Promessas e nada mais

promes2Sem mecanismos que permitam aos eleitores cobrar as promessas de campanha, os candidatos continuarão a defender propostas absurdas que não irão cumprir. Qual nuvens de gafanhotos, eles aparecem a cada biênio, invadindo nossas casas, praças, ruas e avenidas; muitas vezes, sem que haja tempo de acionarmos o controle remoto, entram até nos espaços dos comerciais, nos poucos programas bons de uma grade televisiva em que a qualidade não é o ponto forte. São os semeadores de promessas, à cata de um eleitorado que, forjado no fogo do desencanto e da falta de discernimento e compelido a votar, como gado ao som do berrante, parece cada vez mais indiferente. Há dois anos, foi a nuvem de promessas federais e estaduais; agora, é a das municipais…

Nossos avós, pais e professores bem que nos ensinavam que promessas são dívidas morais e enfatizavam que, uma vez empenhada a nossa palavra de honra, não devemos voltar atrás. Bons tempos, em que palavra, moral e honra eram parte dos costumes…

Encorajados por uma estapafúrdia legislação eleitoral que, oculta sob o escabeche de uma pretensa democracia, agride os mais elementares princípios democráticos, dos quais o primeiro é o da livre opção entre votar ou deixar de fazê-lo e assessorados por marqueteiros que conseguem transformar amargas mentiras em doces esperanças, eles prometem mundos e fundos a milhões de raimundos, cuja maioria, movida por uma espécie de sexto sentido, até consegue perceber suas verdadeiras intenções, mas não é capaz de esquadrinhá-las.

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Enquanto não instituirmos mecanismos que permitam aos eleitores cobrar as promessas de campanha, os candidatos continuarão a fazer promessas com todas as suas forças, para, uma vez empossados, descumprirem-nas com todas as suas fraquezas. O fenômeno é geral e enfeixa todos os partidos. Dissemos partidos? É melhor referirmo-nos a aglomerações de políticos, com interesses comuns bastante conhecidos, mas sem doutrinas, sem programas, sem consistência e sem consciência, o que explica o minueto allegro da troca de siglas. Antes das eleições, vendem fidelidade e coerência mas, uma vez colhida a semeadura, entregam uma mercadoria apodrecida pelas concessões aos valores mais fortes dos próprios interesses.

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Uma reforma que pretenda de fato moralizar nossa frágil democracia deve começar pela instituição de partidos programáticos, pela cláusula de fidelidade e pela adoção do voto distrital, tanto para que os eleitores possam deixar de votar meramente em pessoas, passando a poder escolher entre idéias, como para que possam estar mais próximos daqueles que ajudaram a eleger, o que lhes permitirá mais facilmente cobrar as promessas de campanha.

Sem uma reforma política que comece por aí – sempre procrastinada, por razões evidentes – os outros profundos requisitos exigidos, como as reformas tributária e da previdência, bem como a desburocratização, a profissionalização do funcionalismo público e o enxugamento dos gastos de custeio do Estado, jamais serão atendidos. Com isso, as necessidades de financiamento do setor público continuarão muito acima do desejável, o que obrigará qualquer Banco Central cujos diretores tenham o mínimo de responsabilidade a usar o instrumento da taxa de juros para exorcizar o fantasma da inflação, oferecendo açúcar para as moscas palpiteiras de sempre, propondo as pajelanças de sempre, cometendo os erros de sempre e agredindo a lógica econômica e a aritmética elementar, como sempre. Juros altos são puro reflexo de um Estado inchado, que, por sua vez, resulta diretamente do cacoete intervencionista crônico, nutrido por esse sistema político de partidos coringas, que se ajustam rapidamente a qualquer naipe que ocupe transitoriamente o poder.

Notas:

Publicado pelo
Jornal do Brasil, 27/09/2004.
por Ubiratan Iorio

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