Dica de Cinema

Fúria de Titãs 2: Quando os Deuses do Cinema Esqueceram o Roteiro

Fúria de Titãs 2: Quando os Deuses do Cinema Esqueceram o Roteiro

Sabe aquele filme que você assiste num sábado à tarde, sem compromisso, e termina com uma sensação esquisita de que seu cérebro foi lavado com água sanitária e glitter digital? “Fúria de Titãs 2” é exatamente isso. Só que pior. E melhor. É o tipo de paradoxo cinematográfico que merece ser dissecado sem dó, porque, convenhamos, a gente precisa entender onde diabos a Warner Bros. enfiou 150 milhões de dólares em 2012. Spoiler: não foi no roteiro.

Prepare o café, se acomoda na poltrona mais confortável da sua sala — ou no trono do Olimpo, se você tiver um desses sobrando — e vem comigo. Vamos mergulhar nessa epopeia mitológica que, ironicamente, foi tratada pelos deuses do cinema como um mero sacrifício de bilheteria.

Quando o Olimpo Desaba Antes da Hora: A Premissa Que Ninguém Pediu

Vamos ser honestos desde o primeiro parágrafo desta seção: o primeiro “Fúria de Titãs”, de 2010, não era nenhuma obra-prima. Ele sobreviveu graças ao carisma bruto de Sam Worthington e à nostalgia de Ray Harryhausen, mas foi trucidado pela crítica por um motivo muito específico: a conversão apressada para o 3D. O 3D daquele filme era tão tenebroso que as cenas pareciam figuras de papelão recortadas com tesoura de ponta romba.

Qualquer estúdio normal teria aprendido a lição e caprichado na sequência. A Warner Bros. decidiu fazer o contrário. Contrataram Jonathan Liebesman, um diretor especialista em terror de baixo orçamento (“A Hora do Pesadelo” e “Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles”), e entregaram a ele a missão de transformar a mitologia grega num videogame de tiro em terceira pessoa. E pasme: eles quase conseguiram. O problema é que o videogame veio sem enredo, sem pausa para respirar e com um lag mental insuportável.

A trama começa exatamente onde ninguém se importava mais. Perseu, o semideus que derrotou o Kraken, agora virou um pai viúvo e pescador. Ele pendurou a espada, trocou a armadura por uma rede de pesca e resolveu viver como um camponês ranzinza. O Olimpo, claro, está caindo aos pedaços porque os humanos pararam de rezar — um paralelo involuntário com a bilheteria do primeiro filme, talvez? Os deuses estão murchando, perdendo a imortalidade, e Zeus (Liam Neeson, visivelmente entediado e checando o relógio para ver se já podia voltar para o set de “Busca Implacável”) decide pedir ajuda ao filho rebelde.

A reviravolta vem de Hades (Ralph Fiennes, o Lord Voldemort que claramente perdeu uma aposta), que trai Zeus e faz um pacto com Ares (Edgar Ramírez, num penteado que merece um artigo à parte). Juntos, eles sequestram Zeus e sugam seus poderes para ressuscitar Cronos, o titã pai de todos, uma criatura de lava e pedra que mais parece uma montanha com problemas digestivos. A missão de Perseu? Largar a vara de pesca, juntar um exército de desajustados — incluindo a Rainha Andrômeda (Rosamund Pike), um navegador filho de Poseidon e um deus caído (Hefesto) —, descer ao Tártaro e salvar o pai antes que o mundo vire cinzas.

Sim, a sinopse é essa. E, acredite, o filme consegue ser mais caótico do que essa descrição sugere.

O Monstro no Quarto: A Direção de Jonathan Liebesman e a Estética do Exagero

Jonathan Liebesman dirigiu essa sequência como se estivesse fugindo de um incêndio. A câmera não para quieta um segundo. Cada cena de ação é um terremoto visual onde o espectador precisa de um dramin e de uma bússola para entender quem está batendo em quem. É a escola Michael Bay de cinema levada ao extremo da verborragia visual: tudo brilha, tudo explode, tudo se move rápido demais.

O que mais incomoda — e, ao mesmo tempo, fascina — é a textura digital. O filme inteiro parece coberto por uma crosta marrom-acinzentada. O Olimpo, que deveria ser um paraíso de mármore e luz, parece um castelo abandonado num domingo chuvoso. O Tártaro, o labirinto infernal, é um emaranhado de rochas em computação gráfica que muda de geografia conforme a conveniência do roteiro. Você nunca sente o peso da geografia. Não há espaço real, só um amontoado de pixels gritando por atenção.

