Irmãos de Sangue: A Origem Socialista do Fascismo e do Nazismo que Ninguém Quer Admitir. Quando a história vira propaganda, o passado vira arma. Existe uma das maiores fraudes intelectuais do século XX que ainda circula impune em manuais escolares, discursos políticos e até em obras de historiadores respeitados: a ideia de que o nazismo e o fascismo são o oposto do comunismo — como se fossem polos opostos de um mesmo imã, inimigos naturais, ideologias nascidas de mundos completamente diferentes.
A realidade histórica, documentada, verificável e incômoda, aponta para outra direção completamente diferente. O fascismo e o nazismo não nasceram como reação ao socialismo. Nasceram dentro dele. Essa afirmação vai fazer muita gente revirar os olhos. Mas antes de fechar a aba, vale a pena ouvir o que os documentos dizem — não o que a propaganda de nenhum dos dois lados inventou depois.
A Grande Guerra que Quebrou uma Ilusão
Para entender onde o fascismo nasceu, é preciso voltar a 1914, quando a Europa inteira entrou em colapso com a Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, o movimento socialista internacional acreditava com convicção quase religiosa numa ideia central: os trabalhadores do mundo inteiro eram mais leais uns aos outros do que às suas respectivas nações. A solidariedade de classe, segundo Marx e Engels, seria um laço mais profundo do que qualquer fronteira, qualquer bandeira, qualquer identidade nacional. As nações, na teoria marxista, eram invenções artificiais da burguesia para dividir o proletariado e proteger os interesses do capital.
Lênin e seus companheiros esperavam que, quando a guerra estourasse, os soldados proletários convocados às trincheiras se recusariam a lutar uns contra os outros e transformariam o conflito numa revolução socialista global. Era uma aposta ideológica enorme. E foi completamente errada.
O que aconteceu foi o contrário: trabalhadores franceses marcharam contra trabalhadores alemães com entusiasmo genuíno. Operários italianos puseram o capacete e foram à guerra sob a bandeira de sua nação. Mineiros britânicos lutaram como leões pelo Império. Até líderes socialistas de primeira grandeza na França e na Alemanha aderiram ao fervor nacionalista com uma naturalidade que deixou os marxistas ortodoxos em estado de choque. A teoria havia falhado catastroficamente no contato com a realidade.
Terminada a guerra em 1918, o movimento revolucionário europeu estava diante de uma crise existencial. O mito da solidariedade proletária internacional havia sido destruído pelos próprios trabalhadores. E aí veio a divisão histórica que molda o mundo até hoje: uma parte do movimento se manteve fiel ao internacionalismo marxista, obrigando-se a acrobacias mentais cada vez mais elaboradas para reconciliar a teoria com os fatos. A outra parte tirou uma conclusão diferente — se o proletariado amava sua nação, então a nação é que deveria ser o símbolo da revolução. Nascia assim, de dentro da tradição socialista, uma nova fórmula: o socialismo nacional. O nacional-socialismo.
Mussolini: O Socialista Que Criou o Fascismo
Benito Mussolini não era um aristocrata nem um industrial conservador que resolveu financiar um movimento de extrema-direita para proteger seus bens. Era um militante socialista de carreira, editor do jornal oficial do Partido Socialista Italiano, L'Avanti, e um dos mais talentosos agitadores da esquerda europeia. Sua virada ideológica para o nacionalismo após a guerra, e a fundação do movimento fascista em 1919, não representou uma ruptura com o socialismo no sentido de abraçar o capitalismo liberal ou a democracia burguesa. Representou a rearticulação das mesmas ferramentas — controle estatal da economia, mobilização de massas, culto ao líder, violência política organizada — em torno de um símbolo diferente: a nação em vez da classe.
O próprio nome "fascismo" vem dos fasci di combattimento — grupos de combate — que Mussolini organizou a partir de ex-combatentes da guerra, muitos deles de origem proletária e com passado no sindicalismo revolucionário. O programa original do Partido Nacional Fascista italiano incluía tributação progressiva sobre o capital, abolição do Senado, participação dos trabalhadores na gestão das indústrias, voto feminino e confisco de propriedades da Igreja. Parecia mais com um manifesto de esquerda do que com qualquer plataforma conservadora. Isso não exonera o fascismo de seus crimes, que foram reais e numerosos. Mas expõe a falsidade da versão canônica que o apresenta como produto natural do conservadorismo burguês ou como antítese do pensamento de esquerda.
