Estudos Médicos da Indústria Farmacêutica são Feitos por Escritores Fantasmas

fanescri131/05/2016 - Embora as grandes revelações sobre a pesquisa científica fraudulenta da indústria farmacêutica tenha surgido anos atrás, a maioria das pessoas ainda não estão conscientes disso. Aqui está a verdade: As empresas farmacêuticas rotineiramente pagam empresas de relações públicas por estudos de ciências clínicas de escritores fantasmas que são publicados em revistas médicas e apresentam à FDA para “provar” que os medicamentos são seguros e eficazes. Mas é tudo uma farsa: Os estudos são pura ficção, engendrados por aquilo que é essencialmente marketing das empresas com o único propósito de obter drogas aprovadas, mesmo quando elas não funcionam ou são perigosas.

“Em 2009, cerca de catorze mil mulheres que desenvolveram câncer de mama por tomarem Prempro, uma terapia de reposição hormonal (TRH), processaram a fabricante da droga, Wyeth“, escreveu Rupert Sheldrake em um livro extraordinário chamado Science Set Free.

No tribunal descobriu-se que muitos dos trabalhos de pesquisa médica de apoio à TRH tinham sido escritos por escritores fantasmas de uma empresa de comunicação médica comercial chamada DesignWrite, cujo site se gabou que por mais de doze anos, eles haviam “planejado, criado e/ou gerido centenas de conselhos consultivos, mil resumos e cartazes, 500 estudos clínicos, mais de 10.000 programas de agencias palestrantes, mais de 200 simpósios transmitidos por satélite, 60 programas internacionais, dezenas de sites, e uma ampla variedade de impressos e materiais eletrônicos auxiliares“. Revelou-se que a DesignWrite organizou um “programa de publicação prevista” para o Prempro, que consiste em artigos de revisão, relatos de casos, editoriais e comentários, usando a literatura médica como uma ferramenta de marketing.

Ben Goldacre relatou ao Guardian: A DesignWrite escreveu os primeiros esboços e os enviou à Wyeth, que a aconselhou sobre a criação de um segundo projeto. Só então o estudo foi enviado para o acadêmico que apareceria como o “autor”… A DesignWrite vendeu à Wyeth mais de 50 artigos de revisão por pares sobre a TRH, e um número semelhante de cartazes de conferências, kits de slides, simpósios e suplementos de relatórios. Adrienne Fugh-Berman (uma professora associada de fisiologia na Universidade de Georgetown) descobriu que essas publicações diversas vezes promoviam benefícios não comprovados e sem licença da droga de TRH da Wyeth, minou seus concorrentes, e minimizou seus danos… As publicações de relatórios não são considerados como atividade promocional, então tudo isso foi legal. O pior de tudo foi a cumplicidade dos acadêmicos … “Pesquisas mostram alta confiança dos médicos nos artigos de revistas científicas por informações de confiança de produtos“, disse a DesignWrite. Eles têm razão: quando você lê um artigo acadêmico, você confia que foi escrito pela pessoa cujo nome está nele.

A Wyeth só foi pega depois que suas drogas tóxicas de TRH começarem a causar uma onda de câncer entre as mulheres

Esta atividade nefasta foi descoberta pela PLoS Medicine, uma revista médica de código aberto que tem uma história de ser muito mais transparente do que as revistas farmacêuticas corrompidas habituais como a BMJ e a The Lancet. Como a PLoS relatou:

… os documentos ilustram como a Wyeth Pharmaceuticals contratou a DesignWrite, uma empresa de comunicação médica, que escreve artigos para as melhores revistas médicas com a intenção de reforçar as vendas de produtos de reposição hormonal da família Premarin. Depois que os artigos foram escritos, a DesignWrite solicitou profissionais de saúde proeminentes para aparecerem como “autores”.

Conforme tudo isso foi se desdobrando, o senador Charles Grassley lançou uma investigação sobre as práticas fraudulentas da indústria farmacêutica. Conforme o site LegalExaminer.com relatou:

A empresa farmacêutica Wyeth é acusada de contratar escritores fantasmas para produzir artigos de revistas médicas que favorecem sua terapia de reposição hormonal (TRH), o Prempro, de acordo com as cartas do Congresso que buscam mais informações sobre o envolvimento da empresa em artigos médicos fantasmas.

