“O Homem do Tai Chi”: Quando Keanu Reeves resolveu entrar no octógono (e atrás das câmeras). Sabe aquele momento em que você descobre que o cara que desviava de balas em Matrix também manja dos paranauês de direção? Pois é. Keanu Reeves, o próprio — aquele que virou até meme na internet por ser “imortal” e bom demais pra esse mundo — resolveu, em 2013, arregaçar as mangas e mostrar serviço num lugar onde pouca gente esperava: atrás das câmeras.
E não pense que foi meia-boca. O cara estreou na direção com um filme de ação oriental raiz, daqueles que cheiram a suor, sangue e chute na cara. O nome da parada é “O Homem do Tai Chi”, e se você nunca ouviu falar, senta aí que o negócio é mais louco do que parece.
Para começar, vamos matar a charada: não, não é aquele documentário chato de gente se movendo devagarzinho no parque. Esquece a imagem dos aposentados com roupinha de seda. Aqui, o tai chi é uma arma, e das letais. A história acompanha Chen Lin-Hu, um entregador de comida que leva uma vida dupla. De dia, ele rala em Pequim, subindo e descendo escada com marmitex na mão. De noite, ele se transforma num lutador de rinha clandestina. Pois é, o moleque é humilde, mas quando o bagulho aperta… coitado de quem tá na frente.
A grande virada acontece quando Donaka Mark (sim, o Keanu de cabelo pretinho e terno impecável) aparece na vida do nosso herói. Ele é um empresário mala sem alça, milionário, daqueles que enxergam pessoas como peças de xadrez. Donaka oferece um caminhão de dinheiro pra Chen participar de um torneio marcial secreto, luxuoso e brutal. E, claro, o protagonista aceita. Não por maldade — ele precisa grana pra salvar o templo do mestre dele, que tava prestes a virar pó. Só que o buraco é mais embaixo: os combates são ilegais, sujos, usados pra lavar dinheiro sujo de verdade. E agora, além de lutar pela sobrevivência física, Chen vai ter que lutar contra a própria consciência.
“Mestre, o senhor falou que isso era meditação…”
O filme foi o passaporte de Keanu Reeves pra cadeira de diretor — e olha que ele não pegou leve na estreia, viu? Enquanto muito ator famoso começa dirigindo comédia romântica ou drama água com açúcar, o Keanu foi logo pro paredão: filme de luta, multilingue, cheio de coreografia tensa e vilão psicopata . E o melhor: ele mesmo se escalou pro papel de vilão. Tem muita coragem, hein? Ou é loucura. Talvez os dois.
Mas calma, porque a escolha do protagonista é mais significativa ainda. Quem faz o papel do Chen é Tiger Hu Chen. Nome de guerra puro, né? Mas não é invenção de roteirista não. Tiger trabalhou com Keanu nos filmes Matrix Reloaded e Revolutions — primeiro como dublê, depois como um dos capangas do Francês . E mais: durante as filmagens da trilogia, foi o Tiger quem ensinou kung fu pro Keanu . É isso mesmo: o discípulo virou mestre, o mestre virou amigo, e o amigo virou estrela do filme dirigido pelo antigo aluno. Se isso não é uma história digna de Hollywood — dentro da própria Hollywood — eu não sei o que é.
Por dentro da rinha (literalmente)
Agora, bora falar do que interessa: as porradarias. Se você é fã de luta, vai pirar. As cenas de ação foram coordenadas por Yuen Woo-ping, o lendário coreógrafo de “O Tigre e o Dragão” e também da própria trilogia Matrix . O cara é tipo o Pelé da briga coreografada. Ele consegue transformar um golpe simples num balé de destruição. E aqui, não é diferente. A pegada é meio anos 90, sabe? Aquele estilo filme B de ação oriental que você assistia nas locadoras — só que com orçamento maior e câmera mais esperta. E olha que a briga foi real, viu? Durante as gravações, Tiger Chen deslocou o ombro de verdade numa das lutas . Ele mesmo conta que na vida real foi o direito, não o esquerdo como aparece no filme — mas o bagulho doeu igual. Isso dá um nível de realismo que CGI nenhum compra, né? Respeito na hora.
