A Universidade Mais Antiga do Mundo Foi Fundada por uma Mulher (e a Europa Ainda Engole Essa Pílula). 859 d.C. Enquanto a maior parte da Europa vivia no meio do mato, brigando com vikings e achando que banho fazia mal, uma mulher em Fez, no Marrocos, pegou a herança do pai e resolveu fazer algo útil: construiu uma mesquita que, sem querer querendo, virou a primeira universidade do planeta ainda de pé. Sim, você leu certo.
Antes de Oxford, antes de Bolonha, antes de qualquer “universitas magistrorum et scholarium” latina, já existia Al-Qarawiyyin (ou Al Quaraouiyine, como a gente escreve por aqui). E quem botou isso de pé foi Fátima al-Fihri. Uma mulher. Sozinha. Num século IX. Pausa dramática pra você absorver o soco no estômago histórico.
Quem diabos foi Fátima al-Fihri?
Fátima era filha de Mohammed al-Fihri, um mercador tunisiano rico pra caramba que se mudou com a família pra Fez fugindo de instabilidade política na região de Kairouan. Quando o pai morreu, ela e a irmã Mariam herdaram uma fortuna absurda. Mariam construiu a Mesquita dos Andaluzes (outra belezura até hoje). Fátima foi mais longe: decidiu que ia usar o dinheiro pra algo que beneficiasse a comunidade pra sempre.
Em 859 ela fundou a Mesquita Al-Qarawiyyin. No começo era “só” um lugar de oração com uma madraça anexa – tipo uma escola religiosa avançada. Mas o negócio cresceu tanto que, dois séculos depois, já era reconhecida como um centro de estudos superior que emitia ijazat (o equivalente aos diplomas de hoje). Sim, o primeiro diploma universitário da história foi entregue ali, séculos antes da Europa sonhar com isso.

O que se estudava lá quando Paris ainda era um pântano?
Prepara o café, porque a lista é de cair o queixo:
Teologia islâmica avançada, fiqh (jurisprudência), tafsir (exegese do Alcorão)
Gramática, retórica e literatura árabe (o árabe era o que o inglês é hoje)
Matemática (álgebra já era disciplina fixa – sim, aquela palavra vem de al-jabr)
Astronomia e astrologia (observatório no telhado da própria mesquita)
Medicina (o pessoal estudava Avicena e Rhazes antes da Europa saber quem eram)
Química (sim, destilação de álcool e ácidos já rolava)
Música, caligrafia, história, filosofia grega traduzida (Aristóteles, Platão, tudo em árabe)
Alunos vinham de Córdoba, do Cairo, de Bagdá, do Mali, até da Sicília. O sultão mandava os filhos. Era o MIT + Harvard + Sorbonne da Idade Média, tudo junto e misturado.
A biblioteca que humilha qualquer ranking atual
A biblioteca de Al-Qarawiyyin é a mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Tem mais de 4.000 manuscritos, incluindo:
Um Alcorão do século IX escrito em caligrafia cufica dourada sobre pergaminho tingido de açafrão
O “Muqaddimah” original de Ibn Khaldun (o cara que inventou a sociologia 600 anos antes de Auguste Comte)
Tratados de matemática de Al-Khwarizmi (o pai da álgebra)
Obras de Euclides e Ptolomeu traduzidas pro árabe quando na Europa queimavam livros “pagãos”
Em 2016 a biblioteca foi restaurada pelo arquiteto marroquino Aziza Chaouni (outra mulher, aliás) e reabriu com sistema de climatização moderno, porque manuscrito de mil anos não curte umidade não.

Reconhecimento oficial? Tem de sobra
Guinness World Records: “Oldest existing, continually operating higher educational institution”
UNESCO: Patrimônio Mundial desde 1981 (a medina de Fez inteira está na lista, mas Al-Qarawiyyin é o coração)
E as mulheres? Cadê as mulheres?
Aqui a história fica agridoce. Por séculos, Al-Qarawiyyin foi quase exclusivamente masculina no corpo discente. As mulheres estudavam em casa ou em círculos privados. Só em 1947 a universidade começou a aceitar alunas em número significativo. Hoje, pasme, mais da metade dos estudantes são mulheres. O troco da história, né? Mas fora dos muros da universidade a realidade ainda dói: no Marrocos rural, 90% das mulheres acima de 25 anos são analfabetas. Em 2024 a taxa nacional de alfabetização feminina está em torno de 65%. Ou seja: Fátima plantou a semente há 1.166 anos, mas o solo ainda é árido em muitos lugares.
Por que quase ninguém sabe disso?
Porque a narrativa eurocêntrica dominou os livros didáticos por séculos. “Idade das Trevas” era só na Europa, gente. No mundo islâmico era a Era de Ouro: traduziam, ampliavam, inventavam. Enquanto isso, em 859, Carlos Magno mal tinha aprendido a assinar o nome. Quando você ouvir alguém falar que “a universidade nasceu na Europa medieval”, pode rir. A universidade nasceu em Fez, fundada por uma refugiada rica que decidiu que dinheiro bem gasto vale mais que joia nenhuma.Fátima al-Fihri morreu em 880, sem imaginar que o presentinho que deixou pra comunidade ia virar a instituição de ensino mais antiga em atividade no planeta. E aí, terminou de ler e nem viu o tempo passar, né? Pois é. Eu também fico assim toda vez que penso nisso.