A luta final contra Cronos é o ápice dessa filosofia do “mais é mais”. Perseu, montado em Pégaso, desvia de bolas de fogo enquanto o titã de lava cospe destruição. É uma cena que, se pausada quadro a quadro, parece uma pintura heavy metal de um adolescente dos anos 90. Mas em movimento, vira uma pasta de cores quentes e partículas. Liebesman filma monstros como se fossem obstáculos de um jogo de fliperama. E quer saber? Tem seu charme. Um charme tosco, suado, que remete às “Sessões da Tarde” de um Brasil que não existe mais. É um filme que se leva a sério demais para ser trash e é trash demais para ser levado a sério.

Um Elenco de Peso... Carregando um Peso Morto

Vamos aplaudir o esforço sobre-humano desse elenco. Porque atuar contra uma tela verde, gritando para bolinhas de tênis que depois virarão ciclopes de duas cabeças, exige uma falta de vergonha na cara que beira o heroísmo.

Sam Worthington, coitado, repete a fórmula que o consagrou em “Avatar”: testa franzida, maxilar travado e uma eterna cara de quem está com prisão de ventre. Mas, justiça seja feita, ele convence como o brutamontes de coração mole. O problema é que o roteiro não lhe dá uma única fala memorável. Tudo o que Perseu diz é uma variação de “Preciso salvar meu pai” ou “Vamos lutar!”. É o mínimo esforço narrativo para conectar uma cena de pancadaria a outra.

Liam Neeson e Ralph Fiennes merecem uma análise à parte. Os dois, atores shakespearianos de formação impecável, flutuam entre o constrangimento e a diversão involuntária. A cena do jantar no Olimpo, antes da traição, é uma pérola do humor não intencional. Zeus e Hades conversam com a entonação de quem está discutindo a escalação da Premier League, não o destino da humanidade. Quando Hades finalmente liberta Cronos, Fiennes solta um urro primal que é 50% Lord Voldemort, 50% cantor de death metal. É gloriosamente ridículo.

E aí temos a Rainha Andrômeda, vivida por Rosamund Pike. O filme a coloca como par romântico de Perseu, mas sem química, sem desenvolvimento e sem razão de existir além de justificar um beijo técnico no final. A personagem é tão apagada que, se você piscar, esquece que ela estava na batalha. Isso sem falar no alívio cômico involuntário de Toby Kebbell como Agenor, o filho de Poseidon, cuja única função é fazer piadas sem graça e, numa cena infame, “domar” um ciclope com um discurso motivacional. Sim, você leu certo. Um discurso motivacional.

O Desastre do 3D Que Ninguém Quis Enxergar (Literalmente)

Se a conversão do primeiro filme foi uma catástrofe, “Fúria de Titãs 2” tentou se redimir filmando diretamente em 3D nativo. O resultado? Uma melhora técnica que só serviu para escancarar a feiura geral da obra. Filmar em 3D exige iluminação forte, cenários profundos e um cuidado com o foco que Liebesman simplesmente ignorou. O filme é escuro. Muito escuro. Em várias cenas do labirinto, você precisa apertar os olhos para distinguir a silhueta de Worthington das paredes de pedra.

A pós-produção acelerada — o filme foi lançado exatamente dois anos após o primeiro, um intervalo curtíssimo para um épico dessa escala — também deixou marcas visíveis. Efeitos especiais inconsistentes pipocam a cada dez minutos. Enquanto Cérbero, o cão de três cabeças, é bem resolvido, outras criaturas, como os “Makhai” (demônios de duas cabeças), parecem ter saído de uma cutscene de PlayStation 2. A textura da pele não convence, a interação com os atores reais é artificial e a física do movimento é a de um boneco de posto de gasolina.

Mas a verdade nua e crua, aquela que as matérias da época não quiseram martelar para não perder o jabá dos estúdios, é que “Fúria 2” foi um produto de ganância. A Warner viu o primeiro filme faturar quase meio bilhão de dólares no mundo, apesar das críticas terríveis, e achou que podia repetir a dose com mais ação, menos história e um prazo ainda mais insano. Foi uma aposta na mediocridade que, surpreendentemente, não colou tão bem. A bilheteria global caiu para cerca de 300 milhões. Números que, para qualquer outro filme, seriam um sucesso, mas para um blockbuster que custou 150 milhões mais o marketing, soaram como um sinal amarelo que enterrou de vez a franquia.

