Quem mata no Brasil tem mais de 90% de chance de escapar

Quem mata no Brasil tem mais de 90% de chance de escapar

Impunidade S.A.: Por Que Mais de 90% dos Assassinos no Brasil Ficam Soltos. Tem uma estatística que deveria parar o Brasil inteiro, colocar todo mundo na rua, dominar todos os noticiários. Mas não domina. Virou paisagem, parte do cenário, mais um dado trágico que a gente lê no celular entre um scroll e outro e esquece antes de chegar ao fim do parágrafo. Essa estatística é a seguinte: no Brasil, de cada cem pessoas assassinadas, os responsáveis por mais de noventa mortes jamais são descobertos, julgados ou punidos.

Noventa e dois, para ser mais preciso, segundo estimativas da própria Associação Brasileira de Criminalística. Você leu certo. Mais de 90% dos assassinos brasileiros andam soltos, livres, respirando o mesmo ar, usando os mesmos mercados, talvez morando na mesma rua que a família da vítima. E o sistema — esse sistema enorme, caro, cheio de delegacias, tribunais, promotores e juízes — simplesmente engole o caso, cospe um número de protocolo e segue em frente como se não tivesse acontecido nada. É sobre isso que a gente precisa conversar. Com calma, com profundidade, sem eufemismo e sem o verniz de quem quer suavizar uma realidade que não tem nada de suave.

Quando a Vida Virou Estatística e a Morte Virou Rotina

Em 2011, o Brasil registrou 52.198 homicídios. Cinquenta e dois mil, cento e noventa e oito pessoas. Seres humanos com nome, rosto, família, sonho, defeito, história. O Mapa da Violência 2013, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latinoamericanos, colocou esse número em perspectiva de um jeito que corta o fôlego: de 2008 a 2011, o Brasil acumulou cerca de 206 mil mortes violentas. Quase o mesmo número de vítimas dos 62 maiores conflitos armados do planeta nesse mesmo período. Sessenta e dois guerras. O Brasil, oficialmente, não estava em guerra com ninguém. Mas os números diziam outra coisa.

Pra entender a dimensão disso, pense assim: Hiroshima. A bomba atômica que os Estados Unidos jogaram sobre a cidade japonesa em 1945 matou entre 70 mil e 80 mil pessoas imediatamente. O Brasil, em pouco mais de um ano e meio de "paz", supera esse número. Todo ano. Com consistência assustadora, como se houvesse uma quota a cumprir. ME o que acontece com toda essa morte? A maioria some. Não no sentido literal — os corpos existem, os laudos existem, as certidões de óbito existem. Mas a investigação, a responsabilização, a justiça? Essas somem de verdade. Evaporam num sistema que foi construído, ao longo de décadas, para ser lento demais, mal equipado demais e sobrecarregado demais para dar conta da carnificina que acontece todo dia nas ruas desse país.

Fabrício Krettli: A Porta de Casa Como Lugar Mais Perigoso do Mundo

Fabrício Krettli tinha 22 anos e queria ser mestre confeiteiro. Estudava gastronomia, tinha namorada, tinha amigos, tinha os pais orgulhosos. Na noite de 11 de dezembro de 2012, ele chegou em casa às 22h30, na Zona Norte de São Paulo. Um homem anunciou um assalto. Os amigos que estavam com Fabrício levantaram as mãos. Disseram "pode levar". O assaltante atirou assim mesmo. O primeiro tiro acertou Fabrício enquanto ele ainda estava de pé. O segundo veio enquanto ele já estava caindo. Aí o atirador foi embora correndo. Na porta de casa. Com os amigos do lado. Sem resistência. Sem provocação.

O que veio depois foi, de várias formas, quase tão brutal quanto o próprio crime. Os amigos de Fabrício foram até a polícia. Levaram informações sobre possíveis câmeras de segurança nas redondezas, sobre movimentações suspeitas, sobre tudo que conseguiram reunir. A namorada dele apontou um suspeito. E a resposta da polícia foi a que esses jovens ouviram repetidamente: "ninguém tem prova de nada". Mas as provas que eles levaram não foram verificadas. As câmeras não foram checadas. O suspeito não foi investigado com a seriedade que o caso exigia.

