O Diabo se esconde no sétimo ano, não no sétimo selo. O camponês romeno que ousava subir a trilha do Lago Bâlea depois da primeira nevasca não estava procurando lenha. Ele sabia que o ar frio das montanhas Făgăraș não preservava apenas gelo, mas também segredos. Segredos que, se contados em voz alta na taverna, fariam o vinho azedar nas canecas. Ele procurava o décimo aluno. A matemática da Scholomance era um pesadelo recorrente nas aldeias da Transilvânia. Nove entravam, nove saíam. Um ficava.
Mas "ficar" era um verbo impreciso para descrever o destino daquele que era escolhido para ser o Dragão. Ele não era enterrado, não era queimado, não era pendurado nas ameias de pedra do mosteiro. Ele simplesmente… permanecia. Tornava-se parte da mobília escura da escola, um instrutor de olhos que já tinham visto o outro lado do firmamento. O camponês sabia disso porque seu bisavô, um homem com um dedo extra na mão esquerda, havia sido visitado por um estranho de capa preta numa noite sem estrelas. A proposta foi feita em iídiche arcaico. A família fugiu para Brașov antes do amanhecer. A polidactilia, veja bem, era um convite que muitos preferiam recusar. O que transforma um rumor medieval num sistema de recrutamento que opera por mais de mil anos? Não é a fé. É a utilidade. Reis não consultam sábios; reis consultam quem entrega resultados. E se há uma linha que costura a tapeçaria da Scholomance desde os Cárpatos até os salões de mármore de Bizâncio, é a prestação de serviços que não podem ser anotados em pergaminhos oficiais.
Duas expedições templárias voltaram de Jerusalém. Uma trouxe o Santo Graal. A outra, mais discreta, trouxe caixotes. Dentro deles, tábuas de argila com inscrições que não eram gregas nem latinas, mas algo mais antigo e mais seco, como se as palavras tivessem sido cuspidas em vez de escritas. Godofredo de Saint-Omer, co-fundador da Ordem do Templo, sabia exatamente o que estava saqueando. Ele não procurava ouro. Ele procurava know-how. A biblioteca secreta que Salomão havia montado com a ajuda de entidades que a Bíblia preferiu chamar de "demônios" era o verdadeiro tesouro do Templo. Esses manuscritos viajaram para o leste. Para a Valáquia. Para a região onde o céu é cinza mesmo ao meio-dia.
A genialidade estratégica da Ordem não estava nos feitiços, mas no design do currículo. Enquanto as universidades europeias ainda discutiam quantos anjos cabiam na cabeça de um alfinete, a Scholomance havia criado um sistema modular de ensino oculto. Cada disciplina era uma Chantria. Não uma sala de aula no sentido moderno, mas uma capela de obsessão. Na Chantria de Necromancia, cadáveres frescos chegavam em carroças cobertas de palha, comprados de coveiros que não faziam perguntas — o mercado negro de corpos na Romênia do século XV não era um crime, era uma linha de abastecimento. Na Chantria de Alquimia, o chumbo fervia enquanto instrutores sussurravam que a transmutação de metais era apenas um aquecimento para a transmutação do próprio corpo.
Era um MBA de magia aplicada. Com uma diferença fundamental: o décimo aluno não se formava. Ele era absorvido pelo corpo docente — e, segundo os boatos, pelo corpo literal da tradição, tornando-se um Dragão, um guardião que não envelhecia da mesma forma que os aldeões lá embaixo. O acervo da biblioteca da Scholomance rivalizava com o de Alexandria em sua obsessão pela completude. Manuscritos em sânscrito chegavam por rotas que cruzavam o Império Otomano. Tratados de astronomia chineses eram traduzidos por monges nestorianos capturados. A regra era clara e violenta: nenhum livro saía. Nem um. Você podia entrar, se tivesse um tomo raro para doar como ingresso, e copiar à mão cada página. Mas o original ficava. Para sempre. O conhecimento não era para ser divulgado; era para ser acumulado, como combustível, como munição.
Os Dragões não cospem fogo. Eles cospem influência. A cronologia é suspeita demais para ser coincidência. Em 1431, Sigismundo de Luxemburgo funda a Ordem do Dragão, uma sociedade de cavalaria dedicada a defender o Cristianismo contra os otomanos. Seu membro mais famoso, Vlad II Dracul, ostenta o dragão no brasão e no nome. Seu filho, Vlad III, o Empalador, cresce cercado por uma estética draconiana que misturava fervor religioso, crueldade metódica e um conhecimento íntimo das montanhas da Transilvânia.

Bram Stoker nunca pisou na Romênia. Mas sabia o suficiente para fazer seu Drácula estudar na Scholomance. No romance, o Conde se gaba de ter frequentado a escola às margens do lago nas montanhas, "onde o diabo ensina a décima parte de seu conhecimento". Stoker não inventou isso. Ele leu Emily Gerard, uma escritora escocesa que publicou, em 1885, um artigo chamado Transylvanian Superstitions. Gerard ouviu dos camponeses que o lago nas montanhas era onde o trovão era fabricado — e onde o diabo colhia sua alma a cada sete anos.
