Imprensa, Ideologia e a Disputa pela Verdade

Imprensa, Ideologia e a Disputa pela Verdade

2026 - A televisão perdeu o monopólio da verdade — mas a guerra pela informação apenas mudou de endereço. Durante décadas, o brasileiro que quisesse saber o que estava acontecendo no país tinha poucas portas para bater. Havia o jornal da manhã, o rádio no carro e, à noite, a televisão em rede nacional. O noticiário chegava pronto, embalado por uma voz grave, um cenário azul e a autoridade silenciosa de quem parecia dizer: “foi isso que aconteceu”.Esse tempo acabou.

Hoje, a mesma notícia pode ser publicada por um jornal tradicional, comentada por um influenciador, contestada por um especialista, recortada em vídeo, transformada em meme e discutida por milhares de pessoas antes mesmo de o telejornal terminar. A velha mídia não desapareceu, mas perdeu o privilégio de ser a primeira — e muitas vezes a única — versão disponível dos fatos. A mudança não ocorreu apenas porque a internet criou novas ferramentas. Ela ocorreu porque o público deixou de aceitar passivamente o papel de plateia. Só que existe uma ironia desconfortável nessa virada: a perda do monopólio da mídia tradicional não entregou automaticamente mais verdade ao cidadão. Entregou mais versões. Algumas são rigorosas. Outras são apenas barulho com boa iluminação.

A pesquisa da UFSC virou munição — mas o número dos “90%” não fecha

A discussão costuma começar com uma afirmação repetida nas redes sociais: a de que 90% dos jornalistas brasileiros seriam de esquerda ou de extrema esquerda, segundo uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina. O estudo existe. O número, apresentado dessa forma, não corresponde ao dado primário mais conhecido da pesquisa.

O levantamento Perfil do Jornalista Brasileiro, realizado pela UFSC em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas, ouviu 2.731 jornalistas entre setembro e novembro de 2012. A coleta foi feita pela internet, por telefone e por e-mail, com participação espontânea. A própria síntese da pesquisa afirma que metade dos profissionais se identificava como de esquerda, enquanto quase um terço recusava qualquer classificação ideológica.

A distribuição frequentemente citada a partir dos dados é de aproximadamente 52,8% identificados com a esquerda, 25,9% com a centro-esquerda e cerca de 2% com a extrema esquerda. A soma revela uma categoria claramente mais inclinada à esquerda do que a população geral, mas não autoriza transformar o estudo em prova de que 90% dos jornalistas são militantes de esquerda.

IMPRENSABRANCA TABELA

A diferença parece pequena para quem quer apenas uma frase de efeito. Não é. Uma pesquisa mede o que perguntou, a quem perguntou e quando perguntou. Usá-la como carimbo para confirmar uma tese previamente escolhida é abandonar o jornalismo justamente no momento em que se diz estar defendendo a verdade.

Há um abismo entre a visão das redações e a visão de parte do público

Ainda assim, o levantamento aponta uma questão legítima: existe uma distância ideológica perceptível entre o perfil de muitos jornalistas e o de parcelas expressivas da população. Essa distância pode influenciar a escolha de pautas, a seleção de fontes, o tom das manchetes e aquilo que uma redação considera urgente, ofensivo, relevante ou aceitável. Não é preciso imaginar uma sala secreta com meia dúzia de conspiradores para entender como isso funciona. Valores profissionais, repertório social e visão política afetam o que cada pessoa enxerga — inclusive dentro de uma redação.

Um repórter pode considerar uma manifestação um ato democrático; outro pode vê-la como ameaça à ordem. Um editor pode chamar determinado grupo de “movimento social”; outro pode preferir “militância organizada”. A informação básica pode ser a mesma. O enquadramento muda. E o enquadramento, em jornalismo, nunca é um detalhe decorativo. Isso não significa que toda reportagem feita por alguém de esquerda seja falsa, nem que um jornalista de direita seja automaticamente mais honesto. Ideologia não é detector de verdade. Uma matéria deve ser examinada por seus documentos, fontes, método, transparência, correções e coerência com os fatos — não apenas pela etiqueta política de quem a escreveu.

O problema é maior que a ideologia: concentração, precarização e pouca diversidade

A crítica à imprensa tradicional encontra terreno fértil porque o sistema brasileiro de comunicação tem problemas objetivos. Um relatório da Repórteres Sem Fronteiras, citado pela Agência Brasil, apontou a insuficiência de políticas públicas para promover pluralidade e diversidade no jornalismo nacional. O documento também chamou atenção para a concentração da propriedade dos meios de comunicação e para a fragilidade de veículos públicos, comunitários, regionais e periféricos.