Os pais de Fabrício — Francisco e Maria Krettli — não aguentaram. Tiveram medo. Fugiram de São Paulo, deixaram para trás a casa, o salão de beleza, a pizzaria, tudo que construíram ao longo de uma vida inteira com a ajuda do filho. Foram para o interior da Bahia tentar recomeçar com o peso de uma perda sem resposta. "A sensação de abandono, de estar sozinho no mundo, de não ter ninguém por você", disse Francisco. Maria resumiu com uma imagem que dói: "É como se você fosse roubada. Eu fui roubada, tiraram de mim o meu filho. Não sei por quê." Esse "não sei por quê" é o símbolo de uma nação que perdeu a capacidade de investigar os próprios crimes. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, quando questionada, informou em nota que 16 pessoas foram ouvidas, que as investigações estavam "avançadas" e que um suspeito havia sido ouvido. Avançadas. A palavra escolhida foi "avançadas". Como se "avançado" fosse sinônimo de "concluído", de "justo", de "suficiente para uma família que fugiu do Estado natal com medo de morrer".

A Cena do Crime: O Espetáculo que Destrói as Provas

Para entender por que a impunidade é tão estrutural no Brasil, é preciso entender o que acontece nos primeiros minutos depois de um crime. Investigadores do mundo inteiro repetem como um mantra: as primeiras horas são sagradas. A cena do crime fala. Ela tem uma linguagem própria feita de cápsulas de bala, posição de corpos, manchas de sangue, impressões digitais, rastros de pé, fios de cabelo, pedaços de tecido. Cada detalhe é um capítulo de uma história que os peritos treinados sabem ler. Mas só sabem ler se ninguém tiver rasgado as páginas antes deles chegarem. No Brasil, as páginas são rasgadas rotineiramente. E às vezes com câmera na mão.

O Jornal da Globo acompanhou uma noite de trabalho policial na periferia de Natal, no Rio Grande do Norte. Numa cidade com mais de um milhão de habitantes, apenas duas equipes, com oito policiais cada, trabalhavam à noite. Dezesseis pessoas para uma metrópole inteira. Antes das 23h, já havia três corpos em três bairros diferentes. Um dos homens tinha sido executado com mais de dez tiros. Quando os investigadores chegaram à cena, depararam com um problema imediato e vergonhoso: não tinham fita para isolar o local. O soldado Anderson Maia admitiu que a fita de isolamento é comprada do próprio bolso. "A gente não recebe, não. Tem que ser comprada pela gente mesmo, com o meu dinheiro", disse ele. O Estado, responsável pela segurança pública, não fornece nem a fita de plástico amarelo que é o primeiro passo para preservar uma cena de crime. Literalmente o item mais básico, mais barato, mais elementar de qualquer investigação policial, e o policial compra com o salário dele.

O resultado dessa falta de estrutura foi imediato e devastador. Sem isolamento adequado, mais de cem pessoas se aglomeraram do lado de fora e dezenas entraram na área onde o corpo estava, pisando nas provas, deslocando evidências, contaminando tudo. E o pior personagem dessa história apareceu no meio da confusão: um repórter de televisão local, de terno, passeando em volta do cadáver como se estivesse numa visita guiada. Ele e o cinegrafista que o acompanhava caminharam pela calçada de onde os tiros foram disparados. O repórter chegou a marcar a posição das cápsulas de bala com pedras de cal para facilitar o trabalho da câmera. Ninguém o impediu. Nenhum policial disse nada. A cena do crime virou palco de televisão.

Quando a perita criminal Ana Patrícia Dantas finalmente chegou — a última a entrar na área — o que ela encontrou era uma bagunça irreversível. A resposta que ela deu ao repórter é um dos retratos mais honestos do sistema: "Sinceramente, acho que não. Você encontra o local com uma multidão de gente em cima. Como é que você vai confiar na prova que você encontrou?" Uma perita criminal, em serviço, dizendo abertamente que o trabalho dela foi inviabilizado antes mesmo de começar. Não por falta de competência, mas por falta de estrutura, de protocolo, de respeito pela seriedade do que aquilo representava.