Hitler Também Não Caiu do Céu da Direita
O caso do nazismo é ainda mais revelador, e ainda mais silenciado. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães — cujo nome completo já diz tudo — recrutou sua militância inicial prioritariamente entre trabalhadores e ex-combatentes de origem proletária, não entre industriais e latifundiários bávaros. O historiador americano James Pool documentou em detalhes, no livro Who Financed Hitler (Simon & Schuster, 1997), que nas fases iniciais do partido, antes de atrair grandes doações empresariais nos anos 1930, o financiamento vinha majoritariamente da militância de base — ou seja, dos trabalhadores.
Para um partido que os comunistas depois definiram como "puro instrumento de classe da burguesia", esse começo é no mínimo paradoxal. A explicação oficial soviética para a origem do nazismo — que ele teria sido criado e financiado pelo grande capital para esmagar o movimento operário — foi, como argumentou o historiador e ensaísta brasileiro Olavo de Carvalho, um engodo publicitário construído retroativamente para esconder a responsabilidade de Stalin no fortalecimento do regime nazista. Uma operação de desinformação de proporções épicas.
O programa dos 25 pontos do Partido Nazista, redigido por Hitler e Anton Drexler em 1920, incluía a nacionalização de trustes, participação dos trabalhadores nos lucros das grandes empresas, reforma agrária, abolição da renda não proveniente do trabalho, confisco de lucros de guerra e educação estatal obrigatória. Não é um documento liberal. Não é um manifesto conservador. É um programa de economia dirigida com forte acento estatal e redistributivo, temperado com racismo e ultranacionalismo. A presença do racismo e do antissemitismo é, evidentemente, o que distingue o nazismo de outras formas de socialismo e lhe confere seu caráter específico de horror. Mas esse ingrediente não apagou a origem socialista da estrutura ideológica — apenas a contaminou com algo muito pior.
A URSS e o Rearme da Alemanha Nazista: O Segredo Mais Bem Guardado do Século
Aqui chegamos ao ponto mais explosivo e menos discutido da história do século XX. A partir da década de 1920, o governo soviético, convencido de que o nacionalismo alemão poderia ser útil para desestabilizar a ordem burguesa europeia, passou a financiar e apoiar secretamente o rearme da Alemanha — em flagrante violação do Tratado de Versalhes, que proibia à Alemanha derrotada na Primeira Guerra de ter uma força militar significativa.
Em território soviético, aviadores alemães treinavam em segredo, tanques alemães eram desenvolvidos e testados, e acordos militares eram costurados nos bastidores enquanto, nos palanques públicos, Moscou denunciava o militarismo alemão. Esse arranjo ficou conhecido como Colaboração Reichswehr-Exército Vermelho, ou simplesmente como a Cooperação Russo-Alemã de Rapallo, e seu alcance foi muito além do que os documentos desclassificados disponíveis permitem mensurar com precisão.
Sem esse apoio soviético ao longo de mais de uma década, teria sido materialmente impossível à Alemanha desenvolver a capacidade militar que usou para aterrorizar a Europa entre 1939 e 1945. O nazismo como potência militar global não existiria sem a URSS. Quando em agosto de 1939 Stalin e Hitler assinaram o Pacto Molotov-Ribbentrop — o tratado de não-agressão que dividiu a Europa Oriental entre os dois regimes e abriu caminho para a invasão conjunta da Polônia — a militância comunista ocidental ficou escandalizada. Mas o escândalo era produto da ignorância: a colaboração entre Moscou e Berlim não era uma novidade de 1939. Era uma política que vinha sendo praticada há mais de dez anos. A única novidade era que Stalin a tornara pública.
O ataque alemão à União Soviética em junho de 1941 — a Operação Barbarossa — encerrou essa parceria de forma brutal e inesperada para Stalin, que aparentemente confiava que Hitler manteria o pacto por mais tempo. A partir daí, a URSS se tornou aliada das democracias ocidentais contra o nazismo, e a história foi reescrita para apagar os capítulos anteriores.
