Uma Guerra por corações e mentes

lincul5Por Lineu S. Hardessem (***), 18/01/2018 - Em um mundo de repetições, memes, falta de crítica e criatividade, de incapacidade de pensamento livre, aqui vai um pensamento original. Temos uma tendência natural e instintiva para viver em grupos. Isso nos possibilita uma grande vantagem em nosso esforço de sobrevivência. Quem está conosco pode nos ajudar quando precisamos.

Ao trabalhar em grupo podemos conseguir coisas que não conseguiríamos sozinhos. O conhecimento e as habilidades aprendidas no interior do grupo acumulam-se e são transmitidos às novas gerações. Quem nasce em meio ao grupo tem a vantagem de não ter de aprender tudo do zero, herdando séculos de conhecimento acumulado. Chamo isso de cultura.

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Usarei aqui a palavra cultura em um sentido muito amplo, significando todos os conhecimentos, práticas, hábitos e crenças de uma sociedade, os quais são acumulados, “cultivados” e transmitidos de uma geração a outra. Isso inclui a linguagem, a arte, a religião, o ensino formal, a educação familiar, o trabalho, os costumes sociais, o folclore e tudo o mais que uma pessoa pode aprender ao longo de sua vida com as demais.

Para entender o papel e a importância da cultura nas nossas vidas é preciso estudar a situação oposta, de ausência total ou parcial de cultura. Um bom exemplo nos é trazido pelos seres humanos que, por circunstâncias particulares, viveram isolados do convívio humano normal e, portanto, privados da cultura. O isolamento total desde o nascimento leva à morte porque o recém-nascido não consegue sobreviver sozinho. No entanto, há casos documentados de crianças vítimas de abusos, submetidas ao isolamento por pais ou sequestradores e que, privadas do contato humano desde cedo, não desenvolvem as habilidades mínimas comuns aos demais. Crianças perdidas e isoladas em ambiente selvagem, muitas vezes criadas entre animais também não desenvolvem as características humanas básicas, como a postura bípede, a linguagem ou o uso das mãos para se alimentar ou manipular o ambiente. Essas pessoas, quando reintegradas à sociedade, costumam apresentar grandes dificuldades de adaptação, retardo mental e cognitivo. Se dependessem apenas de si mesmas, elas teriam grande desvantagem em relação aos demais em seus esforços para conseguir suprir suas necessidades. Esse é o papel da cultura em seu sentido mais amplo e fundamental. Nossa genética nos faz Homo Sapiens e a cultura nos faz humanos.

Esse contraste entre a presença ou ausência de cultura serve para nos mostrar como nossos cérebros são plásticos e adaptáveis às mais diferentes situações e como somos capazes de absorver a cultura. A diversidade cultural dos grupos humanos pelo mundo afora, com suas crenças e costumes contrastantes e mesmo opostos conforme o lugar e a época demonstra como somos capazes de nos adaptar, absorver e repetir praticamente qualquer comportamento dos grupo com os quais tenhamos convivido.

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Nossa psicologia faz com que assimilemos a cultura dos nossos grupos e procuremos instintivamente a colaboração das pessoas que o integram. Assim desenvolvemos fortes laços inconscientes com nossos grupos. Em seu meio nos sentimos acompanhados, acolhidos, reconhecidos. Nossa existência social ganha sentido ao desempenharmos uma função em um grupo. Nosso instinto de socialização nos impele a querer pertencer a um grupo, colaborar com ele e defendê-lo.

Em eras primitivas as pessoas pertenciam a um grupo apenas. Uma espécie de família estendida que empreendia um esforço coletivo constante pela sobrevivência dos seus membros. Os integrantes desses grupos identificavam-se e reconheciam-se entre si pela linhagem genética aparente, pelas roupas e adereços corporais e por seus costumes. Seria fácil perceber como estranho alguém que pertencesse a outro grupo.

Nessas condições, qualquer outro grupo que competisse pelo mesmo alimento ou pelo mesmo território seria visto como uma possível ameaça à sua sobrevivência e, conforme as circunstâncias, como inimigo.

Nossa psicologia (programação neurológica inata) desenvolveu-se nessa época, voltada para essas condições. As relações sociais mudaram muito rapidamente nos últimos séculos e são muito diferentes na época atual, mas nossos instintos e nossa psicologia continuam os mesmos.

Como a ideia inconsciente do nosso grupo, seja ele qual for, está associada à ideia da viabilização da sobrevivência e da existência, em concorrência com os demais grupos, vistos inconscientemente como possíveis ameaças, sempre percebemos nossos grupos como preferíveis, superiores e, ao nos sentirmos parte deles, nos sentimos moralmente superiores aos demais e portanto, especiais. Temos uma tendência instintiva a querer o bem do nosso grupo e trabalhar por isso, ao mesmo tempo que temos a tendência oposta de estranhar, rejeitar e temer grupos diferentes, que são inconscientemente percebidos como rivais.

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Nos sentimos pertencendo a um grupo quando percebemos semelhanças culturais, na forma de afinidade de costumes e crenças. De forma inversa, estranhamos o que é diferente.

Alguns desses grupos competem entre si com grupos rivais ou concorrentes e dependem do ingresso e colaboração do maior número possível de pessoas para se fortalecerem e obterem cada vez mais recursos e vantagens. A competição dos grupos sociais hoje não é, em geral, por território e alimento. A competição é por colaboração.

