Bullying - Parte 2

bulling4A violência repetitiva quase sempre é confundida - e até tratada com complacência - com brincadeira de mau gosto ou falta de disciplina, ignorando as graves consequências que podem causar vida afora. O limite, esclarece o psicopedagogo Nery Adamy, que desenvolve um trabalho de combate ao bullying no Colégio Marista de Natal, está em qual reação a “piada” provoca. “Se objetiva denegrir, humilhar, coagir, não deixa o outro bem, é bullying por mais sutil que seja”.  Esta sequencia de incômodos pode  gerar mudanças facilmente percebidas, como alteração de comportamento para mais agressivo ou de submissão, acompanhado  de pedido constante para mudar de colégio e desinteresse pelos estudos. Estão sempre assustadas, com medo, e buscam o isolamento, refletindo o sentimento de exclusão a que são submetidas.

Mas as consequências não param por aí. Mesmo nas idades mais tenras, o bullying pode acarretar distúrbios psicológicos, como depressão, síndrome do pânico e até tentativa de suicídio.

O agressor quase sempre são crianças sem limite, que já sofreram agressão, não tem atenção dos pais e o fazem para se impor perante um grupo ou porque isso faz parte da realidade em que vivem. “Quase sempre o problema começa em casa e é reproduzido em outros ambientes. Quem pratica não sabe outra forma de reagir”, lembra Nery. Se não “freado” a tempo, o agressor pode chegar à vida adulta com conflitos nos relacionamentos, dificuldades em trabalhar em equipe e sem capacidade para autocrítica.

Violência pode virar crime  contra honra

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei, de número 6.935/2010, que prevê sanções rigorosas para bullying praticado por adultos. Pela proposta, de autoria do deputado federal Fábio Faria (PMN-RN), o ato será definido como crime contra a honra, previsto no Código Penal (Decreto-lei 2.848/40). “Por ser a intimidação uma agressão à dignidade da vítima é adequado enquadrá-lo neste capítulo”, esclarece Faria.

O projeto prevê detenção de três meses a um ano e multa para os casos que resultam em agressão física. E se envolver preconceito de cor, etnia, religião, idade ou limitação física, a pena será ainda maior: reclusão de dois a quatro anos e multa.

A ideia, segundo o deputado, é inibir os trotes violentos promovidos na recepção aos novos alunos de universidades. “Ver a intimidação, humilhação, exposição a situações que colocam em risco a integridade física e emocional dos alunos me causam indignação e avaliei que seria oportuno termos uma legislação que trate esses casos rigorosamente”, disse.

Desde março, o projeto está na Comissão de Segurança Pública, com parecer favorável do relator, deputado Francisco Tenório. A aplicação e regulamentação dependem de instituições de segurança. E será debatido na Comissão de Constituição e Justiça, uma vez que prevê uma alteração no Código Penal.

Para o relator,   a proposição é uma iniciativa positiva, pois aprimora as ações de repressão aos comportamentos de intimidação presentes, em grande parte, no ambiente escolar. “É preciso tratar do tema sob dois pontos de vista não excludentes: o preventivo e o repressivo. No plano repressivo, a iniciativa do deputado Fábio Faria é de extrema importância, pois tipifica o crime de intimidação com as características do que se conhece por bullying”, completa Tenório.

Educador é peça fundamental

Não adianta, todo ambiente escolar pode ter esse problema,  o papel dos educadores é fundamental, tanto no sentido de prevenir como de identificar e combater as ofensas. “Informação e diálogo são o caminho”, afirma a pedagoga Fátima Guilmo. Há mais de um ano, o Colégio Marista desenvolve a campanha “Bullying é muito sem noção”, que mostra o que é e como agir nestes casos. Fátima conta que não há como banir, mas reduzir consideravelmente. “Quando é identificado conversamos com a vítima e o agressor e o incentivamos a se colocar no lugar do outro e dizer como se sentem”, afirma.

Mas em tempos de banalização da violência, é preciso cuidado para não incentivar o revide e alimentar a prática, ressalta a pedagoga Simone Genro, vice-diretora da Escola Municipal Quarto Centenário, em Petrópolis.

A escola pública também conta com um trabalho de prevenção, que melhorou o rendimento e o convívio entre os alunos. O envolvimento da família é parte primordial para o resultado. Essa participação revela fatos e um histórico dos alunos, que colaboram para o acompanhamento. “É um processo de conscientização coletiva, de valorização e respeito ao outro, dentro e fora da sala de aula”. Uma situação corriqueira, nas escolas públicas é a relação calouros versus veteranos, onde os últimos se consideram superior e constrangem, xingam e agridem os mais novos. Contudo, a diretora e psicopedagoga Uyara Mesquita acredita que na rede privada os casos são mais frequentes devido o acesso à internet. “O bullying eletrônico é outro vilão que se alastra rápido, sendo mais difícil de controlar”. Na rede virtual, a prática se dá por mensagens com ameaças, xingamentos e difamação em sites de relacionamento e e-mail.

Embora caracterize um ato de violência, não há ações junto ao Ministério Público Estadual. Também não há dados precisos  na 3ª Vara da Infância e da Juventude, onde os casos chegam como ameaça, agressão corporal ou difamação.

Histórias de terror no dia a dia

O adolescente Márcio Oliveira, 14, durante três anos foi alvo dos colegas de classe de uma escola da rede privada de Natal. Alto, magro e tímido, o menino que sentava no fundo da sala era conhecido como “esqueleto humano” e enfrentava quase diariamente assédios do tipo “cuecão” (onde a peça íntima é puxada por cima da calça). A maldade chegou ao ponto de os alunos, da mesma faixa etária com quem convivia há alguns anos, fazerem votação para saber quantos o detestavam e o queriam fora da classe. O jovem reagia com o  silêncio e o choro. “Eu não sei o por quê, mas todos me odiavam. Diziam que tinham pena de mim porque era quieto”.  A situação diminuiu quando passou a deixar claro que não gostava das “brincadeiras”.

