm vingança. O perigo não é só o crime em si. É o exemplo. É saber que, se você planejar bem, se tiver boa narrativa, se chorar na entrevista certa, você pode matar, cumprir pena em casa, virar influencer e ainda ganhar dinheiro com isso. E aí, daqui a cinco anos, vamos ter mais casos. Mais "heroínas". Mais homens mortos em silêncio. Mais impunidade com batom.
Conclusão: a vida não é conteúdo
Ninguém tem licença para matar. Não importa o quanto você sofreu. Não importa o quanto ele te fez mal. Não importa se ele traiu, bateu, humilhou ou sumiu. Você não é juiz. Não é júri. Não é carrasco. O Estado existe pra isso. Com falhas? Tem. Lento? Às vezes. Sexista? Também. Mas substituir a Justiça por vingança é retrocesso. E transformar um assassinato em produto de consumo? É perversão. Então, antes de curtir aquela foto de mulher sorrindo com tornozeleira, pense:
Quantas vidas serão perdidas porque alguém achou que matar era a solução?
Quantos homens vão morrer em casa, sem defesa, sem voz?
Quantas futuras "influencers do crime" estão assistindo e aprendendo?
Justiça não é aplauso. É equilíbrio. É coerência. É defender a vida — toda vida — mesmo quando é inconveniente. Porque no dia em que aceitamos que alguém pode matar "por um bom motivo", estamos todos mais perto de ser a próxima vítima. E o pior? Pode ser que, quando você morrer, alguém tire foto. Poste. E diga: "Finalmente, ela venceu." E o mundo inteiro aprove.