A Ditadura da Maioria ou a “Conformidade” com o Grupo

conforba topo1Por Maria Ester Rodrigues, 11/03/2012 - Um tema recorrente em Psicologia Social é a influência dos pares nos comportamentos privados e públicos das pessoas. Experimentos com resultados desconcertantes (Asch, Solomon; 1951, 1955, 1956; Milgram, Stanley; 1963, 1974a, 1974b entre outros) demonstram que os indivíduos, em alguns casos não sem a presença de certo conflito interno, podem falar e fazer coisas que sabem francamente estar erradas ou sob as quais pairam sérias dúvidas internas, pelo aparente desejo de fazerem parte de um grupo, serem aceitas socialmente e obedecerem às figuras de autoridade.

Tais experimentos foram realizados por psicólogos que não se inserem numa tradição analítico-comportamental e, portanto, seus resultados não são interpretados de acordo com tal referencial, mas por serem clássicos da Psicologia Social não deixam de ser uma referência a ser analisada sob diferentes vertentes de interpretação. Uma possível explicação para os fenômenos analisados é que, pelo fato de sermos criaturas sociais/gregárias, temos o desejo inerente de sermos aceitos pelo grupo no qual estamos inseridos, então modificamos nosso comportamento para harmonizá-lo com os do grupo. Frequentemente nos conformaríamos a uma ação qualquer, mesmo sabendo estar errada, pelo desejo de fazer parte do grupo. A diferença principal entre os experimentos de Asch e Milgram é que, no segundo caso, os indivíduos realizavam uma ação que, em circunstâncias cotidianas violaria seus princípios (aplicação de choques em intensidade crescente em outro sujeito), por ser ação autorizada e aprovada por alguém que consideravam uma autoridade.

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No caso do experimento de Asch, o desejo de sermos aceitos superaria o desejo de agirmos em conformidade com o que estamos vendo e experienciando, o que nos faria passar a ver e experienciar o que está em conformidade com o grupo. No caso do experimento de Milgram, indo além, poderíamos chegar a fazer o que viola os nossos princípios e os nossos valores. É como se, no primeiro caso, o desejo de fazer parte do grupo suplantasse a informação dada pelos sentidos, numa total negação do real e, no segundo caso, suplantasse também o que consideramos correto num sentido moral. Isso aconteceria mesmo quando não acreditássemos no que estivéssemos dizendo ou fazendo, seja parcial ou totalmente; bem como quando o que fizéssemos violasse o nosso bom senso.

Na análise do comportamento um dos recursos conceituais para explicar o fenômeno seria o do comportamento governado por regras e o modelado por contingências. Um indivíduo que tenha tido o comportamento de seguir regras dadas socialmente fortemente reforçado desde a tenra infância, certamente terá maior probabilidade de continuar a segui-las mesmo em situações de incerteza sobre a veracidade ou utilidade das mesmas. Já um indivíduo mais guiado pelas contingências, seria o resultado de contingências que o colocaram mais frente a incongruências no seguimento de regras (regras que se mostraram falsas) do que frente à reforçamento (regras que se mostraram corretas ao especificarem contingências). A história passada de reforçamento explica, portanto, a maior ”tendência” a seguir regras ou a se deixar guiar pelas contingências . E no caso dos indivíduos que concordam com o incongruente e com o absurdo pela mera conformidade ao grupo e à autoridade, mesmo tendo CERTEZA de que a ação está ERRADA, tal como nos experimentos clássicos de Asch (percepção visual) e de Milgram (aplicação de choques elétricos)? Ou num experimento hipotético em que o sujeito sabe claramente que não está declarando o que está ouvindo (percepção sonora) e sim o que os demais declaram ouvir, mesmo sabendo que tal ação pode prejudicar outrem (no qual teríamos uma espécie de junção de ambos os experimentos…)?

