Bebendo loção de banho como se fosse vodca: o drama do álcool que ainda mata na Rússia em 2026. Acorda cego. Só tomou um golinho daquela loção cheirosa de espinheiro e, bum, o mundo virou escuridão total. Foi isso que um sobrevivente contou depois do inferno que rolou em Irkutsk, na Sibéria russa, em dezembro de 2016. A loção se chamava Boyaryshnik – vendida abertamente em farmácias como “para banho relaxante”, com um rótulo bem clarinho dizendo “não ingerir”.
Mas o cheiro de hawthorn e o preço ridículo (menos de um dólar o litro) transformaram ela em licor de pobre. Resultado? Pelo menos 70 pessoas mortas em poucos dias, homens e mulheres entre 35 e 50 anos, quase todos do mesmo bairro pobre. As autoridades declararam estado de emergência na cidade inteira. E o pior de tudo? Essa tragédia não ficou presa no passado. Em setembro de 2025, na região de Leningrado, o mesmo filme passou de novo: 41 mortes confirmadas por metanol em álcool falsificado. O veneno continua circulando, o desespero continua igual, e o Boyaryshnik virou símbolo de um problema que a Rússia nunca conseguiu enterrar de vez.
Pensa só: você está quebrado, a vodca legal subiu de preço por causa de impostos e crise econômica, as lojas fecham as portas depois das 11 da noite e você precisa de algo pra esquecer o dia. Aí entra a loção, o perfume, o colônia pós-barba, o limpador de para-brisa ou até o anticongelante. Tudo tem álcool etílico, custa uma mixaria e está disponível 24 horas nas farmácias ou em máquinas automáticas. Menor de 18 anos? Nem precisa mostrar documento. É mais fácil que comprar pão. Segundo dados oficiais da época, os russos consumiam entre 170 e 250 milhões de litros por ano só dessas coisas “medicinas” ou de higiene. E o número não parou de crescer 20% ao ano até a crise apertar ainda mais.
O Boyaryshnik de 2016 era o exemplo perfeito dessa loucura. Fabricado com espinheiro, supostamente 93% de álcool bom, mas a versão falsificada veio carregada de metanol – aquele álcool metílico usado como solvente industrial, o mesmo que tem na gasolina e no anticongelante. Metanol é barato pra caramba pra quem fabrica no contrabando, mas no corpo humano vira formaldeído e ácido fórmico. Primeiro vem a visão turva, depois cegueira permanente, depois falência de rins e fígado, coma e morte. Um dos sobreviventes de Irkutsk contou que tomou “só um pouco” e acordou sem enxergar nada. Outros nem acordaram. As vítimas eram gente comum, operários, donas de casa, desempregados – gente que não aguentava mais o preço da vodca oficial, que na época já batia uns 3 dólares o litro enquanto o surrogado saía por menos de 1.
E não vem com papo de “foi só um caso isolado”. O problema do álcool surrogado é crônico na Rússia há décadas. Nos anos 90, depois do fim da URSS e da tentativa maluca de Mikhail Gorbachev de proibir bebida (que durou pouco e só piorou tudo), o consumo explodiu. A crise econômica de 2014 em diante, as sanções e agora a guerra na Ucrânia só jogaram mais lenha na fogueira: salário baixo, desemprego, preços subindo. Resultado? Cerca de 12 milhões de russos – principalmente os mais pobres – bebem regularmente essas porcarias tóxicas. Perfume Chanel Nº5 não dá pra proibir, né? É a frase que a correspondente da BBC Olga Ivshina usou na época e que continua valendo. As farmácias vendem 24h porque “é remédio”, as máquinas automáticas funcionam de madrugada e pronto: vodca fake pra qualquer hora.
O alcoolismo na Rússia não é brincadeira. Há alguns anos calculava-se que um adulto médio bebia uns 20 litros de vodca pura por ano – contra apenas 3 litros no Reino Unido. Hoje os números oficiais caíram bastante graças a políticas duras: consumo per capita de álcool puro chegou a 10,4 litros em 2025 segundo dados do governo e da OMS (bem abaixo dos 11,7 de 2016), e o alvo é 7,8 litros até 2030. Vendas de bebida forte despencaram 9,3% em 2025, produção de vodca no menor nível em oito anos. Impostos subiram 15%, preço mínimo da vodca pulou, regiões inteiras (como Vologda) limitaram venda a só duas horinhas por dia de segunda a sexta. Parece vitória, né? Mas é vitória de fachada. Porque o que não aparece nos números oficiais é o álcool não registrado: samogon caseiro, contrabando e, principalmente, esses surrogados mortais.