A mesma reportagem informa que cerca de 26 milhões de brasileiros vivem em cidades sem acesso a notícias locais. Também menciona uma pesquisa de 2017, feita pela Repórteres Sem Fronteiras em parceria com o Intervozes, segundo a qual as quatro maiores redes de televisão concentravam 70% da audiência nacional. Esse cenário produz um paradoxo. A mídia tradicional pode ser acusada de falar a partir de uma bolha ideológica, mas a ausência de veículos locais e independentes deixa milhões de pessoas com menos jornalismo, não com jornalismo melhor. Onde não há repórter acompanhando prefeitura, hospital, escola, polícia e orçamento público, o espaço não fica vazio por muito tempo. Ele costuma ser ocupado por boatos, grupos de mensagem e autoridades interessadas em controlar a própria narrativa.

A concentração também não é resolvida pela simples troca de um grande canal por um influenciador. Um conglomerado pode ter interesses econômicos; um criador digital pode ter interesses comerciais, partidários ou de audiência. A diferença é que o primeiro ainda costuma operar com alguma estrutura de apuração, enquanto o segundo frequentemente publica em velocidade de campeonato e corrige em ritmo de tartaruga.

Gramsci explica alguma coisa — mas não explica tudo

O nome de Antonio Gramsci aparece com frequência nas críticas à imprensa. O pensador italiano analisou como a disputa política também ocorre no terreno da cultura, das instituições e do consentimento social. A ideia de hegemonia cultural ajuda a compreender por que escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, sindicatos e organizações civis são espaços de disputa de valores. O problema começa quando esse conceito é usado como uma chave universal. Se toda pauta progressista é automaticamente classificada como “gramsciana” e toda redação que publica uma reportagem desfavorável à direita é tratada como parte de uma conspiração revolucionária, a análise deixa de investigar e passa a apenas rotular.

Uma hipótese política não substitui uma prova. Para demonstrar que uma universidade discrimina alunos de direita, seria preciso apresentar casos documentados, regras, decisões, testemunhos verificáveis e comparação com situações semelhantes. Para afirmar que uma redação fabrica militância, seria necessário examinar padrões de cobertura, critérios editoriais, omissões recorrentes, conflitos de interesse e direito de resposta. Sem esse trabalho, sobra uma acusação — talvez popular, talvez emocional, mas ainda assim uma acusação.

A internet quebrou o monopólio — e também industrializou a desinformação

O público ganhou a possibilidade de confrontar versões quase instantaneamente. Um vídeo completo pode desmontar uma frase recortada. Um documento oficial pode ser encontrado em poucos segundos. Uma declaração antiga pode reaparecer para testar a memória de quem jurava nunca ter dito aquilo. Só que a mesma infraestrutura que permite verificar uma notícia permite espalhar uma mentira em escala industrial. A informação falsa não precisa mais convencer todos. Basta encontrar um grupo predisposto a acreditar, oferecer uma imagem emocional e repetir a história até que a familiaridade pareça evidência.

O Digital News Report 2025, do Reuters Institute, aponta que 84% da população brasileira tinha acesso à internet. O relatório registra também que a confiança geral nas notícias estava em 42%, enquanto o consumo de televisão e mídia impressa havia recuado significativamente na última década. Ao mesmo tempo, 9% dos brasileiros já usavam chatbots de inteligência artificial para obter notícias. Esses números descrevem uma transformação profunda: a autoridade migrou do estúdio para a tela do celular, mas não deixou de existir. Ela passou a ser disputada por jornalistas, comentaristas, influenciadores, políticos, plataformas e algoritmos.

A confiança também não evaporou. O relatório observa que grandes marcas televisivas continuam entre as fontes mais confiáveis para parte do público brasileiro. A televisão perdeu o monopólio, não necessariamente toda a credibilidade. Essa diferença é decisiva.

O leitor não quer neutralidade de laboratório; quer honestidade verificável

A chamada imparcialidade jornalística nunca significou ausência completa de valores. Todo veículo escolhe o que cobrir, quem ouvir, qual título publicar e quanto espaço dedicar a cada versão. O ideal mais realista não é uma neutralidade sobrenatural, mas transparência sobre método, limites e evidências. Um veículo confiável deveria informar quando uma fonte é anônima, separar notícia de opinião, corrigir erros de forma visível, ouvir os envolvidos e explicar como chegou a uma conclusão. Deveria resistir tanto à pressão de governos quanto à de anunciantes, partidos, militantes e proprietários.

O público, por sua vez, precisa abandonar uma tentação confortável: acreditar que a verdade é sempre o lado que confirma sua indignação. A mídia tradicional pode errar por viés, arrogância ou pressa. A mídia alternativa pode errar por militância, falta de apuração ou dependência da própria audiência. O selo “independente” não é certificado de virtude; é apenas uma descrição que também precisa ser examinada.

A velha mídia perdeu o monopólio da verdade porque a tecnologia abriu as portas da sala de edição. O que entrou por essas portas foi pluralidade, mas também propaganda; fiscalização, mas também linchamento; jornalismo, mas também rumor. A pergunta decisiva já não é quem fala mais alto. É quem consegue mostrar os documentos, sustentar as acusações e admitir o erro quando a realidade — essa criatura pouco obediente — decide contrariar a torcida.