A equipe do Sr. Grassley publicou vários documentos corporativos internos recolhidos a partir de processos que mostram o papel central, não revelado anteriormente, da Wyeth e da DesignWrite na criação de artigos que promovem a terapia hormonal para mulheres na menopausa já em 1997.

Os documentos também mostram que os executivos da Wyeth apresentaram ideias para artigos médicos, títulos, esboços elaborados, pagaram escritores para redigir manuscritos, recrutaram autores acadêmicos e escolheram publicações para publicar os artigos – tudo isso enquanto não revelaram o papel das empresas para os leitores e editores das revistas. Isso era tudo parte do golpe da droga de terapia de reposição hormonal (TRH), quando dezenas de milhões de mulheres eram informadas de que deveriam tomar medicamentos de TRH. Na realidade, essas drogas causaram enormes picos de câncer de mama, gerando uma onda de novos lucros para a indústria do câncer.

O modelo de negócios da indústria farmacêutica é baseado em CAUSAR doenças que provocam repetição de negócios

Vê como isso funciona? A indústria farmacêutica inventa uma droga que provoca câncer, então contrata um grupo de cientistas de uma firma de relações públicas fraudulenta para apresentarem em conjunto uma série de estudos científicos fictícios, em seguida, a FDA aprova a droga e os médicos começam a empurrá-la. As empresas farmacêuticas subornam os médicos com férias grátis no Havaí, e em seguida estes aumentam as prescrições, ganhando bilhões para as gigantes farmacêuticas. À medida que as taxas de câncer começam a subir rapidamente, a indústria do câncer ganha dinheiro sobre os lucros de toda a cirurgia oncológica, radioterapia e quimioterapia.
É o chamado de “negócio de repetição”, e é o principal modelo de negócio da indústria farmacêutica corrupta.

Qual a novidade? A indústria farmacêutica é corrupta, que criminosamente executa ciência fraudulenta com base em vendas e charlatanismo. De vez em quando, ela é realmente pega e tem que pagar uma grande multa… e depois ela apenas continua cometendo fraudes porque é muito rentável! A Wyeth, por sinal, é agora propriedade da Pfizer, produz numerosas vacinas e drogas farmacêuticas, as quais têm efeitos secundários tóxicos. A indústria já não precisa envenenar mulheres com drogas de TRH, porque ela conseguiu inserir vírus causadores de câncer em vacinas, garantindo uma forte colheita futura dos lucros do câncer, assim como todas as vacinas fazem.


Pesquisadores Fantasmas: Como A Indústria Farmacêutica Nos Empurra Seus Venenos

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2009 - O artigo traduzido abaixo, publicado no jornal australiano “The Age”, nos mostra uma das formas utilizadas pela indústria farmacêutica para impor seus medicamentos venenosos e desacreditar suplementos nutricionais e tratamentos alternativos que poderiam salvar vidas. Pelo menos um artigo submetido a principal revista médica na Austrália nos últimos anos foi escrito por um “escritor-fantasma”, contratado por um companhias farmacêuticas ou de equipamentos médicos, disse o seu editor.
Martin van der Weyden, editor do Jornal Médico da Austrália, pediu uma investigação financiada pelo governo sobre a influência que esta indústria tem sobre sobre os artigos acadêmicos.

No entanto, ele acredita que o problema na Austrália não é nem de perto tão ruim como nos Estados Unidos, onde ocorre um escândalo sobre a extensão dos “escritores-fantasma” nas principais revistas médicas. Na semana passada, o deputado van der Weyden participou de uma conferência em Vancouver, onde uma surpreendente pesquisa foi apresentada que afirmava que até um em cada 10 artigos publicados em prestigiadas revistas médicas foram escritos por “escritores-fantasmas” patrocinados pela indústria farmaceutica e de equipamentos médicos.

Através de um questionário anônimo on-line respondido pelos autores de 630 artigos, os investigadores descobriram que 7,8 por cento dos autores reconheceram que contribuições substanciais para os seus artigos foram escritos por pessoas que não constam como autores. A taxa variou de 2 por cento na revista Nature Medicine, até 10,9 por cento no New England Journal of Medicine. Os autores disseram que o trabalhos escrito por “fantasmas” financiados pela indústria podem resultar em conclusões tendenciosas, que afetam as decisões de tratamento de médicos e atendimento aos pacientes.

