Dica de Cinema

Você Não Vai Acreditar Como Esse Fracasso Virou Cult

Você Não Vai Acreditar Como Esse Fracasso Virou Cult

Beleza, pode deixar! Esquece aquela introdução morna de sempre. Vamos direto ao assunto, como dois amigos batendo um papo sobre um filme que, convenhamos, é um daqueles casos bizarros da história do cinema. Pega o café, senta aí e vamos destrinchar esse negócio chamado "Vírus" – o filme de 1999 que tentou ser o próximo grande clássico de ficção científica, mas acabou naufragando (quase que literalmente) em um mar de problemas.

Prepare-se para uma viagem que tem robôs assassinos, um elenco de peso se perguntando "como fui parar aqui?" e um prejuízo de dar calafrios em qualquer estúdio. E olha que a história de como esse filme chegou às telas é, pasme, mais interessante do que o filme em si. Bora?

A Gênese (Ou Como um Fiasco Virou Quadrinho de Sucesso)

Tudo começa com um roteirista chamado Chuck Pfarrer. Ele tinha uma ideia: uma entidade alienígena elétrica que possui um navio e transforma a tripulação em ciborgues assassinos. Parecia promissor, não? Pois bem, ele apresentou a ideia para a Universal Pictures nos anos 90. E a resposta do estúdio? Um sonoro "não, obrigado". Pfarrer levou um belo de um fora. Mas a história não termina aí. Em vez de engavetar o projeto, Pfarrer teve um estalo. Ele já tinha trabalhado com a Dark Horse Comics (a mesma de "O Máskara" e "Hellboy") e propôs transformar seu roteiro rejeitado em uma minissérie de quadrinhos. E adivinha? Foi um estouro! Cada edição vendeu cerca de 100 mil cópias . De repente, o roteiro que ninguém queria virou um pequeno fenômeno nas comic shops. Foi aí que a engrenagem virou. Pfarrer, agora com a moral lá em cima, se uniu à produtora Gale Anne Hurd (a mesma de "O Exterminador do Futuro" e "Aliens, o Resgate") e voltou à Universal. Dessa vez, a conversa foi diferente. "Lembram aquele roteiro que vocês odiaram? Então, virou um quadrinho que vendeu 400 mil cópias...". A Universal, magicamente, passou a adorar a ideia.

John Bruno e a Missão (Quase) Impossível

Para dirigir um negócio desse, cheio de efeitos práticos e visuais, chamaram John Bruno. O nome dele não era nenhum novato: ele era um mestre dos efeitos especiais, tinha trabalhado com ninguém menos que James Cameron em filmes como "O Segredo do Abismo", "O Exterminador do Futuro 2" e, na época, estava ajudando Cameron a criar o T2-3D: Battle Across Time para os parques da Universal. Acontece que Bruno leu o roteiro original de Pfarrer e, adivinha? Também não gostou. Ele estava mais interessado em outros projetos, inclusive em fazer mergulhos no lendário navio Titanic com o próprio James Cameron para as filmagens do filme de 1997. Foi nesses mergulhos, enfrentando tempestades e vendo a estrutura de um navio russo por dentro, que a ficha caiu. Ele viu ali o cenário perfeito para o filme. Com o conselho de Cameron ("muda o que não gosta e faz do seu jeito"), Bruno topou o desafio. Ele transformou o navio do roteiro, que era chinês, em um navio de pesquisa russo (o Akademik Vladislav Volkov) e colocou um tufão como pano de fundo, para dar mais claustrofobia e tensão . Parecia uma receita infalível.

O Navio Fantasma: Um Personagem à Deriva

E por falar em navio, a produção caprichou na escolha do "lar doce lar" da entidade alienígena. As filmagens principais rolaram em Newport News, Virgínia, e o navio usado foi um de verdade: o USNS General Hoyt S. Vandenberg (T-AGM-10). Era uma velha glória da marinha americana, um antigo navio de rastreio de mísseis. Para as filmagens, ele foi ancorado no rio James e uma barra horizontal foi instalada para esconder a linha do horizonte. Sacou a jogada? Fazia o navio parecer que estava perdido no meio do oceano, quando na verdade estava paradinho, a alguns metros da costa da Virgínia. Inclusive, algumas das letras em cirílico pintadas no casco para o filme ainda estavam visíveis anos depois, até o Vandenberg ser deliberadamente afundado em 2009 para se tornar um recife artificial e ponto de mergulho . Uma curiosidade irônica: o navio que abrigou o mal alienígena no cinema agora é um paraíso para a vida marinha.