Poderíamos questionar quais consequências sofremos, desde o início da vida, em fazer ou falar coisas que não são as que o grupo faz e diz, ou que figuras de autoridade solicitam que seja feito. Todos temos história de reforçamento social por agirmos em conformidade com o grupo, e de punição por não seguir. No caso de habitualmente termos seguido no passado regras que mostraram especificar de fato contingências, a sensibilidade às regras pode aumentar ainda mais. Grupos os mais diversos frequentemente possuem um código interno (práticas culturais ou subculturais) que não tolera divergências e penaliza com uma sequência crescente de medidas coercitivo-punitivas que podem chegar à exclusão sumária dos diferentes e não concordantes. Em alguns casos não há tolerância crescente e a primeira medida com o diferente já é a exclusão do grupo.

A sensibilidade às regras é solução para muitos problemas, como a evitação de consequências aversivas em situações em que fatalmente (com o perdão do trocadilho) nos exporíamos a elas caso nos deixássemos guiar apenas pelas contingências (como a de aprender a olhar para os lados ao atravessar a rua pelas contingências e não pelas regras…). Ou ainda, no caso das situações em que a consequência aversiva é muito demorada, embora certa. Por outro lado, isso justificaria a cega obediência a regras em qualquer outra situação? Em outras palavras, devemos sempre concordar com a maioria por ser maioria ou com a autoridade por ser autoridade? Num regime democrático pode-se dizer que sim! Ou seja, fazer parte de um grupo implica em ter que aceitar regras por ele impostas, os governantes eleitos pela maioria, bem como práticas culturais as mais diversas (mesmo que por absurdo sejam!). Todavia, a despeito do grupo ser soberano politicamente, ele também erra, podendo errar “feio”. Um clássico exemplo é o dos governantes eleitos serem corruptos e ineficientes (e frequentemente são); das práticas culturais selecionadas ao longo de milhares de anos em circunstâncias muito diferentes das atuais resultarem em regras parcial ou totalmente falsas; de se hipergeneralizarem circunstâncias ou minimizarem-se outras etc. Em suma, o erro do grupo pode nos colocar numa situação de perigo maior ou menor. Mas qual o perigo maior? Negar a minha percepção (incluindo a sensorial, como no experimento clássico de Asch) e o resultado do meu processamento de informações ou ser discriminado/rejeitado/excluído pelo grupo?

Isso me oferece ocasião para lembrar de um vídeo assistido há muito tempo na TV a cabo, na mesma linha de experimentos em psicologia social, iniciados na década de 1950 acerca da influência do grupo e da autoridade: no vídeo assistido um sujeito experimental era colocado numa sala com algum pretexto junto a atores, via fumaça passar por debaixo de uma porta lateral, mas permanecia na sala pelo simples fato dos outros presentes também permanecerem. Aceitar uma ação que se sabe estar errada ou que pode nos ser prejudicial (ou a outrem), para ser parte de um grupo, pode ser algo simples para alguns ou; por inúmeras razões, extremamente conflituoso para outros. Consultórios psicológicos estão cheios de exemplos de tais conflitos.

Outro princípio democrático que não o da conformidade com a maioria, o da liberdade de expressão, contraditoriamente professa termos o direito de aderir e expressar crenças, credos, ideologias, valores etc. Mas todos sabem que o preço a pagar por ser, pensar e agir diferente pode ser alto. Se não existe um mundo diferente e temos de viver nesse, devemos nos conformar a ele. Devemos? Sim, mas preferencialmente nos perguntando se as regras em questão são realmente úteis a nós ou mesmo ao grupo, em quais circunstâncias e se a aplicação das mesmas em alguns casos não resulta em mera incoerência ou obediência cego-acrítica. Desenvolver raciocínio crítico e coerente, relativizando conceitos e ações e, ao mesmo tempo obedecendo ao grupo, às autoridades e sendo aceito pelos demais pode não ser tarefa sempre fácil, mas, como já dizia Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é sempre burra”. Portanto, desconfiemos e questionemos sempre. E viva a diferença, pois sem variabilidade não há evolução em nenhum aspecto, nem na pessoal e nem na do grupo, nem na biológica e nem na das práticas sócio-culturais.