Processos judiciais nos EUA descobriram “escritores-fantasmas” em estudos de pesquisas médicas do medicamento Vioxx, que foi retirado do mercado em 2004, devido a evidências ligando-o a ataques cardíacos. E documentos divulgados nos EUA reveleram que a empresa farmacêutica Wyeth havia pago a escritores fantasmas para produzir artigos médicos favoráveis à sua terapia de reposição hormonal Prempro, após um estudo concluir que a droga aumentaria o risco de câncer de mama.
A empresa contratou uma empresa de artigos médicos médica para elaborar a pesquisa, e em seguida, saiu a procura de uma autor acadêmico que apresentaria o artigo como de sua autoria. Os editores da revista PLoS Medicine, que obteve os documentos, escreveu este mês que os “escritores-fantasmas” eram o “segredinho sujo” de publicações médicas e sua presenca tornou-se “generalizada”.

Empresas farmacêuticas, de educação médica, e companhias de comunicação construíram uma vasta e lucrativa indústria de “escritores-fantasmas”, diz o trabalho. Isto resultou na manipulação sistemática e abusiva de publicações acadêmicas pela indústria farmacêutica e seus parceiros comerciais na tentativa de influenciar as decisões dos médicos sobre os tratamentos de saúdede e o público em geral.

“Em que, um leitor cínico poderia perguntar, poderia confiar como sendo verdadeiramente imparcial? A resposta é, que infelizmente, para alguns ou mesmo muitos artigos de jornal, nós não sabemos.” Van der Weyden disse que as companhias farmacêuticas tem uma influência bem menor sobre as pesquisas na Austrália, mas disse estar alerta para sinais reveladores de sua influência nos artigos apresentados.

“Nós não temos estatísticas sobre “escritores-fantasmas”, mas estou ciente de um caso nos últimos cinco anos que foi detectado durante a apreciação do artigo”, disse ele. Citando “sigilo autoral”, Van der Weyden se recusou a dizer quem escreveu o artigo ou quando, mas ele disse que foi em uma carta submetida ao MJA (medical Journal of Australia), e o estilo da escrita já teria dado a ver que havia sido elaborada por empresa médica de comunicação.


A má fé da indústria farmacêutica


2015 - Todas as pessoas que necessitam usar medicamentos devem partir do pressuposto de que os medicamentos são confiáveis e que a prescrição médica se dá por razões médicas, por necessidade terapêutica. Infelizmente, infelizmente mesmo, nem sempre é o que acontece. Os laboratórios farmacêuticos não são confiáveis e nem sempre os médicos prescrevem o melhor e o mais necessário ao paciente. No meio da relação existem interesses financeiros que, para infortúnio dos pacientes, superam o interesse terapêutico e o amor à vida.

Em 24 de outubro de 2010, a Folha de São Paulo, um dos veículos de comunicação mais respeitáveis do Brasil, veiculou entrevista com o professor Carl Elliot, 49, professor de bioética e filosofia na Universidade de Minnesota e um dos principais nomes da bioética nos EUA. A entrevista é antiga, mas continua atualíssima. Talvez até mais atual do que na época em que a entrevista foi concedida.

O professor de bioética é autor do livro “White Coat, Black Hat -Adventures on the Dark Side of Medicine” (jaleco branco, chapéu preto: aventuras no lado negro da medicina). Elliot não promete imparcialidade na sua obra. “Meu interesse é no que tem de errado. Construímos um sistema médico em que o ato de enganar não é apenas tolerado, mas recompensado”, afirmou à Folha o autor de outros seis livros na área.

Abaixo, a íntegra da entrevista e depois voltamos.

ENTREVISTA /CARL ELLIOT

“Indústria farmacêutica tem controle total sobre pesquisas”

Interesses de laboratórios comandam quase tudo na saúde, afirma Carl Elliot, professor de bioética na Universidade de Minnesota e autor de livro sobre o lado negro da medicina