As pessoas responsáveis por um clube de lazer querem que ele tenha o maior número possível de associados pagando mensalidades. Assim o clube poderá manter-se, desenvolver-se a perpetuar-se e todos os que dependem do clube como fonte de renda e sustento (dirigentes e administradores) garantirão a própria sobrevivência.

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Os dirigentes de um time de futebol desejam que o seu time tenha a maior torcida possível. Mais torcedores significam mais pessoas pagando ingresso nos estádios e mais associados pagando mensalidades para manter o clube e seus dirigentes. Os próprios torcedores de um time de futebol também desejam que a torcida aumente, pois sabem que com isso seu time se fortalecerá e terá mais chances de se sair bem. Todos querem que o seu grupo seja melhor que os rivais. O futebol é um ótimo exemplo desse comportamento instintivo ancestral.

Os administradores das empresas também desejam que as pessoas comprem os produtos e serviços da sua empresa e não das concorrentes.

Os líderes, dirigentes e representantes das diversas religiões estão sempre em busca de novos adeptos. Mais seguidores significam mais recursos financeiros e humanos para fortalecer e perpetuar sua crença, sua instituição e seus projetos. Assim, todos os que dependem de uma determinada religião para seu sustento pessoal (padres, pastores, sacerdotes) terão seus recursos garantidos. Os próprios fiéis também desejam a expansão de sua religião pela conquista de novos adeptos. Assim serão participantes de uma instituição cada vez mais forte que, por isso mesmo, parecerá mais legítima. O grupo (comunidade religiosa) ao qual pertence o fiel se fortalecerá pela participação de mais pessoas, que aportarão seus recursos, seu trabalho e sua fé. A mesma coisa dá-se com os partidos políticos. Quanto mais filiados e simpatizantes tiver um partido, mais recursos terá, mais votos, mais mandatos, mais cargos e mais poder político, beneficiando os seus integrantes e principalmente seus dirigentes.

Existe uma disputa constante pela sua “alma” pelos mais diversos grupos de interesse. Uso aqui a palavra alma como metáfora para representar a sua vontade, a sua convicção e a sua colaboração. Quem tiver a sua alma, terá seu corpo (seu trabalho, sua colaboração), sua mente (sua convicção, seu apoio) e seu dinheiro (sua contribuição financeira). Diversos grupos querem você como colaborador para se fortalecerem. As religiões, os partidos, os times, as empresas, os clubes, as ideologias, etc.

Para conquistar sua alma, o grupo de interesse tem de convencer você de que a sua causa vale a pena ou de que é boa para você. Não precisa ser verdade, basta que você seja convencido. A ferramenta mais usada para isso é o marketing. Uma vez que você tenha sido convencido, cooptado ou conquistado, você trabalhará por conta própria pelos interesses do grupo e de seus líderes. Seus instintos de pertencimento e proteção ao grupo entrarão em ação. Sua razão será ofuscada pelo instinto e pela emoção quando se tratar de assuntos relativos ao grupo ao qual você pertence, seja ele social, religioso, político, esportivo ou ideológico. Você defenderá irracionalmente os interesses e posições dos grupos aos quais pertence, assim como seus ancestrais defenderam suas famílias das investidas de tribos rivais. O instinto está lá, na estrutura neurológica inata de cada um. Você poderá a considerar como estranhos, indesejados, perigosos ou talvez inimigos os grupos concorrentes. Assim o crente sustenta as igrejas e seus líderes, o eleitor sustenta os políticos, o torcedor sustenta os jogadores e dirigentes dos clubes.

De maneira análoga, ainda que nesses casos não haja o apelo ao espírito de grupo, o fumante sustenta a indústria do cigarro, seus executivos e seus magnatas; o viciado em drogas sustenta os traficantes e os barões das drogas; os consumidores sustentam os fabricantes e vendedores das marcas famosas e caras de diversos produtos e os contribuintes sustentam os governos.

Todos querem sua alma. Quem a conseguir levará uma parte dos seus recursos. Seu dinheiro, seu tempo, seu trabalho, sua colaboração, seu apoio. Uma parte da sua vida. Somos escravos das nossas convicções. Servos voluntários das nossas crenças.

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Também há uma disputa em um nível mais individual pelo amor e pela afeição das pessoas que tenham algum recurso humano a oferecer. Mulheres, principalmente as mais jovens, com atrativos físicos e sexuais, são desejadas e disputadas por homens ou eventualmente por mulheres que tenham interesse em suas qualidades e possibilidades. Homens são igualmente desejados e disputados por mulheres e eventualmente por homens que tenham interesse em seus atributos e capacidades. As qualidades e atributos em questão são principalmente a beleza, a juventude, a atratividade sexual, a disponibilidade de recursos e a capacidade de trabalho e suprimento das necessidades e desejos do outro.

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Portanto, é recomendável que você tenha consciência das suas necessidades, das suas tendências instintivas e das suas influências culturais para escolher a quem você vai vender sua alma ou se vai vendê-la. Talvez seja melhor você ser o dono do próprio destino, sabendo escolher conscientemente a quais grupos você quer pertencer, a quem você dará seu apoio e conseguindo enxergar se esse pertencimento é bom para você ou se só beneficia os líderes do grupo com o seu sacrifício.

*** - Lineu Hardessem é um livre-pensador de Porto Alegre que insiste em questionar tudo e perseguir a compreensão de como o mundo funciona.

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