Justiça Federal derruba site que substituía advogados por IA

Justiça Federal derruba site que substituía advogados por IA

Você já imaginou poder processar alguém com poucos cliques, como quem faz um pedido no iFood? Pois é. Em 2025, o Brasil acordou para uma realidade que parecia coisa de filme de ficção científica: petições jurídicas vendidas por R$ 19,90 , geradas por inteligência artificial e prontas para protocolar. Tudo isso sem advogado, sem consulta prévia, sem nenhuma assinatura profissional. Só você, seu problema e um formulário online.

Parece moderno, rápido, prático… mas será que é legal?

A resposta, ao menos até onde a Justiça Federal do Rio de Janeiro decidiu, é não . E não foi uma decisão qualquer — foi uma liminar dura, direta e clara, proferida pela juíza Geraldine Vital , da 27ª Vara Federal do Rio, em abril de 2025. O alvo? Um site sediado em Curitiba que prometia "acesso facilitado à Justiça", mas acabou entrando na mira da OAB por algo bem mais grave: prática ilegal da advocacia sob disfarce tecnológico .

O caso que pegou fogo (e não é fake news)

Tudo começou quando a OAB-RJ resolveu investigar denúncias sobre uma plataforma digital que oferecia serviços jurídicos automatizados. A proposta era simples (e tentadora): o usuário preenchia um formulário com os dados do caso — motivo da ação, tipo de pedido, valor envolvido, provas anexáveis — e, em minutos, recebia uma petição pronta, formatada e supostamente adequada à legislação. Uma espécie de “advogado virtual”, só que sem alma, sem ética, sem compromisso profissional. E, claro, sem registro na Ordem dos Advogados do Brasil. O preço? Uma ninharia perto do que um advogado cobraria: R$ 19,90 por petição inicial . Barato demais? Talvez. Mas barato nem sempre quer dizer bom negócio — especialmente quando se fala em Direito. A OAB entrou com uma ação civil pública contra a empresa, alegando mercantilização da advocacia e violação do Estatuto da Advocacia e da OAB. E a Justiça federal concordou — pelo menos em primeira instância.

Por trás da tela: onde está o perigo?

“Mas espera! Eu posso entrar com uma ação nos Juizados Especiais Federais sozinho, sem advogado!” — você pode estar pensando. Verdade. A Lei 9.099/95 permite que cidadãos apresentem petições pessoalmente em certas causas de menor complexidade. Mas aí entra o detalhe crucial: Produzir petições jurídicas como serviço remunerado, usando IA e sem supervisão de um advogado, é considerado exercício ilegal da profissão.

A juíza Geraldine Vital foi enfática em sua decisão: a plataforma vai muito além de uma ferramenta de auxílio ao cidadão. Ela atua de forma padronizada, publicitária e lucrativa, o que caracteriza intermediação mercantil de atividade exclusiva da advocacia. Ela destacou ainda que a linguagem usada no site — com promessas de "sucesso garantido", "processos simplificados" e "documentos prontos para protocolo" — tem viés comercial explícito , o que configura captação de causas, prática vedada pelo artigo 34, inciso IV, do Estatuto da Advocacia.

Um alerta silencioso para o futuro da justiça

Aqui, o perigo não é só legal, mas institucional. Segundo a magistrada, esse tipo de serviço corrói a confiança do cidadão no sistema de Justiça , porque oferece soluções prontas para problemas complexos, muitas vezes sem análise crítica ou contextualização jurídica. Imagine você comprando uma petição pronta, achando que está certo fazer aquilo, protocolar no tribunal, e depois descobrir que o documento está cheio de vícios formais, erros técnicos ou fundamentações equivocadas. Resultado? Processo arquivado, tempo perdido, direitos prejudicados — e ninguém responsável. Como dizia aquele velho ditado popular: "quando tudo parece fácil demais, provavelmente tem algo errado."

A defesa do site: "não somos advogados, somos ferramentas"

Diante da pressão da OAB e da decisão judicial, a empresa por trás da plataforma respondeu via WhatsApp, com mensagens automáticas — ironicamente, também produzidas por IA. Nelas, afirmava que não há mercantilização da advocacia , apenas "apoio técnico na criação de documentos". Segundo a empresa, o objetivo seria democratizar o acesso à Justiça, permitindo que pessoas comuns façam uso de seus direitos sem depender de um advogado. Afinal, a lei permite que indivíduos processem sozinhos em certas situações. Mas aqui mora o equívoco: o que a plataforma faz não é simples apoio. É produção jurídica técnica , personalizada (mesmo que de forma automatizada), e remunerada. Isso sim é o cerne do problema.

O debate que vai muito além de um site

Este caso não é apenas sobre um site que vende petições. É sobre como a tecnologia está mudando a forma como acessamos e entendemos o Direito . É sobre limites entre inovação e regulamentação. É sobre até onde podemos ir na busca por praticidade sem perder a essência da profissão jurídica.

Além disso, levanta questões importantes:

Se uma máquina pode escrever petições, qual será o papel do advogado no futuro?
Até que ponto a IA pode auxiliar sem substituir?
Como evitar a banalização do Direito como serviço consumista?
Quem responde se algo der errado?

A resposta da sociedade e das instituições precisa ser rápida, mas ponderada. Afinal, estamos falando de direitos fundamentais e da integridade do sistema judiciário .

E agora, o que acontece com o site?

Apesar da liminar determinando a suspensão imediata do serviço, até a data da publicação da notícia original, o site continuava no ar . Uma situação paradoxal: uma decisão judicial que pede a paralisação de um serviço que vive na internet… e que, por enquanto, segue funcionando. Isso mostra o quanto é difícil regular plataformas digitais. Afinal, servidores podem estar em qualquer lugar do mundo, domínios podem ser registrados sob pseudônimos, e a fiscalização se torna quase impossível. A OAB afirma que vai buscar meios legais para efetivar a suspensão, inclusive com ajuda de autoridades internacionais, se necessário. Enquanto isso, a empresa continua oferecendo o serviço, mantendo o debate aberto e a polêmica no ar.

Conclusão: o futuro da Justiça está sendo escrito (na tecla F5)

Seja qual for o desfecho final, uma coisa é certa: estamos diante de uma nova era jurídica , moldada pela inteligência artificial, pela automação e por modelos de negócios disruptivos. Mas essa revolução precisa andar de mãos dadas com a ética, a responsabilidade e o respeito às regras que garantem a segurança jurídica de todos nós. Porque, no fim das contas, justiça não é commodity . Não é algo que possa ser comprado por R$ 19,90, nem entregue em casa com frete grátis. Justiça é séria. É humana. É complexa. E, por enquanto, exige mais do que algoritmos.