Referências e sugestões de textos e vídeos:
Asch, S. E. (1951). Effects of group pressure upon the modification and distortion of judgment. In H. Guetzkow (ed.) Groups, leadership and men. Pittsburgh, PA: Carnegie Press.
Asch, S. E. (1955). Opinions and Social Pressure, Scientific American, 193, 31-35.
Asch, S. E. (1956). Studies of independence and conformity: A minority of one against a unanimous majority. Psychological Monographs, 70 (Whole no. 416).
Fernandes, Fernando Ferreira (2012). Comportamento governado por regras versus modelado por contingências. Em https://comportese.com/search?q=comportamento+governado+por+regras
Gedrose, Alexandra. Five Psychological Experiments that Prove Humanity is Doomed. In http://www.cracked.com/article_16239_5-psychological-experiments-that-prove-humanity-doomed.html
http://www.panarchy.org/asch/social.pressure.1955.html
Solomon Asch – Aceitação do errado por conformidade ao grupo. http://www.youtube.com/watch?v=SSLW2Ar_jJY
Milgram, Stanley (1963). Behavioral Study of Obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, 67 (4): 371–8.
Milgram, Stanley (1974a). Obedience to Authority; An Experimental View. Harpercollins. ISBN 0-06-131983-X. http://books.google.com/books?id=MlpEAAAAMAAJ.
Milgram, Stanley (1974b). “The Perils of Obedience”. Harper’s Magazine. http://home.swbell.net/revscat/perilsOfObedience.html. Abridged and adapted from Obedience to Authority
Milgram’s Obedience to Authority Experiment 2009 1/3. In http://www.youtube.com/watch?v=BcvSNg0HZw
Psyblog Understanding your mind. Conforming to the norm. In http://www.spring.org.uk/2007/11/i-cant-believe-my-eyes-conforming-to.php

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Como a conformidade social pode afetar os negócios

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2016, Eli Rodrigues - A conformidade social é a alteração de comportamento e crenças de uma pessoa em decorrência da pressão de grupo. Elas podem ser realizadas pelos membros do grupo ou por seu líder e tomam forma, por exemplo, através da repressão de um comportamento, a censura de opiniões, ações físicas ou psicológicas. Se pensarmos a respeito, veremos que a família, a escola, a igreja e a comunidade em geral nos direcionam a comportamentos muito similares aos demais membros do grupo, ou seja, nos levam à conformidade social. Muito do que somos e acreditamos é fruto do meio onde vivemos. Se nossa família é receptiva a visitantes, também nos tornamos; se é mais fechada, assim nos tornamos também. Se a sociedade onde vivemos valoriza o sucesso financeiro, é isso que vamos buscar; se, em contrapartida, valoriza a evolução espiritual e o humanismo, também nos encaminharemos nessa direção. É um fenômeno social inconsciente e inevitável. E sempre que decidimos romper com um grupo, acabamos nos juntando a outro grupo, ficando novamente sujeitos à sua conformidade.

Conflito e Acomodação

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Quando uma nova empresa ou projeto se iniciam, os membros entram em conflito, cada membro buscando o seu lugar. Essas pessoas tentam se destacar conforme suas habilidades, testando uns aos outros até descobrirem quem é o líder, quem é o habilidoso, o sábio e outros estereótipos comuns.

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Depois de um certo tempo, se poderá observar que houve um ajuntamento e as pessoas passam a se comportar de forma mais similar, acomodam-se, cada um na sua função. Se a cultura vigente for chegar e sair mais tarde, aqueles que não se comportam dessa forma serão reprimidos até que se adaptem. Se a cultura for mais submissa, da mesma forma acontecerá etc.

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Se esta empresa começar a interagir com outras empresas, por qualquer motivo que seja, novos grupos se formarão. Alguns, serão mais adaptados ao cliente X, outros ao jeito de ser do fornecedor Y e haverá, certamente, um novo conflito, agora organizacional.