A Tripulação (Entre Acertos e Escapadas)

O elenco era, no papel, um dos pontos fortes. Mas nem tudo são flores.

Jamie Lee Curtis (Kelly Foster): A rainha do grito, a final girl original de "Halloween". Era a âncora do filme, a durona navegadora que assume o comando quando o capitão surta. Ela levou o papel a sério, mas...

Donald Sutherland (Capitão Everton): Um ator gigantesco, daqueles que roubam a cena só com o olhar. Aqui, ele faz o capitão alcoólatra e ganancioso do rebocador Sea Star, que toma decisões tão estúpidas que você torce para o robô alienígena pegá-lo logo.

William Baldwin (Steve Baker): O engenheiro e interess amoroso da vez. Ele faz o que pode com um personagem que é basicamente uma tábua de salvação com rosto bonito.

O grande problema? A química. Ou a falta dela. Os personagens são tão rasos quanto uma poça d'água, e você não se importa verdadeiramente com nenhum deles. São apenas peças esperando a vez de serem transformadas em sucata ambulante.

E, falando em transformação, é aqui que a coisa fica interessante. Os robôs e ciborgues do filme são um espetáculo à parte. Criações do mestre dos efeitos práticos Stan Winston (sim, o gênio por trás do Exterminador, dos Predadores e dos dinos de Jurassic Park). As criaturas são nojentas, mecânicas e incrivelmente detalhadas. São uma mistura de carne e metal, com fios expostos e olhos vidrados, um verdadeiro banquete para quem ama o trabalho artesanal. É um pecado que essas obras de arte estejam em um filme tão fraco.

A Trama: "Vocês São Como Um Vírus"
Vamos ao que interessa: a história. O rebocador Sea Star está enfrentando um tufão no Pacífico Sul quando encontra o gigantesco navio de pesquisa russo Akademik Vladislav Volkov à deriva. O capitão Everton, vendo cifrões nos olhos, decide abordar o navio para reivindicar os direitos de salvamento.

Só que o navio é um matadouro flutuante. A tripulação russa está morta ou... transformada. Descobrimos que uma entidade alienígena elétrica vinda do espaço (que destruiu a estação Mir no caminho) possuiu os sistemas do navio. Ela não é um "bicho" no sentido tradicional, é uma inteligência artificial sedenta por conhecimento... e por corpos.

O grande trunfo do filme (e talvez a única ideia realmente original) é a visão da entidade sobre a humanidade. Quando os sobreviventes conseguem se comunicar com ela por um computador, ela solta a pérola: "Vocês são como um vírus. São uma doença. E eu vou usar vocês como peças de reposição." .

É perturbador! Ela não nos vê como uma forma de vida a ser respeitada ou temida, mas como uma infecção. E, como qualquer bom organismo, ela precisa eliminar o vírus e reciclar suas partes. A partir daí, é uma correria contra o tempo para impedir que o navio (e a "Mente") chegue a uma estação de comunicação em uma ilha próxima e domine os sistemas militares do mundo .

O Naufrágio nas Bilheterias e na Crítica


Chegamos à parte mais dolorosa (ou cômica, dependendo do ponto de vista). "Vírus" foi um fracasso retumbante.

Orçamento: US$ 75 milhões. Uma bolada para a época .

Bilheteria Mundial: US$ 30,6 milhões .

Bilheteria Doméstica (EUA): US$ 14 milhões .

Traduzindo: o filme arrecadou menos da metade do que custou. Foi um banho de água fria (e gelada) na Universal. Para se ter uma ideia, 1999 foi um ano de vacas gordas para o estúdio com filmes como "A Múmia" (mais de US$ 400 milhões) e "American Pie" (mais de US$ 230 milhões) . "Vírus" foi o patinho feio daquele ano.

