Pô, segura essa: você já parou pra pensar que o mesmo gás que é proibido em guerra — tipo, crime de guerra proibido — é jogado sem dó nem piedade em manifestantes nas ruas de Nova York, Paris, Santiago e até aqui no Brasil? Pois é. O gás lacrimogêneo é um daqueles paradoxos que parecem saídos de um roteiro de Black Mirror. Um agente químico que arde nos olhos, sufoca, faz você chorar como se tivesse acabado de ver o final de Marley & Eu… e ainda assim é considerado “não letal”.
Só que “não letal” não quer dizer “inofensivo”. E muito menos “ético”. Vamos descer fundo nessa história, porque o que parece ser só um detalhe técnico esconde um caldeirão de política, hipocrisia e poder.
O Que É Esse Troço Que Arde Tanto?
Antes de mergulhar no drama jurídico, vamos ao básico: o que é, afinal, o gás lacrimogêneo? Apesar do nome, ele não é um gás — é um sólido em forma de pó que, quando aquecido ou disperso, vira uma nuvem tóxica. Os mais comuns são o CS (ortoclorobenzilideno malononitrila), o CN (cloroacetofenona, tipo o velho Mace) e o CR (ainda mais agressivo). Quando esse troço entra em contato com você, ataca os olhos, nariz, garganta e pulmões. Resultado? Olhos vermelhos, tosse, vômito, ardência na pele… e um desejo intenso de sair correndo como se o diabo estivesse atrás. É como se o corpo inteiro entrasse em modo “fuga ou luta”, só que sem escolha: você precisa fugir. Não tem como resistir. É um ataque direto ao sistema nervoso. E o mais irônico? Ele foi criado como arma química — nos anos 1910, durante a Primeira Guerra Mundial. Só que, depois de ver o estrago, o mundo disse: “não, isso aqui é muito foda pra usar em soldados”.
Proibido no Campo de Batalha… Mas Liberado nas Manifestações
Aqui entra o paradoxo mais escroto da história: o gás lacrimogêneo é proibido em guerras desde 1925, pelo Protocolo de Genebra. E em 1993, a Convenção sobre Armas Químicas (CWC) reforçou: usar agentes lacrimogênios em conflitos entre países é crime de guerra. Mas atenção ao detalhe: a proibição vale só entre nações. Ou seja, se o Exército dos EUA invadir outro país e soltar gás nos civis, é crime internacional. Agora, se a polícia de Minneapolis soltar o mesmo gás em manifestantes por justiça racial? Tudo bem. Legal. “Controle de distúrbios”. É tipo aquela piada triste: “Você não pode bater no seu vizinho, mas pode bater no seu filho”. A lógica é furada, mas é a lei.
EUA, 2020: O Ano em que o Gás Virou Símbolo de Repressão
Em 2020, o mundo viu. Literalmente. Vídeos de George Floyd sendo asfixiado. Protestos em mais de 2 mil cidades nos EUA. E por toda parte: nuvens de gás lacrimogêneo. Em Portland, Oregon, a polícia federal usou gás lacrimogêneo contra manifestantes — inclusive jornalistas e médicos voluntários. Em Washington, D.C., perto da Casa Branca, a Guarda Nacional liberou o gás para limpar a área antes de Trump fazer um comício ridículo segurando uma Bíblia. Ironia? Ele usou uma arma química proibida em guerra… para tirar manifestantes de uma praça. E o mais absurdo: boa parte desse gás foi fabricado por empresas americanas — como a Combined Systems, Inc., que vende para polícias e exércitos no mundo inteiro. Eles até têm um site com catálogo de “produtos de contenção”. Parece uma loja de brinquedos. Só que os brinquedos deixam você cego, vomitando, gritando.
Mas… Isso é Tão Perigoso Assim?
Ah, ótima pergunta. Muita gente acha que gás lacrimogêneo é “só um incômodo”. Puf, chora um pouco, passa. Falso. Estudos mostram que o CS pode causar:
Lesões oculares permanentes (inclusive cegueira);
Danos pulmonares graves, especialmente em quem tem asma ou doenças respiratórias;
Queimaduras químicas na pele;
Em casos extremos, morte por asfixia ou parada cardíaca.
Em 2013, no Egito, mais de 50 pessoas morreram em protestos após exposição massiva a gás lacrimogêneo em espaços fechados. No Chile, em 2019, milhares de pessoas tiveram sequelas respiratórias crônicas por causa do uso desenfreado do gás pela polícia. E tem mais: não existe “dose segura”. Depende do tempo de exposição, vento, espaço, saúde da pessoa… É como dizer que “fumar um cigarro não mata” — mas fuma um maço por dia, e aí vemos.