A Mitologia Atropelada: Deuses, Titãs e um Roteiro Sem Fé

A mitologia grega é rica, complexa, cheia de nuances, erotismo e tragédias familiares. O roteiro de Dan Mazeau e David Leslie Johnson-McGoldrick optou por ignorar tudo isso. O crime não é apenas trocar o nome de divindades ou simplificar linhagens — isso Hollywood sempre fez. O crime é transformar um panteão de seres passionais e vingativos em peças de xadrez sem alma.

Cronos, o grande vilão, não tem personalidade. É um vulcão ambulante. Na mitologia real, Cronos era o líder dos Titãs, um ser complexo que devorava os próprios filhos com medo de ser destronado. O filme o reduz a um kaiju genérico, uma força da natureza sem motivação, sem falas, sem olhar. Apenas destruição.

Ares, o deus da guerra, é outro desperdício. Edgar Ramírez tenta injetar ódio e ressentimento no personagem — ele trai Zeus por se sentir desprezado pelo pai e pelos humanos —, mas o filme resolve essa trama familiar com dois diálogos expositivos e uma luta final sem nenhum peso dramático. Ares é derrotado por um Perseu que, convenhamos, não tem metade do treinamento ou da malícia do deus da guerra. A justificativa? O poder do amor paternal ou alguma baboseira do tipo.

Hefesto, vivido por Bill Nighy num lampejo de excentricidade, é a única centelha de vida real. Ele surge como um eremita enlouquecido, isolado numa ilha, falando sozinho e tratando sua forja como um laboratório de cientista maluco. A cena em que ele revela o labirinto do Tártaro, com uma maquete que parece saída de “A Origem”, é visualmente inventiva. Mas Nighy fica em cena por apenas oito minutos. É um alívio cômico que o filme logo descarta para voltar às explosões sem sentido.

Por Que a Gente Ainda Vê Essa Bomba Atômica da Sessão da Tarde?

Você pode estar se perguntando: “Se o filme é essa porcaria toda, por que você gastou mais de mil palavras falando sobre ele?”. A resposta é simples e sincera: porque “Fúria de Titãs 2” é uma cápsula do tempo de uma era peculiar do cinema, onde os estúdios achavam que qualquer franquia podia ser transformada num parque de diversões digital, e o público, ingênuo, ainda caía nessa armadilha com gosto.

O filme é um desastre magnético. Quando você zapeia os canais de TV a cabo num sábado chuvoso e tropeça nessa joia do constrangimento, é impossível desviar o olhar. Você quer ver até onde a loucura visual vai chegar. Você quer testemunhar Ralph Fiennes invocando lava com as mãos enquanto grita frases de efeito. Você quer rir da seriedade com que Sam Worthington encara um cavalo alado digital. É o prazer culposo em estado puro. Não é um filme “tão ruim que fica bom” no estilo “The Room” — não, ele é caro demais para ser involuntariamente cômico. Mas é tão exagerado, tão desprovido de ironia e tão sinceramente comprometido com a sua própria tolice que se torna hipnótico.

O Legado de um Titã Ferido

O plano original da Warner era uma trilogia. Esse plano foi para o ralo do Tártaro junto com Cronos. “Fúria de Titãs 2” encerrou a saga de Perseu de forma melancólica, não por causa do final do filme — que, vejam só, termina com uma reviravolta onde Perseu recusa virar um deus para viver como humano, um desfecho até poético —, mas porque as contas simplesmente não fecharam.

O maior legado do longa, no fim das contas, foi servir de alerta. Ele é o exemplo máximo de que efeitos visuais e um elenco estelar não salvam um filme sem coração. Ao mesmo tempo, é uma prova de resistência do cinema-pipoca. Assistir a “Fúria de Titãs 2” é uma experiência sensorial extrema, quase um esporte radical para cinéfilos. Ele nos lembra que, por trás de cada cena deslumbrantemente feia, existe um exército de artistas de efeitos visuais sobrecarregados, atores constrangidos e produtores que, na ânsia por dinheiro rápido, esqueceram o principal: ninguém reza para um deus que não conta uma boa história.

E aí, da próxima vez que o filme aparecer na grade da televisão, você vai passar reto? Ou vai se render ao caos, apertar o play e pensar: “É hoje que eu vejo o Ralph Fiennes botar fogo no mundo com gel no cabelo”? Eu sei qual é a minha escolha. Porque, no fundo, a gente ama ver titãs tropeçando. Ainda mais quando eles tropeçam em uma mina de ouro de efeitos especiais questionáveis e atuações em modo turbo. Solta a pipoca e abraça o caos.

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