Dica de Cinema

O Dia em Que James Bond Foi Longe Demais (e a Gente Amou)

O Dia em Que James Bond Foi Longe Demais (e a Gente Amou)

Tem filmes do James Bond que a gente assiste e pensa: “Tá, esse é um clássico do gênero, elegância, martini, tiro no peito e vilão excêntrico”. E tem Com 007 Só Se Vive Duas Vezes. Esse aqui é diferente. É o momento em que a franquia olhou pro abismo, decidiu pular de paraquedas e gritou “Banzai!” no meio da queda. Quinto filme da série, lançado em 1967, ele não é só uma aventura do agente secreto mais famoso do mundo.

É um delírio geopolítico com direito a nave espacial engolindo nave espacial, um vulcão que mais parece um condomínio de luxo do crime e Sean Connery tentando se passar por japonês. Sim, você leu certo. E o mais maluco de tudo? Funciona. Funciona tanto que definiu a estética do que a gente entende por “filme do 007” pelas décadas seguintes, mesmo sendo, na real, um dos capítulos mais bizarros de toda a saga.

O mundo em 1967: quando a paranoia espacial vendia ingresso

Pra entender o tamanho da insanidade que é esse filme, você tem que voltar no tempo. A Guerra Fria tava fervendo. Em 1966, a União Soviética tinha acabado de pousar a sonda Luna 9 na Lua e os Estados Unidos tavam suando frio pra cumprir a promessa do Kennedy de botar um americano por lá antes do fim da década. O espaço era o novo Velho Oeste e todo mundo tava de olho. A Corrida Espacial não era só ciência, era propaganda armada. Nesse caldeirão de medo nuclear e fascínio por foguetes, Ian Fleming lançou o livro You Only Live Twice em 1964 — e, olha, era a última obra publicada em vida pelo autor, que morreria meses depois. O roteiro do filme, escrito por ninguém menos que Roald Dahl (sim, o mesmo cara que escreveu A Fantástica Fábrica de Chocolate), jogou o enredo do livro quase todo no lixo. Manteve só o cenário japonês, o vilão Ernst Stavro Blofeld e seu jardim de suicidas venenosos. Dahl, que era amigo pessoal de Fleming, confessou depois que achou o livro uma porcaria e decidiu reescrever tudo do zero. A produtora Eon, nas figuras de Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, topou o risco. E que risco.

Sean Connery já tava de saco cheio (e isso transparece, mas de um jeito estranhamente magnético)

Vamos abrir o jogo: Sean Connery não queria mais saber de James Bond. A fama explodiu depois de Goldfinger e Thunderball, e ele tava sufocado. Não conseguia andar na rua sem ser perseguido, odiava ser confundido com o personagem e tava num pé de guerra com os produtores por conta de salário e condições de filmagem. Ele só aceitou fazer Só Se Vive Duas Vezes porque recebeu uma bolada (algo em torno de 750 mil dólares, mais porcentagem da bilheteria) e a promessa de que seria seu último filme na franquia — o que, claro, não se cumpriu de imediato, mas essa é outra história. O fato é que dá pra sentir no ar um certo cansaço do Connery. Só que, em vez de atrapalhar, essa fadiga deu ao Bond do filme uma camada de amargor e ironia que combina perfeitamente com um cara que finge a própria morte no começo da trama, é “enterrado” no mar por um submarino britânico e volta disfarçado de pescador japonês. Ele não tá mais se divertindo. E a gente, por algum motivo, se diverte horrores com isso.

A cena de abertura e a morte falsa: um choque que ninguém esperava
O filme começa com uma ousadia narrativa absurda pra época. Bond tá em Hong Kong e, de repente, é metralhado por capangas e cai morto numa cama. O público de 1967 deve ter entrado em pânico. A abertura dos créditos — com uma estética orientalizada, guarda-chuvas de papel, gueixas flutuando e aquela música-tema lindíssima da Nancy Sinatra — mostra um vulcão em erupção ao fundo, mas também exibe um caixão. A mensagem era clara: ninguém tá seguro. Só que, nos primeiros minutos pós-créditos, a gente descobre que era tudo armação do MI6 pra dar ao agente liberdade de ação. Um submarino emerge nas águas de Hong Kong, recolhe o corpo e… surpresa! Bond tá vivíssimo. Essa sequência é um marco porque estabelece o tom do filme: nada é o que parece, tudo é grandioso e a lógica convencional pode tirar férias.

