Além das Nuvens, Entre Leões e Metralha: A Verdadeira História da Esquadrilha Lafayette. Pensa rápido: você é jovem, podre de rico, tem o mundo aos seus pés na Paris da Belle Époque e, de repente, o mundo entra em guerra. O ano é 1914. De um lado, a Alemanha imperial; do outro, a França. Seu país natal, os Estados Unidos, decide que não tem nada a ver com isso e se declara neutro. O que você faz? Pega o primeiro navio de volta para Nova York ou se alista no exército estrangeiro correndo o risco de perder a sua própria cidadania?
Para um grupo de trinta e oito sujeitos audaciosos — que mais pareciam saídos de um romance de aventura —, a resposta foi meter as caras no front. Essa é a história real, sem os filtros de Hollywood e sem maquiagem romântica, da Esquadrilha Lafayette (Escadrille de Lafayette). Uma unidade que misturou o puro suco da futilidade aristocrática com uma coragem brutal, voando em caixas de fósforos feitas de lona e madeira, bebendo como se não houvesse amanhã e, no processo, mudando o rumo da propaganda de guerra no século XX.
O Jeitinho Diplomático para ir à Guerra
Quando o bicho pegou na Europa, em agosto de 1914, o escritor suíço Blaise Cendrars soltou uma convocação no jornal francês Le Figaro: um chamado para que os estrangeiros residentes defendessem a liberdade da França. A colônia americana em Paris, cheia de rapazes que gastavam a vida apostando corrida de iate e pilotando aviões primitivos por puro esporte, sentiu o sangue ferver. Só que havia um tremendo nó jurídico. Se um cidadão americano jurasse bandeira a uma nação estrangeira, a constituição dos EUA passava o facão na sua cidadania. A solução? Uma malandragem legalista. Eles foram conversar com o embaixador americano em Paris e fecharam um acordo: iam se alistar na Legião Estrangeira Francesa ou no Corpo de Ambulâncias Americano (American Ambulance Service). Assim, tecnicamente, não quebravam a neutralidade de Washington.
Mas dirigir ambulância ou marchar na lama da infantaria logo perdeu a graça para quem queria voar. Foi aí que o Dr. Edmund L. Gros, diretor do serviço de ambulâncias, e Norman Prince, um americano ricaço e expatriado que já voava pelos franceses, decidiram mexer os pauzinhos. Eles convenceram o governo francês de que criar um esquadrão só de pilotos americanos seria uma jogada de marketing genial. O plano era descarado: encher os jornais dos EUA com histórias de heróis americanos voando pela França para forçar a opinião pública e o governo de Washington a entrarem na guerra. Em abril de 1916, nascia a Escadrille l’Américaine (Esquadrilha Número 124), sediada inicialmente em Luxeuil.
Protesto Alemão e Mascotes Incomuns
A farra do marketing funcionou tão bem que os alemães ficaram furiosos. Berlim mandou uma queixa formal para Washington: "Como assim vocês dizem que são neutros se tem um esquadrão inteiro com o nome de vocês metralhando nossas tropas?". Para evitar um colapso diplomático, em dezembro de 1916, a esquadrilha mudou de nome. Virou Esquadrilha Lafayette, uma homenagem ao marquês francês que foi herói na Independência dos Estados Unidos. A mecânica era francesa, os aviões eram franceses, o uniforme era francês e o comando era do capitão francês Georges Thenault, auxiliado pelo tenente Alfred de Laage de Meux. No papel, cinco oficiais franceses e trinta e oito pilotos americanos formavam o núcleo duro da unidade — os lendários "The Valiant 38" (Os 38 Valentes).
E se você acha que a rotina deles era só disciplina militar, está muito enganado. A Lafayette tinha fama de ser o esquadrão mais festeiro, irresponsável e destemido de toda a frente ocidental. Para se ter uma ideia do nível de excentricidade, os caras compraram dois filhotes de leão em Paris e os transformaram em mascotes oficiais da esquadrilha. Os nomes? Whiskey e Soda. Os felinos passeavam pelo campo de aviação e viajavam no banco de trás dos carros dos pilotos como se fossem gatinhos de apartamento.
Nota de Front: O clima de insubordinação era real. Raoul Lufbery, o maior ás do esquadrão, uma vez saiu no soco com um oficial francês que cometeu a idiotice de tentar prendê-lo por causa de uma discussão boba. Lufbery acabou na cadeia, mas seus companheiros de esquadrão simplesmente invadiram o local e o resgataram à força. Ninguém mexia com os rapazes da Lafayette.
Batismo de Fogo e Sangue em Verdun

A brincadeira ficou séria em maio de 1916, quando o esquadrão foi enviado para o pior moedor de carne da Primeira Guerra: a Batalha de Verdun. Voando nos ágeis, porém frágeis biplanos Nieuport, os americanos descobriram o verdadeiro significado da guerra aérea. Não havia paraquedas, as cabines eram abertas, o vento congelava o rosto e o óleo do motor espirrava na cara do piloto.
A primeira vitória veio antes, em 20 de maio, pelas mãos de Kiffin Rockwell, que derrubou um avião de observação alemão na Alsácia. Mas o preço em Verdun foi altíssimo. O esquadrão sofria baixas constantes, que eram rapidamente repostas pelo fluxo de voluntários que cruzavam o Atlântico.
Foi nesse cenário que nasceu o mito de Raoul Lufbery. Nascido na França, mas naturalizado americano (com conexões familiares profundas na cidade de Americana, no Brasil, onde seu pai viveu), Lufbery era um mecânico que virou piloto e se tornou o terror dos céus, acumulando 16 vitórias confirmadas.
