2026 - O ministro votou para decidir se ele próprio podia ser investigado. Em algum momento daquela tarde, o ministro pediu a palavra e votou. Não há nada de extraordinário em um ministro do Supremo votar — é literalmente o trabalho. O extraordinário é que o processo em julgamento era sobre ele. Depois de seis horas, o plenário só conseguiu empurrar o problema para daqui a 90 dias.
Na terça-feira, 15 de setembro de 2026, o Supremo Tribunal Federal se reuniu em sessão extraordinária para analisar o relatório da Polícia Federal sobre as mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, o controlador do Banco Master que está preso. O que saiu dali não foi uma resposta. Foi um espetáculo de acusações cruzadas, impedimentos, pedidos de vista e um placar de 4 a 3 que adiou qualquer decisão sobre o mérito. O presidente Edson Fachin interrompeu a sessão mais de uma vez. Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques se declararam suspeito e impedido. Gilmar Mendes e André Mendonça trocaram farpas. Flávio Dino pediu vista. E Alexandre de Moraes, o alvo principal do relatório, votou. Votou sobre o próprio caso.
As mensagens que não sumiram

O relatório da PF, que André Mendonça tirou do sigilo, lista 52 mensagens atribuídas a um número usado por Moraes. Em novembro de 2025, dois dias antes de ser preso no aeroporto de Guarulhos enquanto tentava embarcar em um jato particular, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em outra troca, questionou se dava para “reverter” a situação com o procurador-geral Paulo Gonet ou com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.” Vorcaro pedia proteção. Pedia intervenção. E o relatório da PF aponta que o diálogo não foi isolado. Houve encontros presenciais. Houve proximidade.
Dois cartões de R$ 300 mil que ninguém usou
Em 2 de outubro de 2025, semanas antes de Vorcaro ser preso em Guarulhos, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, procurou o banqueiro direto no WhatsApp para saber com quem tratar da emissão de cartões de crédito para os filhos do ministro. Vorcaro passou o contato de Adriana Solano, então superintendente-executiva comercial do Master. Horas depois, a executiva voltou a ele para confirmar se podia autorizar. Resposta do dono do banco: "Ok". Saíram dois cartões com limite de R$ 300 mil cada, em nome de Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, ambos advogados na banca da mãe. O escritório confirmou a emissão ao Estadão e afirmou que os cartões jamais foram usados por qualquer advogado ou pessoa da casa.
Provavelmente é verdade. E é quase irrelevante. O ponto não é o consumo — é que um banco em processo avançado de implosão estava liberando R$ 600 mil em limite para os filhos de um ministro do Supremo, no mesmo período em que pagava R$ 3 milhões por mês ao escritório da mãe deles e mandava mensagens perguntando se dava para segurar a Polícia Federal. Cartão não precisa ser usado para significar alguma coisa.
O contrato de R$ 131 milhões
O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, assinou contrato com o Banco Master prevendo R$ 131 milhões brutos — 36 parcelas de R$ 3,6 milhões. O valor líquido ficaria em cerca de R$ 108 milhões. A Receita Federal registrou que o escritório declarou R$ 80,2 milhões recebidos antes da liquidação do banco. Metadados do arquivo indicam que uma versão do contrato foi aberta e editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O contrato falava em consultoria estratégica envolvendo procedimentos na Polícia Federal, no Banco Central, na Receita e no Cade. Não havia previsão de atuação no STF, segundo o escritório. Ainda assim, o ministro revisou o documento.
A conta: R$ 52 bilhões
Enquanto o Supremo discutia regimento interno, o buraco seguia lá. O conglomerado do Master — junto com Will Bank e Banco Pleno — respondia por menos de 0,6% dos ativos do sistema financeiro nacional e produziu o maior rombo da história do Fundo Garantidor de Créditos: R$ 51,8 bilhões. Para calibrar: é 58% maior que o socorro ao Banco Nacional em 1995, que corrigido pela inflação dá R$ 32,8 bilhões. É mais que o lucro líquido recorrente anual do Itaú. Até o fim de março, o fundo já havia desembolsado R$ 39,2 bilhões só com credores do Master. O FGC é privado, sustentado pelos próprios bancos. O que não significa que a conta suma — significa que ela entra no custo do sistema e volta, diluída, na tarifa, no spread, no crédito de todo mundo.