Os Números que o Brasil Finge Não Enxergar

Nos Estados Unidos, a taxa de solução de homicídios é de aproximadamente 65%. No Reino Unido, chega a 90%. No Brasil, segundo estimativas da Associação Brasileira de Criminalística e de especialistas em segurança pública, a taxa de punição dos assassinos fica entre 5% e 8%. Não é taxa de solução — é taxa de punição, que é ainda mais rigorosa. Significa que, de cem assassinatos cometidos no Brasil, apenas cinco a oito terminam com o responsável condenado. Os outros 92, no mínimo, ficam pelo caminho: casos arquivados por falta de provas, inquéritos que dormem nas gavetas das delegacias, processos que prescrevem antes do julgamento, suspeitos soltos por nulidades processuais, réus que nunca são localizados. Essa diferença em relação a países como Estados Unidos e Reino Unido não é acidental. Ela é o produto de décadas de subinvestimento na segurança pública, de delegacias sucateadas, de peritos mal remunerados, de investigadores sobrecarregados, de um sistema judiciário lento e de uma cultura institucional que nunca priorizou a resolução de crimes contra as classes mais pobres e periféricas. Porque vale dizer: a impunidade no Brasil tem endereço. Ela mora nas periferias, nas favelas, nos bairros onde as câmeras de segurança são raras e as testemunhas têm medo de falar.

Testemunhas com Medo: O Silêncio que Protege os Assassinos

Thúlio Pinheiro tinha 20 anos e foi executado por engano. Havia testemunhas. Mas as testemunhas têm medo. Mário Gabardo, também 20 anos, foi morto em plena rua movimentada por um homem que nem se deu ao trabalho de esconder o rosto — uma demonstração arrogante de quem sabe que provavelmente não será pego. Yasmin Stefani Silva Santos tinha dois anos e sete meses quando o táxi em que estava com a mãe foi fuzilado à luz do dia, numa das cidades mais violentas do país.

Em todos esses casos, o padrão se repete: há testemunhos, há cenas abertas, há movimentação de gente — e ainda assim a investigação não avança. Por quê? Parte da resposta está no medo. No Brasil, ser testemunha de um crime é, em muitas situações, uma sentença de morte potencial. O país não tem um programa de proteção a testemunhas robusto e acessível. O que existe é insuficiente, burocrático e pouco conhecido pela população. Quem viu algo e fala corre o risco de virar o próximo. Então a opção racional, para quem vive em comunidades dominadas por grupos armados, é calar. O silêncio não é conivência — é sobrevivência. Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública, descreveu o ciclo com precisão: "As provas materiais desaparecem. Todo mundo passeia no local do crime. As testemunhas não são entrevistadas corretamente nem são identificadas muitas vezes. Isso faz com que cada vez mais você não consiga a condenação do criminoso." É um ciclo que se autoalimenta. A falta de investigação gera impunidade, a impunidade gera mais crime, mais crime gera mais corpos, mais corpos geram mais casos sem solução, e por aí vai, infinitamente, enquanto as famílias ficam de lado assistindo a tudo sem entender e sem receber resposta.

Delegacias que Fecham à Noite: A Piada Que Ninguém Tem Graça de Contar

A situação em Natal é emblemática, mas não é exceção. Pelo Brasil afora, delegacias fecham no horário em que a violência aumenta. Plantões com efetivo mínimo tentam cobrir territórios imensos com recursos de terceiro mundo. Policiais compram material básico do próprio bolso. Peritos chegam depois que as evidências foram destruídas. Investigadores conduzem dezenas de casos simultaneamente, sem tempo suficiente para aprofundar nenhum deles. Não é que os policiais brasileiros sejam, em sua maioria, incompetentes ou mal-intencionados. Muitos são profissionais sérios que trabalham em condições que seriam consideradas abusivas em qualquer comparação internacional. O problema não é individual — é sistêmico. É o resultado de um Estado que sempre tratou a segurança pública como gasto em vez de investimento, que nunca estruturou adequadamente as carreiras de investigação criminal, que confunde "mais polícia na rua" com "mais segurança" quando a resolução de crimes exige laboratórios forenses, equipamentos de última geração, capacitação contínua e tempo de investigação. Num país que tem orçamento para estádio de futebol, para renegociação de dívida bancária, para subsídio de combustível de aviação, para evento internacional de luxo, a fita para isolar cena de crime precisa ser comprada pelo policial com o próprio salário. Alguma coisa está profundamente errada com as prioridades desse lugar.

O Caminho do Crime: Da Rua ao Arquivo Morto

Quando um crime é cometido no Brasil, ele percorre um caminho que, em teoria, deveria terminar na justiça. Na prática, a maioria dos casos cai fora desse caminho muito antes de chegar ao final. O processo começa com o registro do boletim de ocorrência e a preservação da cena do crime — já vimos que essa etapa frequentemente falha. Depois vem o inquérito policial, conduzido pela delegacia, onde testemunhos são colhidos, suspeitos são identificados e provas são reunidas. Se o inquérito conclui que há indícios suficientes, o caso vai ao Ministério Público, que decide se oferece ou não denúncia ao juiz. Se houver denúncia, começa o processo judicial, que pode durar anos. Se houver condenação, aí sim — e só aí — o crime "foi resolvido" do ponto de vista da justiça.