O Livro Negro do Comunismo e a Aritmética do Horror
Em 1997, seis historiadores europeus com acesso aos arquivos soviéticos recém-abertos após o colapso da URSS publicaram na França o Le Livre Noir du Communisme — O Livro Negro do Comunismo. A obra causou um terremoto intelectual na Europa, especialmente na França, onde o Partido Comunista ainda tinha enorme prestígio entre os intelectuais. Os números apresentados eram brutais: aproximadamente 100 milhões de mortos atribuíveis a regimes comunistas ao longo do século XX. A distribuição geográfica do horror: China sob Mao Tsé-tung, com cerca de 65 milhões de mortos, a maior parte resultante do Grande Salto para Frente (1958-1962) e da Revolução Cultural (1966-1976); União Soviética, com aproximadamente 20 milhões de mortos em purgas, gulags e fomes provocadas; Camboja sob o Khmer Vermelho de Pol Pot, com entre 1,5 e 2 milhões de mortos — equivalente a um quarto de toda a população do país em menos de quatro anos; Coreia do Norte, Vietnã, Etiópia, Angola, Moçambique, Afeganistão, Cuba e outros regimes menores completando o balanço.
Para ter escala de comparação: o nazismo, com todos os seus horrores imensuráveis — Holocausto incluído — matou entre 11 e 17 milhões de pessoas em seus doze anos de existência. O comunismo matou entre cinco e dez vezes mais, ao longo de sete décadas, em todos os continentes, em culturas e etnias completamente diferentes entre si. Isso, por si só, destrói o argumento de que a violência comunista seria uma "aberração da psique eslava" ou um acidente histórico produzido por circunstâncias locais. Quando o mesmo padrão de terror se reproduz em lugares tão diferentes quanto a China rural, o Camboja budista, a Cuba caribenha e a Etiópia africana, a violência deixa de ser uma coincidência e passa a ser uma característica estrutural do sistema. O economista e senador Roberto Campos, em artigo publicado nos jornais Folha de São Paulo e O Globo em abril de 1998, escreveu com precisão cirúrgica que o comunismo "querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos e, depois, em vítimas." É uma síntese perturbadora, mas historicamente irrefutável.
Não É a Mesma Coisa, Mas Vem do Mesmo Lugar
Seria desonesto intelectualmente equiparar o fascismo italiano ao nazismo alemão, ou o nazismo ao comunismo soviético, como se fossem coisas idênticas. Não são. Hannah Arendt, uma das mais importantes filósofas políticas do século XX e ela própria judia refugiada do nazismo, distinguiu com precisão o totalitarismo — sistema em que o Estado pretende controlar absolutamente toda esfera da vida humana — de outras formas de autoritarismo. Pela análise de Arendt, o fascismo italiano de Mussolini não chegou a ser um totalitarismo pleno, porque o regime aceitou a coexistência com a monarquia e com a Igreja Católica, preservando esferas de poder fora do controle do partido.
O nazismo e o stalinismo, por outro lado, se qualificam plenamente como totalitarismos no sentido arendtiano: ambos pretenderam exterminar qualquer forma de vida social, cultural ou espiritual que não passasse pelo filtro do partido e do líder. Nesse sentido, são comparáveis em estrutura, ainda que diferentes em ideologia e em escala de vítimas. O ponto central, porém, não é dizer que nazismo e comunismo são a mesma coisa. É dizer que ambos brotaram de uma mesma raiz — a tradição revolucionária europeia do século XIX, com sua descrença nas instituições liberais, sua confiança na violência como instrumento de transformação histórica, seu desprezo pela autonomia do indivíduo diante do coletivo e sua certeza de que o fim justifica os meios. Marx e Engels não inventaram o terror revolucionário — ele já estava em Robespierre e no Terror de 1793 — mas sistematizaram e legitimaram a ideia de que a violência é não apenas um instrumento aceitável, mas uma necessidade histórica na transformação da sociedade.
Hitler e Mussolini beberam nessa mesma fonte, modificaram os ingredientes — substituindo classe por raça ou nação — e produziram uma mistura diferente, mas reconhecível. Dizer isso não é absolver o nazismo nem minimizar seus crimes. É apenas insistir em que a história seja lida com honestidade.