Parte do prejuízo tem endereço mais cruel. Dezoito regimes próprios de previdência de estados e municípios aplicaram R$ 1,867 bilhão em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. O Rioprevidência sozinho levou R$ 970 milhões — quase metade do total. O Amprev, do Amapá, R$ 400 milhões. O regime de Maceió, R$ 97 milhões. Isso é aposentadoria de professor, guarda municipal e enfermeira comprando papel de um banco que oferecia CDB a taxas que nenhum banco saudável precisa oferecer.
E há o BRB, banco estatal do Distrito Federal. A perícia da PF calcula em R$ 17,5 bilhões a fraude nas operações com o Master — carteiras montadas com documentos falsos em produção massiva, empresa de fachada, operações sem lastro. O detalhe que mais diz sobre a natureza da coisa: das cerca de 25 operações aprovadas pela diretoria, 21 foram feitas no valor exato do teto de R$ 750 milhões — o limite até o qual a diretoria não precisava pedir autorização ao conselho de administração. Vinte e uma vezes raspando o teto não é coincidência estatística. É desenho.
Mayfair, Manhattan e a noite das astronautas
A hospitalidade de Vorcaro já foi tratada pela imprensa como fofoca de colunismo social. A PF passou a tratá-la como possível prova de corrupção e tráfico de influência, e há motivo. Abril de 2024, Londres: o Banco Master financiou o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado num hotel de luxo e estrelado por Alexandre de Moraes. Registros no celular do banqueiro apontam US$ 640,8 mil — cerca de R$ 3,2 milhões — gastos numa degustação no clube George, em Mayfair. Um e-mail da época discrimina os custos: 526,2 mil euros para artistas, performances e equipe de gerenciamento; mais 109,2 mil euros em taxas.
Maio de 2024, Nova York: pelo menos R$ 11,9 milhões em eventos para entreter autoridades brasileiras que estavam na cidade. Degustação de uísques e charutos no The Carnegie Club, um jantar e uma festa na suíte presidencial de um hotel que ficou conhecida entre os convidados como "a noite das astronautas" — homens recebidos por mulheres russas e ucranianas em malhas prateadas e adereços de vidro na cabeça simulando trajes espaciais. Cada convidado saiu com uma garrafa de Macallan 25 anos, avaliada em R$ 30 mil, e uma caixa de charutos. A garrafa de brinde custava mais do que um brasileiro no salário mínimo de R$ 1.621 ganha em um ano inteiro de trabalho.

Segundo a apuração de O Globo, estavam ali o então governador do Rio, Cláudio Castro, o senador Ciro Nogueira e os deputados Hugo Motta, Marcos Pereira, Isnaldo Bulhões e Doutor Luizinho. Moraes não aparece entre os nomes dessa noite — e vale registrar isso com todas as letras, porque a confusão entre as duas listas é o tipo de atalho que transforma um caso documentado em bagunça.
Há mais no acervo: uma festa de Halloween na Madame Satã, em São Paulo, em outubro de 2023, que varou a noite; encontros em uma embarcação de alto padrão em Angra dos Reis, onde o comandante do barco contou à PF que as mulheres eram levadas por uma diretora de operações de uma empresa de aviação executiva ligada ao banqueiro; menções a suspeita de uso de drogas. Em alguns eventos, celulares eram recolhidos na entrada. Fábio Faria, segundo o relatório, participava da seleção de convidados; procurado, não comentou.
Enquanto isso, o salário mínimo gira em torno de R$ 1.700. O trabalhador que erra uma vírgula no Imposto de Renda sabe o que acontece. O mesmo Estado que aperta o cinto de quem ganha pouco continua sendo o mesmo que, nas investigações, aparece frequentando degustações de uísque de dezenas de milhares de reais a garrafa, jantares exclusivos e festas em que a presença de mulheres — inclusive estrangeiras — era parte do “business”, nas palavras do próprio Vorcaro em mensagens apreendidas. Relatórios da PF e depoimentos falam de eventos em Londres, Nova York, Trancoso e São Paulo. Há menção a charutos, uísques caríssimos e acompanhantes. Há registro de autoridades de vários poderes presentes em alguns desses encontros. Ninguém ainda foi condenado por isso. Mas o material existe.
A defesa — e a parte incômoda dela