??CLÁUDIA COLLUCCI ?DE SÃO PAULO

Em 1989, Len iniciou residência médica em psiquiatria, após terminar a faculdade em Harvard. Trazia no currículo excelentes notas. Mas Len era uma farsa. Nunca esteve em Harvard. Era funcionário de um laboratório. A história, real, parece conto infantil perto de outras que surgem nas 224 páginas de “White Coat, Black Hat -Adventures on the Dark Side of Medicine” (jaleco branco, chapéu preto: aventuras no lado negro da medicina), do médico Carl Elliot, professor de bioética e filosofia na Universidade de Minnesota. Uso de “cobaias humanas” em estudos científicos obscuros, médicos sendo “porta-vozes” da indústria farmacêutica em troca de altas somas, doutores influentes que assinam artigos de escritores-fantasmas. A lista de falcatruas parece não ter fim. Elliot, 49, um dos principais nomes da bioética nos EUA, não promete imparcialidade na sua obra. “Meu interesse é no que tem de errado. Construímos um sistema médico em que o ato de enganar não é apenas tolerado, mas recompensado”, afirmou à Folha o autor de outros seis livros na área.

Nos últimos cinco anos, uma série de obras vem revelando que a indústria farmacêutica escapou a todo controle. Tem influência quase ilimitada sobre a educação, a pesquisa e os médicos. Pergunto a Elliot se os laboratórios não têm nada de bom, se são tão sombrios assim como ele pinta no livro. Ele não titubeia: “Sombrios? Deixei de fora os trechos mais desmoralizantes.” A seguir, trechos da entrevista dada à Folha, por e-mail.

Folha – A imagem heroica da indústria, associada a drogas como a penicilina e insulina, parece ter ruído após tanto escândalos e poucas descobertas. A glória acabou?
Carl Elliot – A penicilina não foi desenvolvida por uma indústria. Alexander Fleming a desenvolveu no St. Mary’s Hospital, em Londres. E o trabalho crucial para a insulina foi feito na Universidade de Toronto. O problema hoje é que temos um sistema de desenvolvimento de drogas orientado para o mercado e não para as coisas que as pessoas doentes precisam.

Você relata várias monstruosidades cometidas em ensaios clínicos. Isso ainda ocorre com frequência?

A maioria dos medicamentos ainda é testada em pessoas pobres, especialmente nos estágios iniciais. Muitas pessoas não iriam se voluntariar para tomar remédios não testados, durante três semanas, sem receber pagamento. Esses voluntários são pessoas que precisam desesperadamente de dinheiro.

Qual o futuro do relacionamento entre a indústria farmacêutica e os médicos?

A solução que vem sendo instituída aqui, nos EUA, é a transparência. Médicos podem aceitar todo dinheiro que quiserem, desde que não escondam isso. Mas meu palpite é que isso vai normalizar a prática. Não parece haver vergonha em tirar dinheiro do setor. Na verdade, ser escolhido para ser “líder” entre os médicos, pago pelo setor, é visto como uma honra.

Então, transparência também não resolve?

Transparência importa, mas não é a solução. Propina é propina, mesmo se é recebida a céu aberto. A solução é eliminar os pagamentos, tal como fizemos com os juízes, jornalistas e policiais.

Médicos dizem ser impossível fazer estudos ou congressos sem a indústria. Verdade?

Não é verdade. Eventos médicos podem ser feitos sem dinheiro da indústria. Ensaios clínicos já são mais complicados. O problema é que a indústria tem controle total sobre as pesquisas. Ela enterra os resultados negativos a fim de tornar as drogas melhores do que são. Isso não é ciência, é marketing.

É possível que médicos aceitem brindes da indústria e continuem independentes?

Médicos nunca pensam que são influenciados por dinheiro ou presentes. Mas temos 20 anos de dados mostrando que eles são, sim.

A única solução seria cortar todas as relações entre médicos e laboratórios?

Há colaborações aceitáveis. Mas se um médico é pago só para ler um conjunto de informações da indústria ou permitir que seu nome seja adicionado a um artigo escrito por fantasmas, esse tipo de pagamento tem que ser eliminado. Conversei com um representante de laboratório que construiu uma piscina para um médico só para levá-lo a prescrever mais receitas. Como alguém justifica isso?