O desaparecimento das naves: uma trama que hoje soa quase documental

A história, no papel, é assustadoramente simples. Uma nave americana, a Jupiter 16, some no espaço. Os EUA culpam a União Soviética. Pouco depois, uma nave soviética também é engolida por uma “boca” metálica no meio do nada. Cada superpotência acha que a outra tá blefando e armando um ataque. O mundo tá a um passo da Terceira Guerra Mundial. Enquanto isso, o serviço secreto britânico descobre que a tal nave-fantasma caiu, na verdade, em algum ponto do Mar do Japão. E quem tá por trás dessa bagunça? A SPECTRE, liderada por um cara careca de gola rulê que acaricia um gato branco como se fosse a criatura mais preciosa do universo. Ernst Stavro Blofeld, interpretado pela primeira vez de forma completa e visível por Donald Pleasence, é o cérebro do esquema. Ele sequestra as naves com um foguete próprio — o Bird 1 — pra forçar um conflito nuclear entre EUA e URSS e, no fim das contas, oferecer paz às nações aterrorizadas, em troca de poder absoluto. Clássico plano de vilão: cria o caos, vende a solução. O que assusta é como, cinquenta e tantos anos depois, a desinformação e a manipulação de narrativas globais continuam sendo armas tão potentes. O filme, involuntariamente, fez um retrato do que seria a guerra híbrida muito antes de o termo existir.

A base secreta no vulcão: o ápice do design de produção e da megalomania

Chegamos ao coração estético do filme. Se você pensa em base secreta de vilão do James Bond, a imagem que vem na sua cabeça é, quase certamente, a cratera do vulcão de Só Se Vive Duas Vezes. O designer de produção Ken Adam — que já tinha criado o Fort Knox de Goldfinger e a sala de guerra de Dr. Fantástico — se superou. Ele construiu, dentro do estúdio Pinewood, na Inglaterra, um set tão colossal que dava pra ver do espaço (exagero, mas quase). Foram mais de 630 toneladas de andaimes de aço, um telhado móvel de 200 toneladas e um monorail funcional pra transportar os capangas. O custo do set, sozinho, foi de um milhão de dólares em valores da época — uma fortuna. Quando a equipe visitou vulcões de verdade no Japão pra se inspirar, Adam percebeu que não daria pra filmar lá dentro e decidiu criar o próprio. O resultado é de cair o queixo até hoje: uma laje de metal retrátil que esconde uma plataforma de lançamento de foguetes, um centro de comando circular com telas gigantes, helicópteros minúsculos (os “Little Nellie”, que falaremos já já) e aquele fosso cheio de piranhas onde Bond quase vira ração. É kitsch? É. Mas é um kitsch monumental, que influenciou praticamente todos os filmes de espionagem e ação das décadas seguintes. Austin Powers praticamente deve sua existência a esse set.

Little Nellie: um autogiro armado até os dentes e a batalha aérea mais insana da franquia

Antes da invasão final ao vulcão, Bond faz um reconhecimento aéreo usando o veículo mais improvável da história do cinema: um autogiro desmontável apelidado de Little Nellie, armado com lança-chamas, metralhadoras, minifoguetes e bombas aéreas. A máquina era pilotada de verdade pelo Wing Commander Ken Wallis, um veterano da RAF que construiu o próprio autogiro e insistiu em pilotá-lo pessoalmente em todas as cenas. As filmagens foram feitas sobre o Monte Aso e a região de Kagoshima, com o ator enfrentando turbulências reais. O combate contra quatro helicópteros da SPECTRE é de uma beleza plástica absurda, com montanhas ao fundo e a trilha sonora de John Barry elevando tudo a um nível quase operístico. E tem um detalhe que ninguém comenta: a edição de som dessa sequência é primorosa. Cada foguete que sai das asas de Little Nellie tem um chiado metálico seguido de um trovão grave que faz o cinema inteiro vibrar. É pura imersão sensorial. Em 1967, sem CGI, aquilo era quase mágica.

