Dica de Cinema

Quo Vadis: Leões, Egos e a Maior Loucura de Hollywood

Quo Vadis: Leões, Egos e a Maior Loucura de Hollywood

Sua Alteza, o Fracasso: O Filme Que Quase Afundou Um Império (O de Hollywood, Não o Romano). Você já parou pra pensar que existe um punhado de filmes que não só marcaram época, mas literalmente salvaram empresas inteiras da falência? Pois é. Em 1951, a dona Metro-Goldwyn-Mayer, a majestosa MGM, estava com a corda no pescoço. O lendário Louis B. Mayer, o homem que dizia ser o próprio "rei de Hollywood", tinha acabado de apostar todas as suas fichas numa ideia que muitos achavam suicida:

recriar a Roma Antiga com leões de verdade, milhares de figurantes e um ator britânico interpretando um imperador piromaníaco. O resultado foi Quo Vadis — um épico tão grandioso que esvaziou os cofres do estúdio, mas encheu tanto as salas de cinema que, no fim das contas, a MGM não só sobreviveu como escreveu seu nome na história.

Mas esquece essa história "conto de fadas" de Hollywood por um instante. Esquece a narrativa oficial do estúdio que diz que tudo foram flores. A gestação desse filme foi um inferno. Um vespeiro de egos, demissões, censura velada e acusações de bruxaria política que iam muito além dos cristãos jogados aos leões na tela. A começar pelo diretor original. Antes de Mervyn LeRoy assumir o comando, a batuta estava nas mãos de ninguém menos que John Huston, um sujeito genioso e dono de uma visão bem mais cínica do mundo. Huston queria filmar a perseguição aos cristãos como uma metáfora escancarada da Caça às Bruxas anticomunista que o Macarthismo promovia nos Estados Unidos. Louis B. Mayer, um conservador raiz que tratava o estúdio como quintal de casa, achou aquilo um absurdo e mandou Huston passear. O roteiro foi reescrito às pressas para arrancar qualquer subtexto político mais indigesto .

Aliás, se o espectador moderno olhar pra trás, vai ver que Quo Vadis é uma mentira histórica monumental. Mas é uma mentira deliciosa e perigosamente convincente. O filme fez tanta gente acreditar que Nero incendiou Roma e tocou sua lira enquanto a cidade ardia, mas a realidade dos fatos é bem diferente. Os historiadores mais sérios, incluindo o pessoal que ainda lê Tácito no original, sabem que Nero nem estava em Roma quando o fogo começou em 64 d.C. Ele estava em Anzio. Quando soube da tragédia, voltou correndo, abriu seus jardins para os desabrigados e organizou a ajuda humanitária. A história da "lira" é um boato plantado por inimigos políticos depois de sua morte . Mas o cinema é uma arma de propaganda muito mais poderosa que a pena de um senador romano, e a imagem de Peter Ustinov interpretando um Nero delirante grudou no imaginário coletivo como chiclete no cabelo.

E o elenco? Ah, o elenco foi uma novela mexicana antes mesmo de as câmeras ligarem. Robert Taylor foi escalado para viver o galã Marco Vinício, mas precisou passar por uma transformação bizarra: os produtores acharam que pelos no peito seriam "sensuais demais e desrespeitosos para um filme religioso" e mandaram depilar o homem. Sim, você leu certo . Gregory Peck e Elizabeth Taylor eram os astros previstos na versão de Huston, mas Peck saiu e Elizabeth Taylor foi rebaixada — de protagonista a mera figurante. A diva, que passeava pela Itália enquanto o novo elenco filmava, aceitou aparecer escondida numa cela, como uma cristã anônima. É uma ponta não creditada que hoje vale ouro, mas na época foi um belo dum "cala a boca" do estúdio . E não foi a única que começou anônima ali: Sophia Loren e Bud Spencer, dois colossos do cinema, deram seus primeiros passos como figurantes nesse set. Loren aparece por milésimos de segundo como uma escrava, e Spencer, ainda um brutamontes chamado Carlo Pedersoli, fez figuração como guarda .