De acordo com a Médecins Sans Frontières, só entre 2015 e 2025 pelo menos 2.601 pessoas morreram de envenenamento por metanol na Rússia – e isso só contando os casos confirmados de mass poisonings. O de Irkutsk foi o maior pós-soviético, mas vieram outros: 34 mortos em Orenburg em 2021, 16 em Ulyanovsk em 2023, e agora os 41 de Leningrado em 2025. O metanol aparece porque os falsificadores trocam o etanol caro por metanol barato. O corpo não perdoa: 30 ml já podem matar, 10 ml cegam pra sempre. E o pior é que muita gente sabe do risco e bebe mesmo assim. “Se eu comprei, vou beber”, dizem os mais viciados. É o zapoi – aquela bebedeira contínua de dias que o russo conhece bem e que deixa família destruída, violência doméstica, acidentes e suicídios.
Olha o lado social da coisa. Os homens ainda lideram as estatísticas – antigamente 25% deles morriam antes dos 55 anos por causa de álcool –, mas mulheres também entram nessa. Idosos, jovens, até crianças acabam experimentando porque o acesso é ridiculamente fácil. A pobreza é a mãe de tudo: quando a vodca legal fica cara demais pro bolso, o surrogado vira salvação e condenação ao mesmo tempo. Especialistas falam abertamente que o crescimento do consumo de surrogados foi de 65% depois do aumento de impostos em 2009. E em 2026, com mais alta de impostos e queda de renda por causa da guerra, o mercado negro só tende a crescer. Vendas legais despencam, farmácias e garrafas de “perfume” vendem mais.
O governo não é burro. Depois do escândalo de Irkutsk, Putin mandou apertar as rédeas: rastreamento EGAIS obrigatório, proibições mais duras, buscas em lojas. Vender loções com alto teor de álcool ficou mais vigiado. Mas proibir tudo é impossível – você não vai tirar o álcool medicinal do mercado nem o perfume da prateleira. O resultado é um vai-e-vem: consumo oficial cai (boa notícia pra saúde pública), mas o surrogado e o contrabando sobem nas sombras. Em 2025 as vendas de remédios contra alcoolismo subiram 13,5% – sinal de que o problema não sumiu, só mudou de endereço. Agora, pensa no ser humano por trás dos números. Imagina o cara que chega em casa depois de um dia de merda, pega a loção de espinheiro que “todo mundo usa como bebida”, dá um gole pra relaxar e acorda no hospital – ou não acorda. Ou a mãe de família que usa o mesmo truque pra esquecer as contas. É ironia pesada: um país que produziu gênios da literatura, da música e da ciência tem uma parte da população tratando produto de higiene como destilado premium. E o mais triste é que isso não é falta de informação. Todo mundo sabe que metanol mata. Mas quando a alternativa é ficar sóbrio e encarar a realidade crua da vida russa pobre, muita gente prefere arriscar.
Curiosidade que deixa a gente de boca aberta: as máquinas automáticas de “bebida medicinal” funcionavam como caixas eletrônicos de álcool. Menor entrava, colocava dinheiro e saía com o litro. Farmácias 24 horas viraram bares disfarçados. E o Boyaryshnik tinha até sabor artificial de limão pra ficar mais “palatável”. Hoje, com as restrições regionais, o pessoal estoca no fim de semana e bebe tudo de uma vez – ou parte pro surrogado mesmo.
O que o futuro reserva? As políticas estão funcionando no papel: consumo per capita caindo, mortes por álcool registradas diminuindo desde os anos 2000. Mas enquanto houver pobreza extrema, desemprego e essa cultura arraigada de “beber pra esquecer”, o surrogado vai continuar matando. A Rússia já reduziu o consumo em mais de 40% desde 2003 com leis duras – algo que poucos países conseguiram. Mas o preço dessa vitória são milhares de mortes silenciosas que não aparecem nas manchetes internacionais.
No fim das contas, a história do Boyaryshnik e dos seus primos de 2025 não é só sobre metanol ou loção de banho. É sobre um país que luta contra si mesmo: entre o desejo de modernizar e o peso de uma tradição que transforma qualquer líquido com álcool em salvação imediata. Enquanto isso, nas farmácias siberianas e nas ruas de Leningrado, o ciclo continua. Alguém compra, bebe, sofre ou morre. E o mundo assiste como se fosse notícia velha. Mas não é. Está acontecendo agora. E vai continuar acontecendo enquanto o preço da vida valer menos que o da vodca de verdade.