Outro detalhe que pouca gente percebe: a placa do carro que busca o Tiger no filme é N666L4. Quem saca de símbolismo logo liga: N (para “Ninth” ou “Nero”?) e 666… mas a sacada é ainda mais inteligente. O número remete ao quarto círculo do Inferno na “Divina Comédia” de Dante, que é o círculo da Ganância . Sacou? O dono daquele carro é justamente Donaka, o empresário movido a dinheiro e poder. Ou seja, o filme já começa a te chamar de inocente na cara dura, e você nem percebe.
Keanu vilão? Sério isso?
Vamos combinar: a gente tá acostumado a ver o Keanu como o mocinho zen, de fala mansa e olhar perdido. Seja Neo, John Wick ou Ted (o “Excelente!”). Mas eis que ele resolve ser o cara mau. E aí, será que colou? As opiniões são divididas — e isso é o mais legal. Tem quem diga que o Keanu como vilão é canastrão, quase caricato. Tipo aqueles vilões de novela das nove que fazem discurso olhando pro horizonte . Um crítico do Star Tribune soltou essa pérola: “Donaka faz o Neo de Matrix parecer o Jerry Lewis” . A tradução livre: o cara é tão fechado e controlado que chega a ser cômico. Já outros juram que essa frieza robótica é proposital — uma sacada de direção pra mostrar o vazio de um milionário que perdeu a humanidade.
Sinceramente? É daqueles casos que você precisa ver pra decidir. Mas tem um fato incontestável: quando Keanu parte pra luta no clímax do filme, a porrada come solta e ninguém liga mais pra atuação. Aliás, ele mesmo coordenou as brigas finais, e dá pra ver que o John Wick de 2014 — que viria no ano seguinte — já estava sendo ensaiado aqui. Pode considerar “O Homem do Tai Chi” como um aquecimento. Ou um presquê.
Mas o filme é bom ou não?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. No Rotten Tomatoes, o filme tem 71% de aprovação da crítica — o que é bem respeitável pra um filme de pancadaria oriental . Significa que a maioria curtiu, mas tem um monte de crítica ácida no meio. Os elogios vão todos pro mesmo lugar: coreografia afiada, ritmo que não deixa esfriar e uma mensagem moral mais profunda do que parece . Não é só “socar até ganhar”. É sobre perder a alma no caminho pra ganhar dinheiro. Sobre usar uma arte milenar e pacífica pra estourar a cara dos outros. O dilema do protagonista é real: será que vale a pena trocar seus valores por um apartamento bacana e um carrão?
Já as críticas negativas… bem, são as de sempre: roteiro previsível, diálogos clichês, vilão meio caricato . E, convenhamos, isso é verdade. Você não vai encontrar um Cidadão Kane aqui. Não espere reviravoltas surpreendentes. Se você já viu qualquer filme de luta dos anos 80 ou 90, você sabe exatamente o que vai acontecer. O mocinho se corrompe, perde a amizade, quase morre, aprende a lição e volta pras origens. Roteiro quadradinho. Só que tem um detalhe importante: não é isso que torna um filme bom ou ruim. É igual feijoada: você sabe os ingredientes, mas o sabor depende de quem cozinha. E Keanu cozinhou com vontade.
A verdade nua e crua (porque ninguém aqui tá de brincadeira)
Vamos combinar de ser honestos, ok? Diferente daquele papo furado de “tudo é maravilhoso” que você lê por aí, aqui a casa é limpa. O Homem do Tai Chi tem defeitos, e deles grossos.
Primeiro: Keanu como ator vilão é, sim, meio duro. Não adianta romantizar. Ele mesmo já admitiu em entrevistas que não é um camaleão — e tá tudo bem. O cara é carismático do jeito dele. Mas ver ele tentando ser sinistro e manipulador… dá uma certa vergonha alheia em algumas cenas. Parece que ele vai dar a volta e soltar um “Whoa” a qualquer momento .
