Dica de Cinema

Flyboys: ação, romance e sangue no ar

Flyboys: ação, romance e sangue no ar

“Flyboys”: O filme que ninguém esperava, a guerra que ninguém queria e os pilotos que todo mundo esqueceu. Você já teve aquela sensação de começar a ver um filme no meio da tarde, sem compromisso, e de repente já são 2h da manhã e você está procurando fotos reais dos personagens no Google? Pois é. Flyboys é exatamente esse tipo de armadilha cinematográfica — e eu digo isso com o maior respeito do mundo.

Lançado em 2006, dirigido por Tony Bill e estrelado por um James Franco ainda com cara de novinho (bem antes de toda aquela treta dos Oscars, sabe?), o filme chegou nos cinemas com a discrição de uma formiga em dia de chuva. Não fez estrondo nas bilheterias. A crítica torceu o nariz. E ainda assim… aqui estamos nós, quase vinte anos depois, destrinchando cada detalhe dessa obra-prima imperfeita, injustiçada e fascinante. Porque Flyboys tem algo que muito blockbuster produzido em laboratório não tem: alma de aventura de verdade. E olha que o bagulho é baseado em fatos reais — mas calma, que a realidade é ainda mais doida que o roteiro.

Primeiro voo: o que diabos foi o Esquadrão Lafayette?

Antes de falar do filme, bora entender o cenário. Estamos falando de 1916, no meio da Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos, naquela época, estavam com a bunda na cadeira, de braços cruzados, assistindo a Europa pegar fogo. O presidente Woodrow Wilson fazia discursos bonitos sobre neutralidade enquanto franceses, ingleses, alemães e russos se matavam em trincheiras imundas. Mas aí entra um detalhe curioso: muitos americanos não queriam ficar de fora. Não por obrigação — ninguém estava sendo convocado. Era por convicção. Alguns por idealismo, outros por tédio, e uma boa parte simplesmente por não ter mais nada a perder. E foi assim que nasceu o Esquadrão Lafayette (em francês: Escadrille La Fayette), um grupo de pilotos voluntários americanos que voaram pela Força Aérea Francesa antes mesmo dos EUA entrarem oficialmente na guerra. Eles usavam uniformes franceses, davam ordens em francês, e arriscavam o pescoço num negócio que, tecnicamente, nem era problema deles. No total, cerca de 200 americanos serviram no esquadrão. Desses, 68 morreram em combate. A média de tempo de vida de um piloto novato na linha de frente? Cerca de três a seis semanas. É isso mesmo. Você aprendia a voar, atravessava o Canal da Mancha e… tchau, às vezes no mesmo dia.

O filme em si: onde a verdade encontra a licença poética (e dá um abraço nela)

O longa acompanha Blaine Rawlings, interpretado por James Franco, um cowboy do Texas que perde a fazenda da família e decide que a França é um destino melhor do que virar andarilho. Ao lado dele, um bando de desajustados encantadores:

William Jensen (Philip Winchester), um boxeador de Nova York que tem medo de fracassar mais do que de morrer.

Briggs Lowry (Tyler Labine), um riquinho que só sabia jogar pôquer até descobrir que guerra não tem blefe.

Eugene Skinner (Abdul Salis), um mecânico negro que nos EUA era tratado como invisível, mas que na França podia finalmente realizar o sonho de voar — e olha que isso, por si só, já daria um filme à parte.

Do outro lado do campo de aviação, temos o capitão francês Georges Thenault (Jean Reno, sempre impecável) e o americano durão Reed Cassidy (Martin Henderson), um piloto casca-grossa que já viu tanto amigo morrer que parou de aprender nomes novos. E, claro, o romance: Blaine se apaixona por Lucienne (Jennifer Decker), uma francesa linda que cuida de uma criança órfã e mora numa fazenda que parece ter saído de um quadro do Monet. Cenário perfeito? Pois é. Só que a guerra não respeita perfeição.

O que o filme acerta em cheio (e o que erra feio)

Vamos ser sinceros: Flyboys não é Nascido para Matar, nem Apocalypse Now. Ele tem um roteiro previsível, alguns diálogos que parecem saídos de um gibi e um romance que às vezes atrapalha mais do que ajuda. Mas acertar onde dói? Ah, isso ele acerta.