A transformação de Bond em japonês: o ponto mais polêmico e desconfortável do filme

Não dá pra fazer uma análise honesta de Só Se Vive Duas Vezes sem parar nessa cena. Depois de se aliar ao chefe do serviço secreto japonês, Tiger Tanaka, Bond precisa se infiltrar numa vila de pescadores disfarçado. A solução do roteiro? “Vamos tornar o Sean Connery japonês.” E aí acontece aquilo que, olhando com os olhos de hoje, causa um embrulho no estômago. Maquiagem pesada pra esticar os olhos, aplique de cabelo preto liso, uma tentativa grotesca de mudar até a postura corporal. A transformação é bizarra, ineficaz e etnicamente constrangedora. O próprio Connery, nos bastidores, odiou a ideia. Ele reclamou que a cola da maquiagem ardia, que a peruca coçava e que se sentia um idiota. Ainda assim, o filme leva isso a sério e faz de conta que ninguém nota que aquele japonês tem 1,88 m de altura, ombros de nadador olímpico e sotaque escocês mal disfarçado. É um exemplo clássico do orientalismo sem freio que Hollywood praticava sem o menor pudor. Não dá pra passar pano. A cena tá lá, é parte do filme, e é importante que a gente olhe pra ela com senso crítico, reconhecendo o quão problemática é, em vez de fingir que não aconteceu.

As bond girls: Aki, Kissy Suzuki e um tratamento que mistura exotismo e agência feminina

O filme tem duas bond girls principais. Aki, vivida por Akiko Wakabayashi, é a assistente de Tiger Tanaka. Ela dirige um Toyota 2000GT conversível (um carro feito especialmente pro filme, já que a versão cupê não cabia o Connery), é esperta, salva Bond de assassinos mais de uma vez e tem uma química real com o protagonista. Infelizmente, ela é envenenada no meio da trama e morre dormindo ao lado de Bond, uma morte anticlimática e meio covarde que o roteiro joga como se fosse um detalhe qualquer. Kissy Suzuki, interpretada por Mie Hama (que originalmente faria o papel de Aki, numa troca de atrizes de última hora por causa de dificuldades com o inglês), assume a reta final. Ela é a “esposa de mentira” de Bond na vila de pescadores e ajuda na infiltração. A personagem tem poucas falas, mas é fisicamente ativa e participa da ação no vulcão. O curioso é que, no livro, Kissy é uma mergulhadora habilidosa, uma ex-estrela de Hollywood que volta pro Japão e tem uma profundidade emocional que o filme simplesmente ignora. O filme prefere mostrá-la de biquíni branco, com uma concha na mão, correndo pela praia. É o arquétipo da exotização da mulher oriental, tão comum na época, mas que felizmente o cinema atual tem aprendido (a duras penas) a desmontar.

Tiger Tanaka e o serviço secreto japonês: o verdadeiro co-protagonista

Tiger Tanaka, interpretado por Tetsuro Tamba, é um dos melhores aliados de Bond em toda a franquia. Chefe do serviço secreto japonês, ele é inteligente, irônico, tem recursos quase ilimitados e não se intimida nem um pouco diante do agente britânico. A relação entre os dois é de respeito mútuo, temperada com uma competitividade saudável. Quando Bond pergunta se ele pode contar com o apoio japonês, Tanaka responde com um sorriso malandro: “Meu caro Bond, o Japão tem o maior serviço secreto do mundo… só que ninguém sabe disso.” É uma tirada genial que resume o personagem. O treinamento ninja que ele ministra pra Bond — um segmento que mistura artes marciais, infiltração e filosofia oriental — poderia ter sido um desastre caricato, mas Tamba o interpreta com tamanha seriedade que a gente embarca na viagem. A invasão final ao vulcão, com dezenas de agentes ninjas descendo de rapel pelas paredes da cratera enquanto a SPECTRE tenta lançar o Bird 1, é uma das sequências de ação mais grandiosas e bem coreografadas dos anos 1960. Sem exagero: o clímax desse filme é um balé de explosões, tiros, fumaça e capangas caindo na piscina de piranhas que merecia ser estudado em escolas de cinema.