Por Que a Policia Usa Tanto?
Simples: é barato, fácil de usar e cria efeito imediato. Um canhão de gás pode dispersar uma multidão em minutos. E, ao contrário de balas de borracha ou cassetetes, deixa menos marcas visíveis (embora os danos sejam profundos). Além disso, há um mercado bilionário por trás. Empresas de segurança privada lucram alto com a venda de equipamentos “não letais”. Só nos EUA, o mercado de controle de distúrbios movimenta mais de US$ 1 bilhão por ano. E quem compra? Polícias municipais, federais, forças de elite… todos treinados para ver protestos como “ameaças à ordem”. problema é que, muitas vezes, a ordem que eles querem manter é a desigualdade.

E o Brasil Nisso Tudo?
Ah, claro. Aqui a gente também ama um gás. Em manifestações como as de 2013, o uso de gás lacrimogêneo foi massivo — e controverso. Em São Paulo, no Ato do Vale do Anhangabaú, a polícia liberou gás contra manifestantes desarmados, jornalistas e até crianças. Em 2023, durante protestos contra o governo Bolsonaro e depois contra Lula, o cenário se repetiu. E tem um detalhe sinistro: muitos dos modelos usados aqui são os mesmos dos EUA. Fabricados pela mesma indústria. Testados em conflitos urbanos mundo afora. E vendidos como “solução pacífica”.
Pacífica? Sério? Tem Alternativa? Claro. Só Não é Tão Fácil Existem métodos de contenção menos agressivos: mediação, diálogo, barreiras físicas, até mesmo música e arte para acalmar multidões. Em países como a Noruega, a polícia é treinada para evitar o uso de força a todo custo. Lá, o gás é quase inexistente. Mas isso exige cultura institucional, transparência e, acima de tudo, vontade política. E isso, infelizmente, é mais raro que político honesto.
E a Ciência? O Que Diz a Pesquisa?
Nos últimos anos, cientistas têm pressionado por uma reavaliação do uso de gás lacrimogêneo. Um estudo da Universidade de Harvard, em 2020, concluiu que o CS tem efeitos neurotóxicos e pode agravar doenças crônicas. Outro artigo, publicado na The Lancet, alerta: o uso indiscriminado de gás em protestos é uma forma de violência institucionalizada — disfarçada de “controle”. E tem mais: o gás não diferencia entre manifestantes violentos, pacíficos, jornalistas, idosos ou crianças. Ele ataca tudo que respira. É uma arma de efeito coletivo. Ou seja: coletiva punição.
Então, Por Que Ninguém Faz Nada?
Boa. A resposta é simples: porque quem manda gosta disso. O gás lacrimogêneo é uma ferramenta de poder. Ele não só dispersa — ele intimida. Ele manda um recado: “vocês podem se manifestar, mas vamos tornar isso tão doloroso que vocês vão desistir”. É um instrumento de medo. E medo controla mais do que leis. Além disso, mudar as regras exigiria que países como EUA, França, Brasil e outros admitissem que estão usando armas químicas proibidas em guerra contra seus próprios cidadãos. E isso? É pedir demais.
E Agora? O Que Pode Mudar?
Algumas vozes já se levantam:
Em 2021, a ONU recomendou que governos reconsiderassem o uso de gás lacrimogêneo em protestos.
Em 2023, cidades como Seattle e Oakland proibiram o uso de gás por suas polícias.
No Chile, após o escândalo de 2019, houve projetos de lei para restringir seu uso.
Mas é gota no oceano. O caminho é longo. Exige pressão social, jornalismo investigativo, mobilização. E, principalmente, educação. Porque enquanto a gente achar que “gás é só um incômodo”, eles vão continuar soltando.
Conclusão: Um Gás, Dois Mundos
O gás lacrimogêneo é o espelho de uma contradição brutal: o que é crime entre nações é rotina nas ruas. É permitido porque é conveniente. Porque é barato. Porque mantém a ordem… a ordem deles. Mas cada vez mais gente está acordando. Cada vez mais vídeos, cada vez mais vítimas, cada vez mais estudos mostram: isso não é controle. É violência. E talvez, um dia, a gente consiga responder a pergunta do título com outra: “Por que ainda usamos isso?” Até lá, o gás continua no ar. E a pergunta, na garganta.