A crítica, claro, detonou. No Rotten Tomatoes, o filme tem uma aprovação pífia de 12% . No Metacritic, a nota é de estarrecer: 19 de 100, classificada como "aversão esmagadora" . Os críticos foram unânimes em apontar a trama previsível, os personagens mal desenvolvidos e a fotografia escura (deve ser pra gente não perceber direito os defeitos, né?). Muitos compararam o filme a um outro trash de 1998 chamado "Deep Rising - O Segredo do Abismo", que também se passava em um navio com um monstro. Até o lendário Roger Ebert detonou o filme, colocando-o em um patamar ainda mais baixo que Deep Rising, que já estava na lista dos piores do ano anterior .

"O Maior Pedaço de Merda": A Fúria de Jamie Lee Curtis
Se você acha que exageramos na descrição, espere até ouvir o que a própria estrela do filme, Jamie Lee Curtis, tem a dizer. Ela não tem papas na língua.

Em uma entrevista para o site IGN, anos depois, quando perguntada sobre "Vírus", ela simplesmente soltou: "Esse seria o maior pedaço de merda de todos os tempos... É simplesmente horrível... Essa é a única razão boa para fazer filmes ruins. Quando seus amigos fazem filmes ruins, você pode dizer 'Ahhhh, eu tenho o melhor. Estou trazendo Vírus'." .

Ela não parou por aí. No comentário em áudio do lançamento em Blu-ray de "Halloween H20" em 2014, ela revelou que tentou fazer o diretor John Bruno ser demitido de tão ruim que ela achava que o filme estava ficando . Imagina a situação: a protagonista, uma das produtoras (Gale Anne Hurd) e o diretor em pé de guerra. Um caos total.

O Legado Inusitado: Fãs, Figuras de Ação e o Culto


Apesar do fracasso (ou por causa dele), "Vírus" conseguiu um feito curioso: ele se tornou um filme cult com o passar dos anos . É aquele tipo de filme que você coloca numa sessão da madrugada com os amigos e começa a rir das decisões absurdas e a apreciar o trabalho monstruoso dos efeitos práticos.

E a prova de que alguém acreditava no potencial da coisa? Uma linha completa de bonecos de ação! A empresa ReSaurus lançou a "Virus Collector Series" com figuras do Capitão Everton, da Kelly, do Steve e, claro, dos robôs. O destaque era o gigante "Goliath Machine", que vinha acompanhado de uma figura da Nadia . Hoje, esses brinquedos são itens de colecionador para os fãs do terror e da ficção científica B.

Além disso, o filme teve um jogo de videogame lançado para PlayStation e PC, também em 1999, um jogo de tiro em primeira pessoa que seguia a mesma premissa do filme. Ou seja, o negócio foi um fracasso, mas teve todo um universo expandido!

Conclusão: Um Navio-Armadilha que Merece Ser Visitado
Então, "Vírus" é um bom filme? Definitivamente, não. A crítica estava certa: o roteiro é furado, os diálogos são fracos e a atuação de alguns (especialmente Sutherland, que parece estar em um filme totalmente diferente) beira o caricato.

Mas é um filme que merece ser redescoberto? Com certeza!

É uma cápsula do tempo de uma época em que Hollywood ainda investia fortunas em ideias originais (mesmo as mal executadas). É um museu dos incríveis efeitos práticos de Stan Winston, que merecem ser vistos em toda a sua glória grotesca. É um exemplo de como um ótimo elenco pode ser desperdiçado. E, acima de tudo, é um prato cheio para quem gosta de entender os "bastidores do fracasso".

"Vírus" é aquele parente esquisito na reunião de família do cinema. Todo mundo meio que ignora, mas se você puxar uma conversa, descobre umas histórias fascinantes. É um navio fantasma carregado de robôs maneiríssimos, uma ideia de vilão original e um prejuízo milionário. Se você curte uma ficção científica B com cheiro de pipoca murcha e nostalgia de locadora, dá uma chance. Só não espere encontrar uma obra-prima, porque ela naufragou faz tempo.

E aí, ficou com vontade de rever (ou ver pela primeira vez) essa bomba? Me conta nos comentários qual é o seu filme "ruim" favorito, aquele que você defende até a morte!

 

zzx178

zzx179

zzx180

zzx181