Blofeld finalmente aparece: Donald Pleasence e o nascimento de um ícone

Até então, Blofeld era uma figura nebulosa. A gente via só suas mãos acariciando o gato branco, ou sua silhueta, ou a nuca. Em Só Se Vive Duas Vezes, a máscara cai. E a escolha de Donald Pleasence pro papel é uma das mais acertadas da história da franquia. Com sua voz calma, quase sussurrante, seu olhar vazio e uma cicatriz que corta o rosto, ele não é um vilão espalhafatoso. É um sociopata burocrático. Ele oferece um conhaque a Bond enquanto explica, com detalhes, que pretende exterminar milhões de pessoas pra se tornar o “senhor do mundo”. A frieza com que ele mata seu capanga Osato, que falhou na missão de eliminar Bond, jogando-o na piscina de piranhas como quem descarta um papel amassado, é aterrorizante justamente pela naturalidade. Blofeld se tornou o arquétipo do vilão de organização secreta global, com base exótica e exército particular, que seria copiado à exaustão. Austin Powers fez uma sátira tão fiel que muita gente só consegue pensar no Dr. Evil ao ver Pleasence, mas o original continua arrepiante.

A trilha sonora de John Barry: poesia orquestral com alma japonesa

John Barry já tinha feito milagres em Goldfinger e Thunderball, mas em Só Se Vive Duas Vezes ele foi além. A trilha mescla metais estridentes, cordas dramáticas e instrumentos tradicionais japoneses como o koto e o shakuhachi de forma tão orgânica que você nem percebe a fusão. O tema principal, cantado por Nancy Sinatra com arranjo de cordas que parecem ondas do mar batendo num penhasco, é uma das canções mais bonitas da série — e olha que a concorrência é pesada. A letra fala em “não pensar no perigo, pois o amor é uma jornada que vale a pena”, e a voz de Sinatra, doce mas com um quê melancólico, dá um subtexto emocional que o filme, na superfície, nem sempre sustenta. A faixa “Capsule in Space”, que embala a sequência da nave engolindo a outra, é um primor de tensão espacial, com metais que imitam alarmes e um ritmo crescente que faz o coração acelerar. É o tipo de trilha que você pode ouvir isolada e ainda assim sentir o drama todo.

O carro que não era um Aston Martin e a importância dos brinquedos de Bond

Pela primeira vez na série, Bond não dirige um Aston Martin. O carro principal do filme é o Toyota 2000GT conversível — e isso não foi por acaso. A Toyota fez um acordo de product placement pesado, vendo no filme uma vitrine global pra sua engenharia. O 2000GT era um carro tão avançado pra época que rivalizava com Porsche e Jaguar. A versão conversível foi feita exclusivamente pro filme, porque o teto do cupê era baixo demais pro Connery. Esse movimento marcou o início da relação simbiótica entre James Bond e as montadoras, que viraria padrão nos filmes seguintes. Mas não é só o carro que brilha. Tem o autogiro Little Nellie, o foguete Bird 1 e o helicóptero magnético que a SPECTRE usa pra abocanhar a cápsula espacial soviética. Só Se Vive Duas Vezes inaugurou a era dos “brinquedos” grandiosos, aqueles veículos e dispositivos que são quase personagens. Se antes Bond tinha uma maleta de truques e um carro com assento ejetor, aqui a escala explode pro nível de ficção científica. É o embrião do que viria a ser o Bond de Roger Moore, muito mais apoiado em gadgets e veículos mirabolantes.