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Depois de um certo tempo, todo o bloco se comportará de forma similar. Seja este bloco um grupo empresarial, um grupo de amigos ou uma cidade, foi estabelecida a conformidade.

Conformidade e Normalidade

O comportamento vigente pode ser uma criação conjunta ou estabelecido por um líder, mas só estará completamente instituído quando a maioria estiver conforme. O hábito de nos compararmos é tão fortemente enraizado em nosso inconsciente que até quando vamos procurar um hotel pela Internet somos influenciados pelas opiniões dos outros, ainda que sejam desconhecidos, por isso o sucesso de sites que mostram opiniões como comparativo. Não apenas os humanos, mas todos os animais que vivem em sociedade, têm necessidade de descobrir o que é “normal” e isso se avalia através da frequência.

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Na Estatística, a curva Normal mostra a frequência de ocorrências de um determinado evento. Nela, é possível identificar que “normalmente” os eventos tendem a um ponto central, deixando aos extremos (abas), os comportamentos diferentes.

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Se isso lhe parecer estranho demais, observe o gráfico de variação do índice Bovespa de 2000-2014 (acima) e veja como o comportamento de grupo influencia a economia. Quando uma certa quantidade de pessoas começa a comprar ações, os demais também compram, quando começa a vender, os demais também vendem. O mesmo está acontecendo com o Brasil em 2015-16, ao perceber que um concorrente aumentou seus preços, todos aumentam também e isso gera a inflação. Ao perceber que todas as pessoas próximas reduziram suas compras, independente do motivo, todos param de comprar também, gerando a recessão.

Cultura Organizacional

A cultura organizacional é o conjunto de crenças e valores de uma empresa. Como as empresas são formadas por pessoas e a normalidade não significa a totalidade, sempre há pessoas que não se engajam totalmente naquela cultura.

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No entanto, em qualquer avaliação de engajamento, sempre se perceberá que apenas 70% das pessoas estão realmente adaptadas (se puderem responder anonimamente, é claro, senão, será um percentual muito maior). Isso corrobora o conceito dos 3 sigma, 68,26% das pessoas concordam em se comportar de determinada forma, é impossível agradar a todos. Mas, deixemos a estatística de lado e nos concentremos no comportamento.

Quando a conformidade se torna um problema?

A conformidade se torna um problema quando as pessoas se apegam demais àquele comportamento e fecham os olhos às mudanças de mercado. Não é raro ver os grupos (ou panelinhas) procurando agradar uns aos outros perigosamente. Enquanto a tecnologia e os modelos de negócios mudam, para não desapegar da conformidade, a empresa continua se comportando da mesma forma. Acontece que o concorrente pode estar numa conformidade um pouco maior e acabar se adaptando primeiro, o que faz com que tome contratos/negócios da empresa que não se adaptou. Como diz a frase atribuída a Darwin (embora haja controvérsias sobre sua autoria):

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

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Se a alta direção se conscientiza que é preciso mudar, ocorre o segundo problema. As pessoas que trabalham naquela empresa já se adaptaram à cultura vigente e não estão dispostas a mudar, farão resistência ativa e passiva para evitar que o status quo se modifique, ainda que isso prejudique a empresa em médio-longo prazo.

O desafio reside em transmitir a nova mensagem numa frequência tão alta que as pessoas percebam que a nova conformidade é inevitável. Por isso, fazem-se reuniões de conscientização, jogos, apresentações de metas e resultados, apresentando exemplos (heróis) etc. No entanto, nosso inconsciente não se atém às palavras, é preciso que a liderança efetivamente se comprometa com a nova cultura no dia a dia, balizando suas ações e decisões pelo novo jeito de ser. A conformidade, associada ao condicionamento, pode ser uma excelente estratégia de modificação cultural, desde que haja um alinhamento verdadeiro entre o que se diz e o que se faz. Caso contrário, podem-se tentar implantar os mais nobres modelos de gestão e nada funcionará.

Fonte: https://www.comportese.com
           https://www.elirodrigues.com

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