A décima parte do conhecimento do diabo. O preço era o aluno número dez. O que a Scholomance entendia, séculos antes de Maquiavel, é que o poder não está na força bruta, mas na capilaridade. Ter um egresso em cada corte europeia era o equivalente medieval a ter um backdoor em cada sistema operacional. Um feiticeiro formado na Scholomance não usava robes estampados com dragões. Ele usava roupas de conselheiro, de médico, de confessor particular. Sussurrava interpretações de sonhos para rainhas que tinham maridos ausentes nas Cruzadas. Recomendava ervas para reis com gota e insônia. E, quando a ocasião exigia, aplicava a técnica de matar à distância — uma habilidade que os tratados da Chantria de Magia Negra ensinavam com a frieza de um manual de instruções. Matar à distância não significava lançar um raio. Significava induzir um acidente vascular num nobre inimigo usando uma combinação de veneno indetectável, sugestão hipnótica e, diziam, o auxílio de entidades que atendiam por nomes que não estavam nos livros de orações. Eram as forças que Salomão, segundo o Testamento de Salomão, um texto apócrifo do século I, havia aprisionado para construir o Templo.
A conexão com o vampirismo não é folclore gratuito. É fisiologia ocultista. Os Upyreshi — a suposta raça vampírica da qual a Scholomance original descendia — não são os mortos-vivos românticos da literatura vitoriana. São algo mais antigo, mais biológico, mais perturbador. A lenda romena fala de criaturas que não bebem sangue por sustento, mas por um tipo de osmose de força vital que lhes permite estender a existência indefinidamente. O Dragão da Scholomance, aquele décimo aluno que nunca ia embora, supostamente passava por um ritual de transformação que o tornava algo entre humano e outra coisa. Os cabelos ruivos, a polidactilia, a cauda vestigial — as marcas de recrutamento preferencial — eram, segundo os textos internos, resquícios genéticos dessa linhagem Upyreshi, como se certas famílias carregassem no DNA a predisposição para certos rituais.
Chernebog, o deus eslavo das trevas, do inverno e do eclipse, era o patrono oficioso desse processo. Sutekh, no Egito, era seu equivalente climático invertido — deus do verão, do calor e da destruição. Ambos, entretanto, presidiam a entropia. Ambos eram representados com o vermelho na iconografia. Ambos selecionavam os ruivos como seus sacerdotes. A Scholomance operava na intersecção desses arquétipos, como se houvesse um protocolo universal de acesso ao oculto, uma API cósmica, e diferentes culturas tivessem encontrado endpoints diferentes para a mesma base de dados. A dissidência templária que rumou para o ocidente teria se tornado os Illuminati. A que ficou no leste se tornou o Caminho da Mão Esquerda. Dois ramos da mesma árvore, um operando à luz de velas em palácios, o outro à luz de lampiões em cafés de Paris.
O revival de 1990 foi patético e revelador. Nove homens, no apartamento de um subúrbio de Bucareste, na Noite do Dragão, tentaram ressuscitar uma Ordem milenar com vinho barato, incenso de loja de esoterismo e juramentos solenes. Duraram menos que uma legislatura. O problema não foi a falta de conhecimento — alguns deles tinham lido os grimórios certos e entendiam de alquimia prática. O problema foi que tentaram aplicar uma estrutura democrática a um sistema que sempre foi rigidamente hierárquico e impiedosamente meritocrático. A Scholomance original não tinha disputas internas porque o décimo aluno não tinha opção de discordar. Ele se tornava o Dragão ou era descartado. Do fracasso da Nova Scholomance nasceu a Ordo Tenebri Astrum, a O.T.A., que hoje figura respeitavelmente entre as ordens herméticas europeias. Respeitável demais. Limpa demais. Uma versão domesticada do pesadelo. É o equivalente a transformar um ritual de possessão num workshop de autoconhecimento de fim de semana. Os verdadeiros Dragões, se é que ainda existem, não publicam newsletters trimestrais.
A questão que mantém os teóricos da conspiração acordados não é se a Scholomance acabou. É se ela alguma vez precisou de um endereço fixo. O lago Bâlea é um ponto turístico hoje. O mosteiro nunca foi encontrado. Talvez porque nunca tenha sido um mosteiro de pedra, mas uma estrutura organizacional que se adapta ao ambiente histórico como um organismo. Na Idade Média, era uma escola em ruínas nas montanhas. No Renascimento, uma rede de conselheiros reais. Na era moderna, o que seria? Uma consultoria de estratégia geopolítica com acesso a tecnologias de ponta? Um think tank ocultista operando em países bálticos com servidores offline e financiamento não rastreável? Um conselho de administração de corporações multinacionais cujos produtos alteram o comportamento humano em escala global?
Se você fosse um Dragão imortal, onde estaria agora? Não numa caverna. Cavernas são para morcegos. Estaria onde o poder é exercido sem alarde, onde as decisões são tomadas antes do amanhecer, onde o conhecimento não é ensinado, mas aplicado. A Scholomance entendia que o verdadeiro feitiço é a informação. E que a magia mais poderosa não é a que viola as leis da física, mas a que viola as leis do pensamento — fazendo você acreditar que certas coisas são inevitáveis, que certas estruturas são eternas, que certas portas estão fechadas. O décimo aluno nunca saiu. Mas ele também nunca precisou sair. Ele já estava do lado de dentro do único lugar que importa.