A Assimetria Moral que Precisa Ser Nomeada
Há algo profundamente revelador na comparação entre o tratamento histórico dado ao nazismo e o dado ao comunismo. O julgamento de Nuremberg, em 1945 e 1946, colocou no banco dos réus duas dezenas dos principais líderes nazistas. A caça a criminosos de guerra nazistas durou décadas — e ainda continua, em casos residuais. Adolf Eichmann foi capturado na Argentina em 1960 e executado em Israel em 1962. Klaus Barbie foi extraditado da Bolívia e julgado na França em 1987. O Museu do Holocausto em Washington existe, é visitado por milhões de pessoas e é financiado por dinheiro público americano.
Do lado comunista, o balanço é gritantemente diferente. Nenhum líder soviético ou chinês foi jamais julgado por um tribunal internacional. Nenhum arquipélago Gulag teve seu equivalente ao Tribunal de Nuremberg. No Camboja, o único país que tentou levar a julgamento os líderes do Khmer Vermelho, o processo foi boicotado sistematicamente pela própria ONU — organização que deveria ser a guardiã dos direitos humanos — e se arrastou por décadas, com os réus morrendo de velhice antes de qualquer sentença definitiva. Pol Pot morreu em 1998 sem ter sido julgado.
Isso não é acidente. É o resultado de décadas de influência cultural e política que os regimes comunistas, e especialmente a União Soviética com sua poderosa máquina de propaganda e desinformação — a dezinformatsiya — exerceram sobre a intelectualidade ocidental. Enquanto Goebbels operava com truques relativamente grosseiros de propaganda, a escola de Willi Münzenberg, o genial agente de influência soviético que operou nas décadas de 1920 e 1930, desenvolveu técnicas muito mais sofisticadas de manipulação da opinião pública nos países democráticos — recrutando intelectuais, artistas e jornalistas de prestígio para difundir narrativas favoráveis ao projeto soviético.
A assimetria existe até no nível simbólico mais imediato: uma camiseta com a face de Che Guevara é usada por universitários em todo o mundo como símbolo de rebeldia cool. Uma camiseta com a face de Heinrich Himmler provocaria horror e repulsa universais — como é correto que provoque. Che Guevara era responsável pelas execuções sumárias em La Cabaña, a fortaleza de Havana onde centenas de pessoas foram fuziladas sem julgamento. O símbolo de moda e o símbolo de horror representam crimes da mesma natureza, em escala diferente. Apenas um deles é socialmente inaceitável.
O Brasil, a Ditadura Militar e a Discussão que Não Termina
O Brasil entrou na órbita dessa guerra ideológica global de forma intensa nas décadas de 1960 e 1970, e o debate sobre esse período permanece vivo, doloroso e necessário. De um lado, há um fato histórico incontestável: a ditadura militar brasileira (1964-1985) prendeu, torturou e matou opositores. O número de mortos e desaparecidos políticos reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade, encerrada em 2014, é de 434 pessoas. Cada uma dessas vidas tinha valor inestimável e insubstituível. As famílias que até hoje não têm respostas sobre o paradeiro dos restos mortais de seus parentes merecem verdade e justiça — e isso não é negociável do ponto de vista ético.
Do outro lado, há outro fato histórico incontestável: o Brasil da década de 1960 estava no epicentro de uma disputa geopolítica real entre os Estados Unidos e a União Soviética, e Cuba — sob orientação soviética — financiava, treinava e apoiava logisticamente grupos armados que pretendiam instalar no Brasil um regime do modelo cubano. Não era paranoia militar. Era uma estratégia documentada, confessada posteriormente pelos próprios participantes. A questão que permanece aberta entre historiadores é: qual seria o caminho que o Brasil teria tomado sem o golpe de 1964? Essa pergunta não tem resposta definitiva — a história não tem laboratório. Historiadores de esquerda como Marcos Napolitano argumentam que Jango Goulart estava sendo moderado por pressões institucionais e que não havia risco real de uma ditadura comunista no Brasil. Historiadores de linha conservadora como Rodrigo Patto Sá Motta analisam o período de forma mais matizada, reconhecendo tanto os crimes da ditadura quanto as ameaças reais ao regime democrático que existiam no contexto da Guerra Fria.