“White Coat Black Hat é um livro. Fala sobre médicos, drogas e bandidos. Também trata de médicos que se tornaram bandidos (eles vendem drogas)”. É a introdução do site “de promoção” do livro de Carl Elliot, criado por seu irmão mais novo, Britt. Não, eles não se odeiam. A divertida paródia tem atraído mais atenção para a obra. “Você não quer desperdiçar seu dinheiro? Ótimo. Há maneiras muito melhores de gastá-lo”, escreve Britt, listando opções de compras. Na entrevista com o irmão famoso, ele toca em uma questão sensível aos bioeticistas. “Você ganha a vida falando mal da indústria farmacêutica. Deve haver muito dinheiro no negócio do discurso do ódio, não?” Elliot responde que vai considerar a pergunta uma piada, mas o irmão provoca: “Você fez sua cama, agora tem que deitar. Pelo menos Hitler não chamava de ética a obra “Mein Kampf” [na qual Hitler expressou ideias antissemitas, racialistas e nacionalistas]. “Não estou brincando. Isso não é engraçado”, interrompe Carl Elliot. Mas o próprio autor é um gozador. Questiono sobre o Britt. Ele desconversa: “Meu irmão é perturbado. Espero que receba o tratamento que precisa.” ?(CC) ??WHITE COAT BLACK HAT?AUTOR Carl Elliot?EDITORA Beacon Press ?QUANTO US$ 16,47 (224 págs.) ?WEBSITE www.whitecoatblackhat.com

Voltamos.

É um assunto intrigante e que deixa entrever como poderíamos ter um sistema global de saúde muito melhor e mais eficiente. Sem dúvida, a indústria farmacêutica é um dos grupos mais organizados e fortes em atuação no globo terrestre.


Ética editorial – “Ghostwriting” é uma prática insalubre


2014, POR Ernesto Spinak - O Ghostwriter é definido como um “escritor fantasma”, um escritor profissional que é contratado para escrever obras pelas quais não receberá crédito oficial, permanecendo anônimo. Esta prática tem sido comum desde tempos imemoriais, onde secretários e escribas escreviam discursos e cartas aos governantes, ou os discípulos de um mestre completavam seu trabalho sob a sua direção e, por vezes, a título póstumo. Até hoje, é costume os presidentes lerem discursos públicos que outra pessoa os tenha escrito, ou que “escritores fantasmas” respondam a cartas de cidadãos em nome do presidente, ou que sejam contratados para escrever suas “autobiografias”. Também ocorre com muita frequência no jornalismo, na produção de “comics” e até mesmo algumas encíclicas foram escritas para os papas por “ghostwriters”.

O que há de errado com isso? Nada. Mas … no campo dos estudos acadêmicos em geral e, na pesquisa, em particular, o “ghostwriting” também é considerado uma forma de plágio, um comportamento antiético que poderia gerar até mesmo problemas de saúde na população, com as repercussões legais pertinentes. Passemos a investigar.

O ‘escritor fantasma’ é um recurso usado com frequência por estudantes de universidades que tem que apresentar trabalhos de graduação, teses de mestrado e inclusive teses de pós-graduação, e para isso contratam escritores profissionais que fazem o trabalho por eles. Como consequência, “existem fábricas de ensaios” que cobram para escrever toda classe de trabalhos acadêmicos, e que surgiram as dezenas na última década, oferecendo seus serviços online. Os serviços básicos oferecem ensaios escritos previamente a preços acessíveis, mas se oferece também escrita “personalizada”, disponível a preços mais elevados, em média alcançando US$ 10 a US$ 50 por página.

O problema é ainda mais crítico quando ingressamos na área da pesquisa científica e das publicações em periódicos arbitrados. O “escritor fantasma” ocorre com maior frequência nos periódicos em ciências da saúde, e de forma marginal nas outras disciplinas de pesquisa. Mas o quão frequente ou extenso é o ghostwriting? Para ter uma ideia fizemos uma pesquisa em Google Scholar (consultas realizadas no dia 10/11/2013).

Em uma primeira consulta buscamos pelo termo ghostwriting e obtivemos 9.570 resultados. Como muitos dos resultados se referiam a jornalismo em geral ou a indústria editorial de livros, reduzimos o alcance restringindo a consulta com os termos “research” ou “academic”, descartando a faceta “students”, por último somente selecionamos artigos publicados no ano 2013, excluindo as citações e patentes. Finalmente obtivemos o resultado de 199 artigos publicados, quase todos se referindo à área biomédica. Quase 200 artigos em apenas 10 meses deste ano é uma boa quantidade.

Ghostwriting pode ser falta de ética grave e também poderia ser uma forma de plágio

Pode surpreender que o ghostwriting seja uma forma de plágio, mas assim é como se define nos dicionários e também nas opiniões de pessoas e instituições referentes ao tema.