O problema é que esse caminho tem buracos em cada etapa. O inquérito pode ser arquivado por falta de provas — provas que nunca foram coletadas porque a cena foi contaminada. O suspeito pode ser identificado mas não encontrado. O Ministério Público pode entender que os elementos são insuficientes para uma denúncia. O processo pode se arrastar por tanto tempo que o crime prescreve. O réu pode ter direito a liberdade durante o julgamento e simplesmente sumir. A defesa pode encontrar nulidades processuais que derrubam a condenação. E assim por diante. Cada um desses buracos é, individualmente, compreensível dentro de um sistema que tenta equilibrar eficiência e garantias processuais. O problema é quando todos eles existem ao mesmo tempo, no mesmo sistema, gerando um efeito conjunto que é a impunidade quase total que vivemos.

O Que Significa Para Uma Família Ficar Sem Resposta

É fácil falar de impunidade como abstração. Cinquenta mil mortes, oito por cento de punição, dois dígitos aqui, três ali. Números. Mas por trás de cada número tem uma família como a dos Krettli, que fugiu para a Bahia sem entender por quê perdeu o filho. Tem uma mãe que descreve a perda como um roubo — não do filho, mas de si mesma, da certeza de que o mundo faz sentido, de que existe alguma forma de ordem ou de justiça.

"Só lágrima, tristeza e dor da impunidade. De nada acontecer, você não ter resposta", disse Maria Krettli. Essa frase carrega mais sobre o Brasil do que qualquer relatório. A impunidade não é só a ausência de punição para o criminoso. É a presença de uma dor sem elaboração possível. Quando alguém morre de doença, de acidente, por mais brutal que seja, existe algum lugar psicológico onde a família pode começar a construir uma narrativa de sentido. Quando alguém é assassinado e o assassino anda solto, a dor fica travada. Não tem conclusão. Não tem capítulo final. É uma ferida que não fecha porque o agente causador dela ainda existe, ainda circula, ainda pode fazer de novo — e sabe que pode, porque fez antes e não aconteceu nada.

O pai de Fabrício disse que vai perdendo a credibilidade nos homens, nas autoridades. Esse é um dos danos mais invisíveis e mais profundos da impunidade: a erosão da confiança no Estado, no sistema, na ideia de que existe algo que protege as pessoas de boas do arbítrio dos violentos. Quando essa confiança se vai, o que resta não é anarquia — é pior. É cada um por si, é a lei do mais forte, é a terceirização da segurança para quem cobrar por ela, seja um segurança privado para quem pode pagar, seja uma facção criminosa para quem não tem outra opção.

Por Que o Brasil Não Resolve Isso?

Essa é a pergunta que todo mundo faz e ninguém responde de forma satisfatória. Não existe uma causa única, uma raiz simples, um vilão isolado que, se removido, resolveria tudo. A impunidade brasileira é um sistema, e sistemas são difíceis de desmontar porque cada peça depende das outras. Há o subfinanciamento histórico da segurança pública, especialmente da investigação criminal, que é mais cara, mais lenta e menos "visível" politicamente do que o policiamento ostensivo. Um governador que aumenta o número de viaturas nas ruas tem foto para tirar. Um governador que investe em laboratório forense e capacitação de investigadores não tem. Então o dinheiro vai para onde dá foto.

Há a formação inadequada dos investigadores, que em muitos estados brasileiros ainda é precária tanto em técnica forense quanto em direitos humanos e técnicas de entrevista. Há a escassez de peritos criminais — o Brasil tem um número absurdamente baixo de profissionais especializados para a dimensão da violência que enfrenta. Há o sistema judiciário lento, abarrotado, que leva anos para julgar casos que deveriam ser resolvidos em meses. Há a legislação processual penal que, em alguns aspectos, cria mais oportunidades de nulidade do que de responsabilização.