O que é intelectualmente desonesto — nos dois sentidos — é apagar parte do quadro. Apagar as torturas e mortes da ditadura militar para construir uma narrativa de "salvação nacional" é falsificação. Mas também é falsificação apagar o contexto da Guerra Fria, o financiamento cubano-soviético a grupos armados no Brasil e os crimes dos regimes comunistas em outros países, para construir uma narrativa em que a única violência existente era a dos militares brasileiros. A história real é mais complexa, mais perturbadora e mais rica do que qualquer uma das versões simplificadas que os dois campos produzem para consumo de seus respectivos fiéis.
O Idealismo Como Fantasia e o Ódio Como Motor Real
Uma das afirmações mais persistentes sobre o comunismo — e das mais difíceis de sustentar diante dos textos originais — é a de que ele teria nascido de um impulso idealista, de um amor profundo pela humanidade e pela justiça. John Earl Haynes, um dos grandes historiadores do anticomunismo americano, chegou a escrever que, ao contrário do nazismo, o comunismo "brotou de raízes idealísticas." Mas basta ler Marx e Engels para perceber que os volumes que eles produziram são esmagadoramente dedicados não à descrição da futura sociedade justa e fraterna, mas à demolição sistemática de tudo que existia antes deles — a religião, a moral, a arte, a família, a filosofia, a ciência, o direito, tratados todos como simples máscaras ideológicas para interesses econômicos e vontade de poder. O olhar que os fundadores do marxismo lançam sobre milênios de cultura humana é um olhar de desprezo ferozes e de suspeita implacável. Não é o olhar de quem ama a humanidade. É o olhar de quem a condena.
Os momentos em que Trotski, por exemplo, se permite imaginar as belezas da futura sociedade comunista — como quando afirmou que na sociedade comunista cada varredor de rua seria um novo Leonardo da Vinci — têm a qualidade das alucinações: exagerados ao ponto do ridículo, desconectados de qualquer análise concreta, funcionando mais como válvula de auto-excitação retórica do que como projeto real. Ninguém que leu a obra completa de Marx, Engels, Lênin ou Stalin pode sair dela com a impressão de ter encontrado humanistas apaixonados. Pode sair, isso sim, com a impressão de ter encontrado pessoas profundamente iradas, movidas por um ressentimento estrutural contra a civilização existente, dispostas a destruir tudo para reconstruir algo que nunca descreveram com clareza suficiente para permitir qualquer avaliação séria. O idealismo comunista não está no centro da doutrina. Está na periferia, disponível para os "idiotas úteis" — expressão que Lênin usava para designar os simpatizantes ocidentais ingênuos que abraçavam o projeto soviético sem entender o que estava por baixo. Os líderes, afinal, sabiam exatamente o que estavam fazendo.
O Que Fica
A história do século XX é a história de duas grandes experiências de engenharia social totalitária que, partindo de raízes ideológicas irmãs, produziram catástrofes humanas de proporções difíceis de imaginar. O nazismo durou doze anos e deixou um rastro de 11 a 17 milhões de mortos, mais os 55 milhões que morreram na Segunda Guerra Mundial em grande parte por sua causa. O comunismo durou setenta anos em sua versão soviética, continua existindo em sua versão chinesa, norte-coreana, cubana e vietnamita, e produziu um número de mortos que nenhum historiador sério ainda conseguiu calcular com precisão, mas que supera em muito qualquer outro experimento político da história humana.
O fato de que o nazismo é universalmente condenado — e corretamente — enquanto o comunismo ainda encontra defensores entusiasmados em universidades, parlamentos e movimentos sociais ao redor do mundo não é produto de uma análise histórica equilibrada. É produto de uma enorme operação de gestão da memória, em que uma das ideologias morreu e pode ser odiada sem risco, enquanto a outra sobreviveu e ainda intimida o suficiente para que o temor se disfarce de reverência. Entender isso não é absolver nenhum dos dois. É simplesmente exigir que a mesma régua moral seja aplicada aos dois lados. E essa exigência, por razões que este artigo tentou mostrar, é muito mais subversiva do que parece.