Mas o grande roubador de cenas foi, sem sombra de dúvida, Peter Ustinov. Ele deu vida a um Nero histriônico, que trata assassinatos e extermínios em massa como se estivesse escolhendo a playlist para um jantar. A atuação é tão caricata quanto genial, e lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. Mas tem uma história por trás dessa escalação que é puro ouro. Ustinov vinha recusando o papel por meses. Quando a MGM encheu sua paciência, ele topou, mas os executivos acharam que ele era muito jovem para interpretar o imperador. Ustinov respondeu com uma secura britânica impecável: "Nero morreu aos 30 anos. Eu tenho 30 anos". Os produtores, com certeza de queixo caído, pesquisaram o fato histórico, descobriram que ele estava certo e lhe deram o papel .

A produção foi um esbanjamento de recursos que faria o próprio Nero aplaudir. Foram mais de 30 mil figurantes . O guarda-roupa contou com 32 mil trajes e 15 mil sandálias . A grandiosidade, no entanto, quase desabou por conta de detalhes práticos: o calor insuportável na arena fazia os leões se recusarem a sair das jaulas. Para convencer as feras a atuar, a equipe espalhou carne crua pelo cenário. Funcionou — mas a censura achou as cenas dos animais mastigando "violentas demais" e ameaçou dar uma classificação para maiores de 18 anos. A saída da MGM foi editar o filme na faca para não perder a bilheteria familiar . E a lendária Cinecittà, palco dessas filmagens, era um legado do fascismo italiano. O ditador Benito Mussolini mandou construir os estúdios para fazer propaganda do regime, e, ironia suprema, a energia elétrica do local era tão precária que a produção de Quo Vadis precisou usar o gerador de um navio de guerra italiano para manter as câmeras rodando .

O que pouca gente percebe na primeira — ou décima — vez que assiste é como o filme distorce a importância do cristianismo na época. O roteiro mostra os seguidores de Cristo como uma ameaça organizada e imensa ao Império, quase uma força revolucionária. Na prática, os cristãos no ano 64 eram uma seita marginal do judaísmo. Eles não eram perseguidos por causa de sua fé, mas porque Nero precisava de um bode expiatório para os boatos de que ele mesmo havia queimado Roma. As perseguições sistemáticas e em larga escala, com leis específicas do Império, só viriam depois, nos séculos II e III . É uma licença poética que serviu ao melodrama, mas que apagou o contexto histórico verdadeiro.

Outro ponto crucial que sumiu na adaptação: o verdadeiro Nero. Os livros de história, embora não pintem Nero como um santo — ele muito provavelmente mandou matar a mãe, o irmão e a esposa —, mostram que ele não era o monstro caricato do cinema. Ele foi, na verdade, um governante que investiu em obras públicas e que era genuinamente popular entre a população mais pobre. A elite romana o odiava justamente porque suas políticas buscavam agradar as massas, e foram esses nobres ressentidos que construíram a lenda negra de que ele era um louco incendiário. Mas Hollywood não compra sutileza; Hollywood compra vilões que riem enquanto o mundo pega fogo .

No final da história, a aposta valeu a pena. Quo Vadis arrecadou mais de 21 milhões de dólares com uma bilheteria global estrondosa, triplicando seu investimento inicial . Mas a vitória foi agridoce. O filme foi indicado a oito Oscars — incluindo Melhor Filme — e saiu da cerimônia com as mãos vazias. Zero estatuetas . A música do húngaro Miklós Rózsa, que embala o caminhar dos mártires, foi reciclada depois em Ben-Hur, como se a MGM estivesse reaproveitando até os fracassos dourados . E Louis B. Mayer, o chefão que bancou a maluquice, foi demitido logo depois do lançamento. A salvação do estúdio custou sua cabeça .

Quo Vadis não é um documentário; é um espetáculo visual que captura uma fé inabalável num cenário de podridão política. Mas é, acima de tudo, um alerta sobre como a ficção engole a realidade. Toda vez que alguém repete que "Nero incendiou Roma", essa é a vitória póstuma de um roteiro brilhante e de uma atuação magnética sobre a verdade. É a prova de que uma mentira bem contada, embalada por uma trilha sonora épica e um leão faminto, pode ecoar nos cinemas por sete décadas sem que ninguém pare pra perguntar: "Mas será que foi isso mesmo que aconteceu?"

 

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