E há, finalmente, uma questão cultural profunda e desconfortável: a vida de alguns brasileiros vale mais do que a de outros. Quando alguém rico, famoso ou politicamente conectado é assassinado, a investigação tem prioridade, a mídia acompanha, há pressão pública. Quando é um jovem negro da periferia — como é a maioria esmagadora das vítimas de homicídio no Brasil — o caso some. Não tem cobertura, não tem pressão, não tem follow-up. O sistema, implicitamente, trata essas mortes como menos urgentes. Esse é um racismo e um classismo estrutural que nunca foi enfrentado com honestidade suficiente no debate público brasileiro.

O Que Existe de Solução — e Por Que Ainda Não Funcionou

Não é que ninguém saiba o que fazer. Há décadas especialistas, criminologistas, delegados e promotores apontam o caminho: investimento maciço em perícia técnica, redução do número de casos por investigador, programas sérios de proteção a testemunhas, integração entre as polícias civil e militar e o Ministério Público, uso de tecnologia — câmeras, bancos de dados de DNA, reconhecimento de padrões — e, principalmente, uma mudança de cultura institucional que trate a resolução de crimes como objetivo central, não como burocracia acessória. Países que conseguiram avançar nessa direção — o Reino Unido com seus 90% de resolução de homicídios é o exemplo mais citado — não fizeram milagre. Fizeram investimento consistente, treinamento sério, protocolos rígidos de preservação de cena, integração de dados e acompanhamento rigoroso de resultados. Não é segredo, não é ciência de foguete. É gestão pública competente aplicada a um problema que o Brasil insiste em tratar como inevitável. A palavra-chave aí é "inevitável". Esse é o maior obstáculo. Quando a sociedade começa a aceitar 52 mil mortes por ano como parte da realidade, quando a impunidade deixa de ser escândalo e vira paisagem, quando as famílias como a dos Krettli fogem em silêncio sem que ninguém responda por isso — é aí que o sistema se perpetua. A normalização da violência é a maior aliada da impunidade.

Um País em Que os Criminosos Sabem que Podem

No final, a questão é simples e assustadora: no Brasil, matar alguém tem uma taxa de impunidade superior a 90%. Isso significa que, se você decidir matar alguém, a probabilidade estatística de ser condenado por isso é menor do que 10%. E todo mundo que opera no crime sabe disso, porque vivem esse dado na prática todo dia. O crime compensa, não porque o Brasil seja um lugar de pessoas ruins, mas porque o sistema nunca foi estruturado para fazer o contrário parecer verdadeiro. Mário Gabardo foi morto por um homem que nem escondeu o rosto. Não era desatenção, não era descuido. Era confiança. Era a certeza, construída pela experiência acumulada da impunidade, de que não havia motivo para ter medo de ser identificado. Porque mesmo que fosse identificado, as chances de ser punido eram mínimas. Essa é a tragédia central. Não é só que o Brasil não resolve os crimes do passado — é que a impunidade alimenta os crimes do futuro. Cada assassinato que fica sem resposta é um sinal verde para o próximo. O sistema não é apenas injusto com as vítimas: ele é, ativamente, uma fábrica de incentivos para a violência.

O Que Sobra Para as Famílias

Francisco e Maria Krettli estão no interior da Bahia. A pizzaria fechou. O salão fechou. A casa ficou. Os amigos de Fabrício vivem com medo desde que tentaram ajudar a polícia. A namorada dele convive com a raiva de um suspeito que apontou e que nunca foi investigado a sério. E algum lugar em São Paulo, existe um homem que deu dois tiros num jovem estudante de gastronomia e foi embora correndo — e provavelmente não pensa mais nisso, porque sabe que ninguém está atrás dele. Esse é o Brasil real, não o Brasil dos discursos de segurança pública, não o Brasil dos lançamentos de operações policiais com nome bonito e coletiva de imprensa. É o Brasil das famílias que esperam uma resposta que nunca vem, das delegacias que compram fita de isolamento do próprio bolso, das peritas que chegam depois que a multidão pisou em tudo, dos casos que viram número de protocolo e somem na gaveta.

E a pergunta que fica, depois de tudo isso, não é técnica. Não é sobre orçamento de segurança pública ou taxa de resolutividade de inquéritos. A pergunta que fica é moral, e é simples: quanto tempo o Brasil ainda vai aceitar que mais de 90% dos seus assassinos fiquem livres? Quanto tempo ainda vamos tratar isso como inevitável? Porque enquanto a resposta for "um pouco mais", são as Yasmin, as Fabrícios, os Thúlios e os Mários que pagam essa conta — com a própria vida, e sem direito sequer a ter um culpado pelo nome.