A dona de casa Maria Aparecida, 49, começou a suspeitar do comportamento do sobrinho, João Pedro, 12, que há dois anos veio da Bahia para morar com ela. No ano passado o garoto foi matriculado em uma escola pública do Conjunto Soledade II, onde mora, numa turma de estudantes desnivelados do 5º ano do ensino fundamental. Em média quatro anos mais novo que os demais, ele passou a ser perseguido por ser inteligente, esforçado e o menor da turma. “Chamavam ele de CDF, nerd, bobão, menino chorão e era comum estar com hematomas ou voltar com caderno, mochila ou lápis quebrados”, conta a tia. Inconformada com as agressões, Maria Aparecida procurou a direção da escola,  que a autorizou, durante  uma semana, a assistir aula ao lado do sobrinho. Pelo menos durante essa semana os agressores se sentiram intimidados.

Apesar de estudar hoje em outra escola, João Pedro se mantém reservado, com rejeição a crianças maiores do que ele  e, ao tocar no assunto, o terror é visível. O aluno gagueja, sua e as mãos começam a tremer. Acima do peso e falante, o estudante do 1º ano do ensino médio de uma tradicional escola particular, Fabrício Márcio, 15, também não se livrou da perseguição. Os apelidos vão de gordo a “Ronaldo Fenômeno”. “Ficam dizendo que falo besteira, que sou doido e às vezes não deixam eu participar dos jogos”. Para impedir as brincadeiras, passou a brigar no colégio e quase foi suspenso. “Nesta hora vi que até o professor estava contra mim, pois quis punir só a mim, por me defender”.

No caso de Anderson Fagundes, 15, o bullying culminou com a agressão física. Aluno de balé e ginástica aeróbica, e integrante de outra “tribo”, Anderson passou a ser conhecido como “emo nojento”, o “gay” e outros termos pejorativos. Apesar disso, o estudante conta que as chateações eram momentâneas e não mudaram o seu comportamento. “Não posso deixar de ser quem sou, porque alguém não está satisfeito”. Anderson tinha receio de contar em casa e os pais concordarem com os xingamentos. Buscou ajuda da escola e da família depois que as agressões passaram do limite.

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas.

Bate-papo:  Silvana Vieira  Psicóloga infantil

Como identificar se uma criança está sofrendo bullying?

O primeiro sintoma é a mudança de comportamento. São crianças que se trancam no quarto, não querem conversar, perdem o interesse por pessoas da mesma faixa etária. Ou um movimento contrário, de descontar ou fazer o mesmo com irmãos menores. Além de um repentino desinteresse pelos estudos. Por ocorrer na escola, é comum eles pedirem para mudar de colégio, criar resistência a ir a aula, como forma de se livrar do problema. O rendimento escolar diminui e isso se reflete nas notas. Estas mudanças apontam que algo não vai bem. Quando a criança diz o que está sofrendo, o assédio ocorre há muito tempo.

Se elas silenciam, como os pais devem agir quando um filho é vítima?

É uma situação delicada o bullying, mas uma conversa franca e o olhar mais apurado dos pais são o caminho. Acompanhar a vida dos filhos, observar se aparecem com machucados ou objetos quebrados com frequência e investigar as causas. As vítimas não se abrem por considerar “normal” a agressão ou mesmo acreditar que merecem, por serem “fora do padrão”. Os pais devem buscar a escola para tomar providências. Dependendo do caso, registrar queixa na delegacia. O resgate de valores também é fundamental. Se a conversa não resolver, terapia e acompanhamento profissional são necessárias.

A vítima pode desenvolver distúrbios psicológicos?

O problema está na intensidade destes eventos, como eles ocorrem e principalmente no desfecho da situação. Portanto, sintomas como síndrome do pânico, tremedeira, insônia, depressão ou mesmo tentar suicídio, podem ocorrer dependendo da estrutura da “vítima” e da intervenção dos responsáveis, escola e família.

E quando o agressor é o filho, o que fazer?


Conversar e avaliar junto ao filho o porque do comportamento, se é uma forma de chamar a atenção, se a criança está sendo vítima em outros contextos, se está reproduzindo o que observa em casa ou com outros parentes. Se aquele adulto - considerado  referência - contribui para essa atitude, e principalmente se quem pratica tem consciência do sofrimento provocado na outra pessoa.

Como é possível identificar o agressor?


O “agressor” não tem um perfil determinado. No caso das agressões físicas ou mais “explícitas”, quem provoca pode ter um comportamento mais rebelde, ter um poder de liderança e persuasão maior na turma. Aparentemente uma autoestima elevada, o que pode estar encobrindo uma necessidade de autoafirmação.

Se não for tratado na infância e adolescência, quais as consequências para a vida adulta?
No caso da vítima, o bullying afeta diretamente a autoestima e quando não é acompanhado, a criança pode acreditar que o que dizem dela é verdade e assumir aquela identidade e percepção negativa de si próprio. O que poderá refletir nos relacionamentos afetivos e até mesmo nas escolhas profissionais. No caso do agressor, ele pode continuar a ter dificuldades de trabalhar em equipe, de dialogar e repetir as situações de agressividade.

 

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bullying
http://gazetaweb.globo.com/
http://tribunadonorte.com.br/

 

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