Moraes não ficou calado. Na véspera da sessão, entregou a Fachin uma manifestação de 44 páginas dividida em 121 tópicos. O argumento central é factual e forte: ele nunca julgou processo algum do Banco Master ou de Daniel Vorcaro — não existe sentença, decisão ou ato de ofício seu em relação a qualquer dos dois, antes, durante ou depois do contrato. O contrato da mulher é, nas palavras dele, "legalmente existente"; quando foi firmado, em janeiro de 2024, não havia investigação criminal em curso contra o banco. Mulher e filhos são advogados e têm direito de exercer a profissão. E o relatório da PF, ele lembra, não apontou infração penal nenhuma da parte dele.
Depois, parte para o ataque. Acusa Mendonça de obstrução de Justiça, de determinar investigação ilegal, de direcionar a apuração e de produzir uma farsa com objetivo político-eleitoral. Fala em vingança. Uma petição sobre suposto abuso de autoridade de Mendonça está pautada para 23 de setembro — ou seja, o relator do caso que pode investigar Moraes será julgado por provocação de Moraes oito dias depois.
E aqui vem a parte desconfortável para quem já escolheu de que lado torcer: Moraes não inventou o calendário. A PF entregou as 218 páginas em 27 de agosto. O sigilo caiu em 1º de setembro. O julgamento foi marcado para 15 de setembro. A eleição geral é em outubro. Quem derrubou o sigilo foi um ministro indicado por Jair Bolsonaro, que está sendo processado pelo investigado e que, no despacho, nem citou Moraes nominalmente. Nada disso torna as mensagens falsas, o contrato menor ou os metadados menos reais. Mas fingir que a data é neutra é ingenuidade — ou má-fé. O que a defesa não faz, e essa é a lacuna mais barulhenta das 44 páginas: ela não menciona as edições que a perícia rastreou no contrato. Chama o laudo de conjectura falsa e passa adiante. O escritório, por sua vez, já havia confirmado que as edições existiram. As duas versões saíram do mesmo endereço e não conversam entre si.
A sessão que se transformou em trincheira
Na sessão do dia 15, os ministros discutiram se os processos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam ser julgados juntos ou separados. Moraes, Zanin e Gilmar Mendes defenderam a junção. Fachin, Mendonça, Fux e Cármen Lúcia votaram pela separação. Dino pediu vista. O mérito — se há elementos para abrir investigação formal contra um ministro da Corte — nem chegou a ser debatido de verdade. Ministros falaram em defesa da democracia, em julgamento de fatos e não de pessoas. O público que acompanhava pelas redes e pelas TVs ouviu outra coisa: uma instituição que se protege a si mesma enquanto o país assiste a um dos maiores escândalos financeiros da história recente.
Em qualquer democracia funcional, a proximidade documentada entre um juiz e um banqueiro investigado por fraude bilionária, combinada com contratos milionários para a família e pedidos de intervenção em órgãos de investigação, geraria pelo menos um afastamento preventivo e uma apuração independente. No Brasil, o próprio interessado votou e o caso foi empurrado para daqui a três meses.
O que sobra para quem levanta às cinco da manhã

Fora do plenário, a temperatura é outra. Até 8 de setembro, presidentes de 17 das 27 seccionais da OAB já haviam pedido a investigação de Moraes. No dia 9, a OAB-DF abriu procedimento ético-disciplinar contra o escritório da família e contra o advogado Ciro Soares, apontado no relatório como intermediário entre Vorcaro e a PGR. Soares diz que recebe a notícia com tranquilidade e que não há irregularidade em sua atuação. O brasileiro que acompanhou a sessão pela TV ou pelo celular não viu nada disso. Viu seis horas de discussão sobre se dois processos devem tramitar no mesmo envelope. Viu ministros se chamando de leviano e desfaçado. Viu um deles votar sobre o próprio caso e outro pedir vista quando a conta não fechou.
Esse mesmo brasileiro não tem limite de R$ 300 mil no cartão, não tem banca que fatura R$ 3 milhões por mês, não sai de festa com Macallan 25 debaixo do braço. Ele tem holerite com desconto na fonte, malha fina por erro de digitação e uma previdência municipal que talvez tenha comprado letra financeira do Master em 2024. A assimetria não é sobre luxo. É sobre velocidade: ele responde em 30 dias, a Corte respondeu em 90. Nenhuma democracia resolveu direito a pergunta de quem julga quem julga — o Brasil só descobriu, nesta terça-feira, quanto tempo essa pergunta aguenta ficar pendurada. Seis horas de sessão, um voto não computado, noventa dias de prazo. E o relógio só começa a correr quando alguém publicar a ata.
A sessão de 15 de setembro não inventou a crise. Só escancarou o tamanho do abismo. Um ministro votando sobre a própria investigação. Uma Corte dividida em grupos. Um escândalo que envolve ministros, diretor da PF, contratos familiares e um rombo que o contribuinte vai pagar, direta ou indiretamente, por anos. A paciência tem limite. A vergonha também. E o que o mundo vê, quando olha para o Brasil nesses dias, não precisa de tradução.