Segundo: o filme às vezes se leva a sério demais pra um filme de luta. Tem cena que a música dramática aumenta, o close no olho do ator vem, e você pensa: “calma, amigo, é só um soco”. Essa falta de humor ou autocrítica pesa um pouco. Compara com Kill Bill, que é absurdo e assume isso. Aqui, o tom é meio “sou profundo”, sendo que a história é simples.
Terceiro: os efeitos especiais são fracos. Uns CGI de cortar o cabelo . Nada que estrague, mas também nada que impressione.
Mas — e é um mas bem grande — isso não mata o filme. Pelo contrário: parte do charme de “O Homem do Tai Chi” é justamente essa imperfeição. É um filme B com orçamento A. É um diretor estreante brincando de fazer filme de briga com os amigos. E isso transparece de um jeito… sincero, saca?
Curiosidades que vão fazer você rever o filme
Já que você chegou até aqui, merece uns mimos:
40 minutos de luta. Isso mesmo. O filme tem 18 sequências de luta que somam quase meia hora e meia de murro, chute e queda . Quase um terço do filme. Nada de enrolação.
O mestre que não é mestre — O ator que faz o Mestre Yang é um senhor chamado Hai Yu, que na verdade não é lutador profissional, mas sim um ator dramático. E olha que ele convence, hein?
O filme quase foi gravado em 3D — Keanu cogitou, mas recuou porque queria que a ação fosse “limpa” e sem firulas. Fez bem.
Placa de carro e literatura — já falamos da placa N666L4, mas reforço: quem tem essa referência de Dante Alighieri num filme de pancadaria? Genialidade ou pedantismo? Você decide.
Ele foi pensado pro mercado chinês — E fez sucesso por lá. Tanto que ajudou a abrir portas pro Keanu dirigir outros projetos no Oriente (inclusive “John Wick 4” tem influências disso).
Onde é que isso tudo vai parar?
A grande sacada de “O Homem do Tai Chi” é que, no fim das contas, o filme não é sobre vencer o torneio. Não é sobre o vilão cair no chão. É sobre o cara no espelho. É sobre você olhar pra sua conta bancária, olhar pros seus princípios, e se perguntar: até onde eu iria? Qual o preço da sua alma? Num mundo onde todo mundo quer dinheiro fácil, status, Like e aprovação, ver um entregador de comida — um cara invisível — dizer “não” pra uma fortuna porque aquilo vai contra o que ele acredita… é meio que um tapa na nossa cara. Uma vergonha boa, sabe? O filme termica com o herói voltando ao templo, machucado, sem um puto no bolso, mas de cabeça erguida. E o mestre, aquele velho chato que vive falando em “Chi” e controle, dá um sorriso discreto. Missão cumprida.
Vale a pena assistir em 2025?
Com toda a certeza, sim. Mas com a mentalidade certa. Não vá esperando um John Wick ou O Tigre e o Dragão. Não vá esperando roteiro digno de Oscar. Vá pela pancadaria, pela nostalgia dos filmes de luta raiz, pela curiosidade de ver um dos atores mais queridos do mundo tentando algo novo. E vá pela humildade: Keanu fez esse filme pra homenagear um amigo. Pagou do bolso? Não. Mas colocou o nome na linha, dirigiu, brigou, atuou de vilão e ainda deu palco pra um lutador que ninguém conhecia.
Isso, por si só, já é mais digno que muito blockbuster de 500 milhões. E tem mais: hoje você encontra o filme fácil na Amazon Prime Video . Dá pra ver no sofá, com uma pizza e um amigo pra comentar. Não precisa ser culto. Não precisa entender de tai chi. Só precisa gostar de ver gente boa se estranhando na porrada e, no fim, aprendendo uma lição. Ah, e se sobrar um tempinho depois… tenta fazer aquela respiração do Mestre Yang. Quem sabe você não encontra seu próprio Chi antes de voltar pra segunda-feira?