A realidade das perdas, porém, não poupava ninguém:
Victor Chapman foi o primeiro aviador americano a ser morto na guerra, em 1916, tentando levar laranjas para um amigo ferido no hospital antes de ser interceptado por caças alemães.
Edmond Genet teve a infelicidade de ser o primeiro a morrer logo após os EUA finalmente declararem guerra à Alemanha, em 1917.
O próprio Norman Prince, o fundador, morreu após bater em cabos de energia no pouso após uma missão bem-sucedida.
O Mito do Cinema vs. A Realidade dos Fatos
O cinema, especialmente o filme Flyboys (2006), adora misturar as coisas para deixar a narrativa mais bonita. Mas a verdade histórica é um pouco mais complexa e cheia de divisões técnicas. Nem todo piloto americano que voou na França foi da Esquadrilha Lafayette. O sucesso dos "38 Valentes" atraiu tanta gente que a França criou o Lafayette Flying Corps (Corpo de Aviação Lafayette), uma organização guarda-chuva muito maior. Ao todo, 265 voluntários americanos serviram nesse Corpo, mas foram espalhados por diversos esquadrões franceses. Teve americano, como Fred Zinn — pioneiro da fotografia aérea —, que começou na Legião Estrangeira antes de ir para a aviação. Inclusive, um número muito maior de americanos acabou lutando pelas forças britânicas (Royal Flying Corps e Royal Naval Air Service) do que pela própria Lafayette.
A lista oficial dos 38 pilotos americanos da Esquadrilha Lafayette original conta com figuras fascinantes. Veja a listagem completa dos combatentes que de fato integraram a unidade:
Os 38 Pilotos Americanos Originais
Horace Clyde Balsley
Stephen Sohier Bigelow
Ray Claflin Bridgman
Andrew Courtney Campbell, Jr. (Morto em serviço)
Victor Emmanuel Chapman (O primeiro americano morto em combate na I Guerra)
Elliot Christopher Cowdin
Charles Heave Dolan
James Ralph Doolittle (Morto em serviço)
John Armstrong Drexel
William Edward Dugan, Jr.
Christopher William Ford
Edmond Charles Clinton Genet (Primeiro morto após a entrada oficial dos EUA na guerra)
James Norman Hall (Que mais tarde coescreveu o clássico literário Mutiny on the Bounty)
Bert Hall (Figura controversa que virou ator, diretor de cinema e escreveu memórias sobre o esquadrão)
Willis Bradley Haviland
Thomas Moses Hewitt, Jr.
Dudley Lawrence Hill
Edward Foote Hinkle
Ronald Wood Hoskier (Morto em serviço)
Charles Chouteau Johnson
Henry Sweet Jones
Walter Lovell
Raoul Lufbery (O grande Ás da unidade; morreu tragicamente ao saltar de seu caça em chamas para evitar a morte pelo fogo)
James Rogers McConnell (Morto em serviço em 1917)
Douglas MacMonagle
Kenneth Archibald Marr
Didier Masson
Edwin C. "Ted" Parsons
Paul Pavelka (Morto em serviço)
David M. Peterson
Frederick Henry Prince, Jr.
Norman Prince (Fundador e Ás; morto em serviço)
Kiffin Yates Rockwell (Autor da primeira vitória do esquadrão; morto em serviço)
Robert Lockerbie Rockwell
Laurence Dana Rumsey, Jr.
Robert Soubiran
William Thaw
Harold Buckley Willis
O Fim do Sonho Francês e o Legado de Sangue

Em agosto de 1917, o esquadrão já era uma lenda viva. Eles acumulavam quatro condecorações da Legião de Honra, sete Medailles Militaire e trinta e uma menções honrosas na Croix de Guerre. Mas a farra romântica dos voluntários rompeu-se quando os Estados Unidos decidiram, finalmente, entrar de cabeça na guerra. No dia 18 de fevereiro de 1918, a Esquadrilha Lafayette foi formalmente extinta pelo governo francês e transferida para o Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos, rebatizada como a 103ª Aero Esquadra (103rd Aero Squadron). Por um tempo, eles ainda usaram os caças SPAD franceses e mantiveram os mecânicos da França, mas o clima mudou. A Força Aérea americana, rígida e burocrática, pegou esses pilotos veteranos e cheios de mania e os transformou em instrutores para os novatos que chegavam aos montes. Até o final do conflito, em novembro de 1918, a 103ª Divisão somou 49 vitórias no currículo.
Se olharmos friamente para os números de todo o contingente de americanos que voaram sob as asas francesas no Lafayette Flying Corps, a conta é pesada. Dos 265 voluntários, 225 conseguiram seus brevês e participaram ativamente de 180 missões de combate na linha de frente. O saldo final não tem maquiagem: 51 morreram em ação, 6 em acidentes terríveis de treinamento e mais 6 levados por doenças nas trincheiras. Eles deixaram um rastro de 99 vitórias aéreas confirmadas. A história da Esquadrilha Lafayette termina não com o glamour das telas de cinema, mas com o cheiro de óleo de rícino queimado, fumaça de metralhadora e a perda de jovens que preferiram arriscar tudo nos céus da Europa a assistir à história sendo escrita do sofá de casa. No fim das contas, Whiskey e Soda sobreviveram à guerra e foram levados para um zoológico na França, mas os homens que os alimentavam ficaram para sempre eternizados na terra que juraram defender.