A Profecia III - O Conflito Final: Quando o Anticristo Veste Terno, Gravata e Entra para a Política. Esqueça monstros gosmentos, zumbis ou fantasmas chorões. O verdadeiro mal absoluto não se esconde debaixo da cama esperando você dormir; ele veste um terno de grife, abre um sorriso sedutor para as câmeras e ocupa o cargo de Embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido.
Quando A Profecia III - O Conflito Final (The Omen III: The Final Conflict) invadiu as telonas lá em 1981, a promessa era pesada: entregar o clímax definitivo da saga de Damien Thorn, o Anticristo em pessoa. A trilogia que começou mostrando a adoção de um bebezinho demoníaco agora chegava ao topo da cadeia alimentar corporativa e política. E vamos jogar a real aqui? A ideia de colocar o filho do Diabo como um megaempresário carismático e intocável envelheceu maravilhosamente bem — e soa assustadoramente atual.
Se você chegou até aqui, puxe uma cadeira, porque a gente vai destrinchar cada detalhe profano desse clássico do terror oitentista. Sem rodeios, sem passar pano para os defeitos do filme e jogando a verdade nua e crua na mesa. Afinal, para lidar com Damien Thorn, a gente não pode ter meias palavras.
O Menino Cresceu (e Virou o Dono do Mundo)
A grande sacada do diretor Graham Baker e do roteirista Andrew Birkin foi dar um salto no tempo. Damien não é mais aquela criancinha bizarra que fazia as babás se enforcarem em festas de aniversário, nem o adolescente riquinho que matava os parentes por tabela no segundo filme. Agora, aos 32 anos, ele é interpretado por um então desconhecido Sam Neill. Sim, muito antes de correr de dinossauros em Jurassic Park, Neill entregou a melhor atuação da sua vida no papel do Cão chupando manga.
A presença de Sam Neill no filme carrega a história nas costas. Ele não precisa rosnar ou revirar os olhos; a maldade dele é fria, calculista e institucional. Ele é o CEO das Indústrias Thorn e acabou de herdar o cargo diplomático que era do seu pai adotivo no primeiro filme. A ironia deliciosa aqui é que o Diabo não quer destruir o mundo com fogo e enxofre logo de cara; ele quer controlar tudo através de corporações, bancos e alianças políticas. É o tipo de terror psicológico e social que te faz olhar para o noticiário com uma pulga atrás da orelha.
A Caçada Santa e o Massacre dos Inocentes
A trama principal gira em torno de um alinhamento estelar que indica uma péssima notícia para Damien: a Segunda Vinda de Cristo está prestes a acontecer, e o Nazareno vai nascer na Inglaterra. O que o Anticristo faz diante dessa ameaça? Ele não senta e chora. Numa das passagens mais pesadas e sombrias da franquia, Damien ordena aos seus seguidores — que estão infiltrados em todas as camadas da sociedade, de médicos a escoteiros — que exterminem todos os bebês do sexo masculino nascidos naquela data específica.
É um paralelo direto ao Massacre dos Inocentes bíblico, promovido pelo Rei Herodes. O filme não esconde a crueza desse momento. Vemos bebês sendo assassinados de formas frias e metódicas, mostrando que o filme não estava ali para brincar de ser assustador, mas sim para mergulhar no abismo da crueldade humana manipulada pelo mal.
Do outro lado do ringue, temos sete monges italianos liderados pelo Padre DeCarlo (interpretado por Rossano Brazzi). Eles estão armados com as Sete Adagas de Megiddo, as únicas armas na face da Terra capazes de despachar o Anticristo para o inferno. O problema? Esses monges são, possivelmente, os piores assassinos de aluguel da história do cinema. As tentativas deles de matar Damien são um show de incompetência que quase beira a comédia de erros. Damien praticamente não precisa levantar um dedo; os caras se matam sozinhos em estúdios de TV, em caçadas de raposa ou caindo de pontes. A mensagem é clara: a fé cega, sem preparo, é engolida viva pelo sistema.
O Elefante na Sala: Um Clímax que Dividiu o Rebanho
Agora, vamos falar a verdade sem maquiagem. Durante toda a trilogia, a gente se acostumou a ver o mal vencendo. O público, lá no fundo, adorava ver Damien escapar ileso enquanto seus inimigos eram decapitados por placas de vidro ou esmagados de forma criativa. A expectativa para O Conflito Final era um banho de sangue bíblico, uma guerra épica entre o céu e o inferno.
Mas o que a gente ganha no final? Um desfecho que, para muitos, soou como um balde de água fria.
Depois de manipular sua amante, a jornalista Kate Reynolds (Lisa Harrow), e usar o filho dela como escudo humano, Damien finalmente é encurralado nas ruínas de uma abadia. E é Kate quem crava a Adaga de Megiddo nas costas dele. Enquanto agoniza, Damien tem uma visão da figura de Cristo (representada por uma luz forte e uma estátua um pouco datada) e solta a famosa frase: "Nazareno, você não venceu nada". E... sobem os créditos.
Para uma legião de fãs, esse final foi anticlimático, apressado e moralista demais. O estúdio claramente queria encerrar a história com uma vitória definitiva do bem, mas a execução deixou a sensação de que faltou fôlego. Faltou aquele soco no estômago que os dois primeiros filmes entregavam com maestria. O mal, que parecia invencível e articulado, cai por causa de um deslize emocional em uma ruína escura. É poético? Talvez. É épico? Nem um pouco.
A Trilha Sonora Profana e o Legado
Mesmo com um final que divide opiniões, A Profecia III se sustenta como um filmaço, e grande parte disso se deve a um homem: Jerry Goldsmith. O lendário compositor, que já havia ganhado o Oscar pelo primeiro filme da franquia, retornou para criar uma trilha sonora que é, sem exagero, uma obra-prima. Se nos filmes anteriores a música apostava no terror gutural com coros satânicos entoando "Ave Satani", aqui Goldsmith compôs algo grandioso, trágico e operístico. A música transmite a ascensão e a queda de um império sombrio, elevando o filme a um patamar de superprodução que talvez nem o próprio roteiro alcançasse sozinho.
Hoje, olhando para o retrovisor, O Conflito Final funciona como uma cápsula do tempo fascinante e uma aula de como construir um vilão carismático. Sam Neill transformou Damien Thorn no arquétipo do "yuppie diabólico" que dominaria o cinema e a literatura dos anos 80 (alô, Psicopata Americano). O filme não tem os sustos fáceis que pipocam no terror moderno, mas te prende por uma atmosfera constante de paranoia. A sensação de que o mundo está nas mãos de pessoas que, literalmente, não têm alma.
Se você for revisitar esse clássico, vá pelo clima esmagador, pela atuação impecável de Neill e pela coragem que o filme teve de tocar em feridas religiosas e sociais sem pedir desculpas. Pode não ter sido o apocalipse explosivo que a gente queria ver, mas provou que o fim do mundo não vem com fogo caindo do céu. Ele vem com um aperto de mão bem firme e um sorriso no horário nobre da TV. E quer coisa mais aterrorizante que isso?