Acertos (e não são poucos)

As cenas de combate aéreo são de tirar o fôlego. Os aviões são reais (foram construídos especialmente para o filme), e a maioria das acrobacias foi feita por pilotos de verdade. Nada de CGI exagerado. Dá pra sentir o vento, o medo, o cheiro de óleo queimado. A diversidade do elenco não é forçada: Eugene Skinner existiu na vida real. O piloto afro-americano Eugene Bullard realmente serviu no Esquadrão Lafayette e depois na Legião Estrangeira. Ele era do Alabama, fugiu do racismo nos EUA e se tornou uma lenda viva. O filme acerta ao mostrá-lo como um dos melhores mecânicos e um piloto nato. A brutalidade da guerra não é romantizada. Personagens morrem de repente, sem discurso de despedida. Amigos explodem no ar enquanto você conversa com eles pelo rádio. O filme não tem medo de mostrar que, lá em cima, não existe justiça — só sorte. Cassidy, o piloto casca-grossa, é uma homenagem direta a vários pilotos reais, especialmente Raoul Lufbery, um ás franco-americano que abateu 17 aviões inimigos e morreu em circunstâncias trágicas (spoiler: tentando consertar a própria metralhadora em pleno voo — loucura total).

Erros e invenções históricas (porque nada é perfeito)

O vilão alemão do filme, o “Águia Negra”, não existiu. Ele é uma colcha de retalhos de vários pilotos alemães, incluindo o lendário Barão Vermelho (Manfred von Richthofen), que jamais teve um duelo final contra um americano do jeito que o filme mostra. O ataque final à base alemã é puro cinema. Os Flyboys reais nunca fizeram algo tão ousado e organizado. A maioria das missões era de reconhecimento e escolta, não de destruir zepelins com um revólver na mão (sim, isso acontece no filme — e é incrível). O romance entre Blaine e Lucienne é totalmente fictício. Nenhum piloto do esquadrão teve um caso documentado daquele jeito — mas convenhamos, que filme de guerra não coloca um romance no meio?

Curiosidades que vão fazer você rever o filme com outros olhos

Os aviões usados na produção foram construídos artesanalmente baseados em modelos reais da Primeira Guerra: Nieuport 17, Sopwith Camel e Fokker Dr.I. Atualmente, a maioria está em museus ou em coleções particulares. Cada um custou mais de US$ 200 mil para ser feito. James Franco quase morreu numa das cenas de voo. Literalmente. Um dos motores falhou durante uma filmagem na Inglaterra, e o piloto de verdade que estava nos comandos teve que fazer um pouso forçado num campo. Franco disse depois que “achou que ia virar estatística”. O roteiro original era muito mais sombrio. Em versões iniciais, Blaine Rawlings morria no final. A produtora MGM vetou a ideia, com medo de que o público saísse deprimido. Ironia: o filme verdadeiro teve um dos pilotos mais famosos do esquadrão, Kiffin Rockwell, que foi o primeiro americano a abater um avião inimigo na guerra — e morreu três meses depois. Eugene Bullard, o piloto negro que inspirou Skinner, sobreviveu à guerra, foi condecorado com 14 medalhas francesas, e quando voltou aos EUA… foi ignorado. Trabalhou como ascensorista no Rockefeller Center. Só na década de 1990, décadas após sua morte, a Força Aérea Americana o reconheceu oficialmente como piloto. É de cair o cu da bunda.

O legado: por que esse filme merece ser redescoberto

Flyboys não é um filme perfeito. Mas ele tem uma qualidade rara hoje em dia: honestidade bruta. Ele não tenta te convencer de que guerra é legal. Não transforma pilotos em super-heróis. Mostra garotos de 20 anos vomitando de medo antes de decolar, escrevendo cartas para mães que nunca vão chegar, e morrendo com o nome de ninguém nos lábios. O filme termina com uma homenagem aos membros reais do Esquadrão Lafayette. E ali, nos últimos segundos, com fotos em preto e branco e nomes cruzando a tela, você percebe: aquilo não foi um filme de ação. Foi um documentário disfarçado de entretenimento. E aí você para. Respira. E pensa: “Caramba, esses moleques realmente fizeram isso. Voaram caixotes de madeira com motor de moto contra metralhadoras alemãs. Sem paraquedas. Sem seguro. Sem fama. Só por um ideal besta e lindo chamado liberdade.” Se isso não é cinema, eu não sei o que é.

Veredito final (com spoiler controlado)

Assista Flyboys. Assista sem compromisso, numa tarde chuvosa, com a mente aberta. Não espere Coração Valente no ar, mas espere se surpreender. E quando acabar, vai ter duas reações possíveis:

“Nossa, que filme bobo, mas gostei.”

“Preciso comprar um livro sobre a Primeira Guerra Mundial imediatamente.”

Qualquer uma das duas tá valendo. Porque no fundo, o que Flyboys faz de melhor é isso: te lembrar que, lá em cima, entre as nuvens e as balas, não existiam democratas ou republicanos, texanos ou nova-iorquinos, ricos ou pobres. Existiam só homens de madeira e aço tentando voltar para casa.

E muitos não voltaram. Mas enquanto houver um filme, uma foto, uma história mal contada num blog qualquer — eles continuam voando.

 

zzx162

zzx163

zzx165

zzx164