A recepção da crítica e o impacto cultural: por que tanta gente torce o nariz e mesmo assim o filme é fundamental

Quando estreou, em junho de 1967, o filme dividiu opiniões. A crítica especializada estranhou o tom “cartunesco” e a saída do realismo mais seco dos primeiros filmes. Alguns chamaram de “auto-paródia”, outros de “exagero vazio”. A bilheteria, porém, foi estrondosa: arrecadou mais de 111 milhões de dólares no mundo todo (contra um orçamento de cerca de 10 milhões), foi o filme mais rentável do ano e manteve a febre Bond no auge. O público adorou. E por que adorou? Porque, no fundo, Só Se Vive Duas Vezes encapsulou o espírito escapista da época. Num mundo apavorado com a possibilidade de aniquilação nuclear, ver James Bond invadir um vulcão, explodir o esconderijo do vilão e salvar o planeta com a ajuda de ninjas era catártico. O filme opera num registro quase mitológico, onde o herói é invencível, o mal é absoluto e tudo acaba numa praia deserta com a bond girl numa balsa inflável. É uma fantasia tão descarada que se torna irresistível.

Curiosidades que fazem a gente amar ainda mais (ou ficar de queixo caído)

Vamos a um bloco rápido de fatos que merecem ser conhecidos:

Roald Dahl odiava o produtor Harry Saltzman e só aceitou o trabalho porque achou que seria divertido e porque respeitava Ian Fleming, apesar de detestar o livro.

O ator que fazia Blofeld, Donald Pleasence, aceitou o papel em cima da hora porque o ator original, Jan Werich, foi considerado “muito bondoso e benigno” pelo diretor Lewis Gilbert. Werich chegou a gravar cenas, mas sua aparência de “Papai Noel do mal” não convenceu ninguém.

Sean Connery foi assediado por um stalker japonês durante as filmagens. Um homem conseguiu entrar no banheiro do hotel e tentou fotografá-lo, exigindo tirar uma foto “em troca” de deixá-lo em paz. Connery, furioso, partiu pra cima do sujeito, que fugiu. A segurança foi reforçada.

O gato de Blofeld era um gato de verdade e, segundo relatos, era extremamente arisco. Donald Pleasence tinha dificuldade em segurá-lo, e em várias cenas o gato tá visivelmente tentando pular do colo.

O filme foi proibido em vários países árabes na época por mostrar, numa cena rápida, uma garrafa de bebida com caracteres árabes no esconderijo de Bond, insinuando que o mundo islâmico estaria envolvido com a SPECTRE. A produção teve que se desculpar e remover a cena em algumas versões.

A frase do título, “You Only Live Twice”, é um haikai que Fleming incluiu no livro, atribuído ao poeta japonês Matsuo Bashō. Na verdade, o haikai é uma invenção do próprio Fleming — e virou parte da cultura pop.

Kissy Suzuki, na história original do livro, engravida de Bond e tem um filho que o agente jamais conhece. O filme, obviamente, ignorou completamente esse desfecho sombrio e complexo.

O legado que vai muito além do ridículo e do sublime

O que fica depois de revisitar Com 007 Só Se Vive Duas Vezes? Fica a certeza de que é um filme impossível de ignorar. Ele não é o melhor Bond — a maioria dos fãs coloca Cassino Royale, Goldfinger ou A Espiã que Me Amava no topo. Mas é, muito provavelmente, o mais influente em termos de escala, design de produção e iconografia. Sem esse filme, não existiria a ideia de “base secreta dentro de um vulcão” no imaginário coletivo. Sem ele, Blofeld não teria rosto. Sem ele, a fórmula do “vilão que quer dominar o mundo através de uma tecnologia apocalíptica” não estaria tão consolidada. E, principalmente, sem ele a franquia talvez nunca tivesse abraçado com tanta coragem a sua própria megalomania. É uma obra que aceita o ridículo como parte do charme, que não tem medo de ser cafona, que aposta todas as fichas no espetáculo. E quando a trilha da Nancy Sinatra começa a tocar na cena final, com o mar ao fundo e o vulcão explodindo, é impossível não sentir uma ponta de nostalgia por um cinema que acreditava, sinceramente, que um homem de smoking podia salvar o mundo. E que, no fundo, a gente também acreditava.

COM 007 SO SE VIVE DUAS VEZES ELENCO

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