Por exemplo, o Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) define em sua primeira acepção

plagiar

(Del lat. plagiare)

1. tr. Copiar en lo sustancial obras ajenas, dándolas como propias.

Da mesma forma em inglês, de acordo com o Merriam-Webster Online Dictionary, plagiarism signfica

to steal and pass off (the ideas or words of another) as one’s own to use (another’s production) without crediting the source

O Dr. Francis Collins, diretor dos National Institutes of Health (NIH) considera que o ghostwriting poderia em alguns casos ser tratado como um caso de plagio, este conceito também é expresso pelo menos duas vezes em um informe do Senado dos Estados Unidos comentado mais abaixo, e além disso, em um artigo recente na revista Bioethics. Finalmente, em um trabalho publicado no blog da empresa iThenticate, especializada em oferecer serviços para detecção de plágio afirma:

Com base nestas definições, o conceito de ‘escrita fantasma’ em seu nível básico é plágio. Ademais, o objetivo de escrever sob outra assinatura é ocultar o crédito do verdadeiro autor no lugar de reconhecer a outra fonte. Entretanto, há vários fatores baseados nos diferentes métodos de ghostwriting que faz com que o tema não seja tão preto no branco. (2011)

Em outras palavras, o “escritor fantasma” pode ser aceitável ou inaceitável.

A tecnologia tem promovido a pesquisa global, a saúde global, mas também permitiu realizar fraudes globais. Os editores de periódicos não fizeram avanços significativos no emprego de tecnologia ou políticas adequadas para identificar a falta de honradez, ou combate-la.

No caso de uma tese de doutorado produzida por um “escritor fantasma”, o postulante apresenta falsamente o trabalho de outro como próprio, pelo qual está fraudando tanto a instituição que emitiu seu título, como os futuros empregadores para o qual o doutorado é um requisito para o emprego.

“Escritores fantasmas” também são empregados em algumas ocasiões pelos acadêmicos e pesquisadores ativos que contratam pesquisadores desempregados, subempregados ou em posições menores para escrever artigos e livros sem compartilhar sua autoria. Esta prática não se limita aos pesquisadores médicos, mesmo que seja a maioria dos casos. Devemos esclarecer que “escritores fantasmas” não são o mesmo que escritores profissionais médicos. Pode ocorrer que um grupo de pesquisadores contrate um escritor profissional para editar um documento baseado em dados originais dos pesquisadores, mas estes seguem mantendo a supervisão de trabalho escrito, impedindo mensagens de marketing favoráveis a empresas ou produtos.

O “escritor fantasma” nas revistas médicas gera problemas éticos e legais. A preocupação se deve ao fato de que é frequente que as empresas farmacêuticas e as indústrias de produtos de tecnologia médica possam distorcer as evidencias produzidas por ensaios clínicos e não sejam imparciais. Estes artigos preparados por escritores médicos contratados pelas indústrias são assinados por “autores convidados” em troca de pagamento. Portanto, estes artigos são normalmente enviados a periódicos comerciais de alto fator de impacto, e por este motivo, resulta muito atraente aos pesquisadores convidados aportar sua assinatura, devido ao impulso que é dado às suas carreiras.

Esta conduta cria óbvios conflitos de interesse, distorce a evidencia médica, afeta os consumidores devido aos vieses em favor de certos medicamentos, e tem por objetivo sua aprovação por autoridades sanitárias para inclui-los nos formulários que usam as instituições de saúde, muitas vezes com preferencia sobre medicamentos genéricos. Estes trabalhos forjados que facilitam a desonestidade podem se traduzir em eventuais riscos na atenção a pacientes menos favorecidos, uma vez que os mercados emergentes se baseiam nas pesquisas publicadas no mundo desenvolvido para produzir terapias avançadas.

Mas o que fazem estes prestigiosos periódicos com alto fator de impacto, e o que fazem os pareceristas? O “escritor fantasma” geralmente não é detectado pelos pareceristas, uma vez que a evidencia muitas vezes surge anos depois e só nos casos que terminam nos tribunais. Quer dizer que o “escritor fantasma” não é fácil de detectar, por isso se chamam “fantasma”.

Então quão frequente é o ghostwriting, e que tipo de revistas se prestam a esta prática, para que se avalie a preocupação que devemos ter sobre o tema?

