Fatos Desconhecidos

Juro de 435% ao ano: como o Brasil chegou ao endividamento recorde

Juro de 435% ao ano: como o Brasil chegou ao endividamento recorde

2026 - Oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas — e o Brasil nunca viu isso. Se você sente que o dinheiro nunca fecha no fim do mês, não é impressão sua: você está, literalmente, na maioria. Em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras declararam ter alguma dívida em aberto — cartão de crédito, cheque especial, consignado, carnê de loja. É o pior número desde que a CNC (Confederação Nacional do Comércio) começou a medir isso, em 2010.

E, pra completar o quadro, em abril o índice já tinha subido de novo, para 80,9%, batendo recorde pelo quarto mês consecutivo.

Não é exagero dizer que o brasileiro médio vive hoje numa corda bamba financeira. A questão é entender por que isso está acontecendo — e aí a resposta não é simples, nem unilateral.

O cartão de crédito é o vilão número um (e não é nem perto)

Entre os tipos de dívida, o cartão de crédito lidera com folga: está presente em 84,9% das famílias endividadas, segundo a mesma pesquisa da CNC, a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor). Atrás dele vêm os crediários de loja (16%) e os empréstimos pessoais (12,6%) — números bem menores, o que mostra como o cartão se tornou praticamente sinônimo de dívida no Brasil.

Tem uma razão estrutural pra isso. O cartão foi parar em tudo: app de comida, de mercado, de transporte, assinatura de streaming. Virou o método de pagamento padrão da vida digital, o que facilita — e muito — cair no parcelamento sem perceber o tamanho da bola de neve. E quando a fatura não é paga inteira, entra o rotativo, que é onde o problema realmente explode: o juro médio cobrado pelos bancos nessa modalidade estava em 435,9% ao ano em fevereiro de 2026, segundo o Banco Central. Sim, você leu certo. Mais de 400% ao ano. Desde 2024 existe uma regra que limita o crescimento dessa dívida a, no máximo, o dobro do valor original — uma tentativa de evitar que o rotativo vire uma armadilha sem fim. Mas, na prática, muita gente já entra endividada e sai ainda mais endividada, só que num ritmo um pouco mais lento.

Quem não paga, e por quê

A inadimplência também bateu recorde: 29,6% das famílias brasileiras tinham dívidas em atraso em março, e 12,3% afirmaram simplesmente não ter como pagar o que devem. Isso significa que o comprometimento da renda familiar com dívidas já consome quase um terço do que entra todo mês — e isso sem contar as despesas básicas, tipo água, luz e mercado, que sozinhas tomam outra fatia enorme do orçamento. Olhando o quadro num recorte mais amplo, a Serasa divulgou em março de 2026 um levantamento de dez anos do chamado Mapa da Inadimplência: o número de brasileiros com o nome negativado saltou de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em 2026 — um crescimento de 38,1% em uma década. Isso representa quase metade da população adulta do país com restrição no CPF. E o detalhe mais duro: 42% desses inadimplentes de hoje já estavam negativados há dez anos. Ou seja, pra uma boa parte dos brasileiros, dívida não é um imprevisto passageiro — é um estado permanente.

O perfil de quem deve também mudou. As mulheres já são maioria entre os inadimplentes (50,5%), invertendo o quadro de 2016. E os idosos com mais de 60 anos, que respondiam por pouco mais de 12% dos inadimplentes em 2016, hoje já chegam a quase 20% — em parte porque estão mais presentes no ambiente digital, e por consequência mais expostos a golpes financeiros.

Por que isso está acontecendo: juros, inflação e crédito fácil

A explicação oficial reúne três ingredientes principais. O primeiro é estrutural: o sistema financeiro ampliou bastante a oferta de crédito desde a pandemia, com a bancarização em massa da população e a explosão das fintechs — o Nubank, por exemplo, multiplicou sua base de clientes e sua receita de forma vertiginosa nos últimos anos. Mais gente com conta em banco e cartão de crédito significa, automaticamente, mais gente exposta ao endividamento. O segundo ingrediente é a taxa de juros. A Selic permanece em níveis bastante restritivos, o que torna qualquer linha de crédito mais cara — e cria um ambiente em que, mesmo quando os juros caem um pouco, o efeito sobre o bolso das famílias demora a aparecer.

O terceiro é mais recente e tem ganhado peso nas análises: a expansão das apostas online, as famosas "bets". Levantamentos como o Datafolha mostram que cerca de 27% dos brasileiros usam o crédito rotativo com alguma frequência, e há relatos cada vez mais comuns de pessoas que comprometeram economias, venderam bens e tomaram empréstimos sucessivos para sustentar o vício em apostas — empilhando dívida sobre dívida até a bola de neve virar avalanche. Soma-se a isso um fator pouco discutido, mas citado por economistas da própria CNC: a leniência dos bancos na concessão de crédito. O rotativo do cartão funciona, na prática, como uma linha pré-aprovada e de fácil acesso — o que facilita o endividamento de quem já está em situação financeira fragilizada, incluindo beneficiários de programas sociais que conseguem aprovação de empréstimo em múltiplas instituições ao mesmo tempo.