Uma pesquisa recente conduzida pelo Senado dos Estados Unidos sobre escândalos referentes a “escritores fantasmas”, demonstrou que esta prática é comum em muitas das escolas de medicina de universidades tão famosas como Stanford, Harvard, McGill University, Mount Sinai Medical Center, Yale, etc. Da mesma forma, esta pesquisa mostra como dezenas das revistas mais prestigiosas em medicina estiveram envolvidas na aprovação de produtos farmacêuticos de distribuição mundial, como Avandia, Tylenol, e terapias hormonais para a menopausa.

Note os seguintes estudos:

Um estudo do New York Times em 2010 encontrou uma taxa de ghostwriting nos principais periódicos médicas do mundo (JAMA, Lancet, PLoS Medicine, New England Journal of Medicine) que varia entre 4,6 a 10,9% dos artigos publicados.
Um trabalho publicado em Plos Medicine mostrou que somente 13 dos 50 periódicos médicos mais importantes dos Estados Unidos tem políticas claras contra o “ghostwriting”.
Cerca de 50% das publicações sobre drogas usadas em psiquiatria que tem patentes ainda vigentes foram escritas por “escritores fantasmas”
PLoS Medicine solicitou a proibição no futuro de manuscritos de autores que atuam na qualidade de convidados, e indica que deve ser feita retratação formal caso se descubra mais tarde que um artigo foi escrito por um autor fantasma desconhecido e notificar as instituições sobre a má conduta do autor.

Posição institucional

AMWA. American Medical Writers Association

É a principal instituição do mundo que prepara escritores profissionais médicos e os considera de fundamental importância na pesquisa médica, e em seu código de ética estabelece una posição contraria ao ghostwriting.

EMWA. The European Medical Writers Association

Da mesma forma que a AMWA, desencoraja o uso do termo “escritor fantasma” para descrever os escritores médicos profissionais, uma vez que o termo implica que há algo oculto na participação destes escritores, e recomenda que a participação dos escritores médicos profissionais deva sempre ser transparente. Por outro lado, a associação promove o uso de escritores profissionais devido às capacidades que foram desenvolvidas em comunicação científica e permitem elevar o nível das publicações. A EMWA afirma que a contribuição dos escritores médicos e as fontes de financiamento deveriam ser explícitas, e caso a contribuição do escritor não cumpra os critérios de autoria do periódico, então deveria figurar na sessão de agradecimentos.

ICMJE. International Committee of Medical Journal Editors (conhecido como o Grupo Vancouver). Estabelece de forma definitiva os requisitos para figurar como autor nos artigos de periódicos, procurando desestimular as práticas de falta de ética, fornecendo diretrizes aos editores de periódicos para que se indique de que forma contribuiu cada autor do artigo.

WAME. World Association of Medical Editors.

WAME considera a autoria fantasma desonesta e inaceitável. Os autores fantasmas geralmente trabalham pagos pelas empresas com interesses comerciais na área. Os escritores profissionais médicos podem escrever documentos sem figurar como autores sempre e quando seu papel seja reconhecido, de acordo com as diretivas que estabelece a AMWA.

Quando os editores detectarem manuscritos produzidos por “escritores fantasmas”, suas ações devem ser dirigidas tanto aos autores que assinam como aos associados comerciais, caso estejam envolvidos. São possíveis várias ações:

publicar um aviso que indique que o manuscrito é de um “escritor fantasma” junto com os nomes das empresas responsáveis e os autores que assinam a publicação.
informar as instituições acadêmicas à qual pertencem os autores e identificar as empresas comerciais.
informar aos meios de comunicação e organizações governamentais.
informar no fórum da WAME.
Reflexão

Contudo, embora ha muito tempo estas práticas tenham sido condenadas como inaceitáveis e pouco éticas, as recomendações não tem sido amplamente aplicadas pelas instituições acadêmicas e por editores de periódicos, e tem sido assim por várias razões justificáveis, mas não aceitáveis. Há muitos editores que não aplicam esta política devido ao fato de que as empresas que contratam e pagam os “escritores fantasmas” são as mesmas que pagam os anúncios nos periódicos e tem contratos para distribuição de separatas, e estamos falando de muitas das principais revistas comerciais do mundo.