E o Bolsa Família entra nessa conta?

Aqui o assunto fica mais espinhoso — e merece ser tratado com cuidado, porque envolve tanto dados concretos quanto um debate técnico real entre economistas, sem consenso fechado.

Primeiro, os números. Em abril de 2026, o Bolsa Família atendeu cerca de 18,9 milhões de famílias, totalizando algo perto de 50 milhões de pessoas — patamar que se manteve estável nos meses seguintes. O valor médio do benefício gira em torno de R$ 678, considerando os adicionais por criança, gestante e adolescente. Não é uma quantia alta: é, de fato, um valor de subsistência, insuficiente para sustentar uma família sozinho na maioria dos casos.

Agora, a parte controversa: existe ou não um efeito do programa sobre a disposição das pessoas de procurar emprego? Aqui as pesquisas divergem, e vale apresentar os dois lados com honestidade.

De um lado, um estudo do pesquisador Daniel Duque, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), comparou famílias que se tornaram elegíveis ao Bolsa Família em 2023 com um grupo parecido que não entrou no programa. O resultado: queda de 11% na taxa de participação no mercado de trabalho entre os beneficiários, com a frase que ficou conhecida resumindo o achado — "para cada duas famílias que recebem o Bolsa Família, uma sai da força de trabalho". O efeito apareceu concentrado em homens jovens, de 14 a 30 anos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, tanto na busca por trabalho quanto na formalização. Segundo Duque, o motivo é basicamente lógica econômica: o benefício médio do programa hoje equivale a cerca de 35% da renda mediana do trabalho no Brasil — bem mais que os 15% que representava até 2019, quando o programa ainda não tinha sido tão ampliado. Com esse peso maior, para uma parte dos beneficiários a conta de trocar o benefício garantido por um emprego incerto, muitas vezes informal e mal remunerado, simplesmente não fecha.

Do outro lado, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) publicou um estudo com conclusão bem diferente: usando dados em painel da PNAD Contínua, os pesquisadores concluíram que o valor do Bolsa Família não representa um desincentivo generalizado ao trabalho, e que o aumento do benefício não fez trabalhadores migrarem de empregos formais para informais. Outros levantamentos acadêmicos anteriores, olhando o programa em fases anteriores, também não encontraram efeito relevante sobre a oferta de trabalho — e alguns até identificaram aumento da participação feminina no mercado.

A diferença entre os estudos parece estar, em parte, no momento analisado: o Bolsa Família mudou de tamanho e de peso na renda das famílias nos últimos anos, então um efeito que não existia (ou era pequeno) até 2019 pode ter se tornado mais relevante depois da expansão do programa pós-pandemia. É um debate aberto, não uma questão fechada — e qualquer afirmação categórica de um lado ou do outro, hoje, está simplificando uma discussão que os próprios especialistas ainda não resolveram entre si.

O que dá pra dizer com segurança é que o Bolsa Família é, sim, citado por economistas como um fator relevante na conjuntura, mas não como vilão isolado nem como redentor isolado. Ele convive — e às vezes se mistura — com o mesmo sistema de crédito fácil e caro que afeta o resto da população. Inclusive, há relatos de beneficiários que usam o próprio Bolsa Família como única fonte de renda comprovada para conseguir empréstimos em múltiplas instituições financeiras, entrando no mesmo ciclo de dívida e juro alto que castiga o restante do país.

O quadro geral: uma economia que não fecha a conta

Reunindo as peças, o retrato é de um país onde o crédito virou válvula de escape para despesas básicas — porque o salário não acompanha o custo de vida — e onde os juros altos transformam qualquer deslize num buraco financeiro difícil de sair. A Selic restritiva pesa nos dois lados da equação: encarece o crédito para quem já está endividado e reduz a velocidade com que a economia gera empregos formais bem remunerados, que poderiam tirar parte da população dessa dependência de crédito e de benefícios sociais.

Não existe solução única aqui, e seria ingenuidade — ou desonestidade — apontar um só culpado. Tem juro alto, tem inflação que corrói o salário, tem cartão de crédito espalhado em todo aplicativo de consumo, tem bancos liberando crédito sem muito critério, tem aposta online crescendo sem freio regulatório efetivo, e tem, sim, um debate real e não resolvido sobre como o desenho de programas sociais interage com a decisão das pessoas de buscar ou não um emprego formal. O que fica claro é que o endividamento parou de ser exceção e virou regra. E, enquanto os juros continuarem nesse patamar e o crédito continuar tão fácil de pegar e tão difícil de pagar, dificilmente esse número vai parar de bater recorde.