As instituições de pesquisa, em geral universidades, não têm tomado ações diretas, pois em muitos casos envolvem pesquisadores em posições importantes, que busquem financiamento para pesquisa em suas próprias universidades e, por outro lado, ataques contra o ghostwriting poderia abrir uma caixa de Pandora para todos, instituições académicas e editoriais. As associações profissionais também se mostram lentas em reagir contra seus próprios membros em virtude da própria visão corporativa que tem em defender suas profissões.

E quanto às revistas publicadas pelo Programa SciELO? No portal oficial está indicado que há neste momento 351 periódicos na categoria Health Sciences aos quais se poderia somar boa parte dos 109 registradas sob o categoria Biological Sciences. Seria muito importante que o Programa SciELO em geral, e cada periódico especificamente, tomasse uma posição firme e proativa. O conceito de “conflito de interesses” é muito vago para definir com precisão o problema dos “escritores fantasmas” nas ciências da saúde.

Ghostwriting é uma prática insalubre. Por isso o título desse post.

Agradecimento

Agradeço ao Dr. Tomás Baiget, diretor do “El professional de la información”¹ (EPI) por ter corrigido alguns erros de meu manuscrito original. Os erros persistentes são de minha total responsabilidade.

Nota

¹ El profesional de la información – http://elprofesionaldelainformacion.com

Referências

AMWA ethics FAQs. American medical writers association. Available from: <http://www.amwa.org/amwa_ethics_faqs>.

European medical writers association. Ghostwriting Positioning Statement. Available from: <http://www.emwa.org/Home/Ghostwriting-Positioning-Statement.html>.

Frequently Asked Questions About Medical Ghostwriting. The Project on Government Oversight (POGO). 2011. Available from: <http://www.pogo.org/pogo-files/alerts/public-health/ph-iis-20110620.html#what%20is%20corporate-funded%20medical%20ghostwriting>.

Ghostwriting in medical literature. Minority staff report. 2010. Available from: <http://www.grassley.senate.gov/about/upload/Senator-Grassley-Report.pdf >.

International committee of medical journal editors. Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals:Ethical Considerations in the Conduct and Reporting of Research: Authorship and Contributorship. 2009. Available from: <http://www.icmje.org/ethical_1author.htm?l>.

iThenticate. Can Ghostwriting Be Considered Plagiarism? Available from: <http://www.ithenticate.com/plagiarism-detection-blog/bid/64034/Can-Ghostwriting-Be-Considered-Plagiarism>.

Merriam-Webster Dictionary. Plagiarize. Available from: <http://www.merriam-webster.com/dictionary/plagiarizing?show=0&t=1313540495>.

POGO Project on government oversight. Frequently asked questions about medical ghostwriting. Is ghostwriting a type of plagiarism? Available from: <http://www.pogo.org/our-work/articles/2011/ph-iis-20110620.html>

Real Academia Española. Plagiar. Available from: <http://lema.rae.es/drae/?val=plagiar>.

STERN, S., and LEMMENS, T. Legal Remedies for Medical Ghostwriting: Imposing Fraud Liability on Guest Authors of Ghostwritten Articles. PLOS Medicine. 2011. Available from: <http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.1001070>.

The New York Times. Ghostwriting Is Called Rife in Medical Journals. September 10, 2009. Available from: <http://www.nytimes.com/2009/09/11/business/11ghost.html?_r=0>.

TOBENNA, D.A. Profits and plagiarism: the case of medical ghostwriting. Bioethics. 2010, vol. 24, nº 6, pp. 267-272. Available from: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/biot.2010.24.issue-6/issuetoc>.

Wikipedia. Escritor fantasma. Available from: <http://es.wikipedia.org/wiki/Escritor_fantasma>.

Word association of medical editors. Ghost writing initiated by commercial companies. Available from: <http://www.wame.org/resources/policies#ghost >.

Link Externo

iThenticate – http://www.ithenticate.com/

Top grade paperscom: http://www.topgradepapers.com/


Fontes:
– Natural News: Big Pharma’s medical research papers are total bunk… hundreds were fraudulently ghostwritten by a P.R. firm called ‘DesignWrite’
– Plos: Wyeth Ghostwriting Documents Added to Drug Industry Document Archive
– Legal Examiner: Sen. Grassley Questions Wyeth Ghostwriting Practices
http://www.noticiasnaturais.com/
he Age: Ghost writing link to medical journals
http://sabermelhor.com.br/

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