Fordlândia: a história da cidade utópica que Henry Ford construiu na Amazônia

fordlan123/03/2014, por Leonardo Contesini - No começo do século XX, as linhas de produção de Henry Ford construiam carros a uma velocidade jamais vista. Todos aqueles carros precisavam de pneus, e na época a borracha ainda era derivada das seringueiras do Sudeste Asiático. Para manter a eficiência de sua produção sem depender dos asiáticos, ...

Ford decidiu ter sua própria produção de látex, e para isso construiu uma cidade tipicamente americana em plena Amazônia, batizada de Fordlândia. A história de Fordlândia começou em 1927, quando Henry Ford adquiriu um terreno de quase 15.000 km² às margens do Rio Tapajós, no Pará. Anos antes, o departamento de comércio dos EUA haviam feito um estudo de viabilidade de cultivo de seringueiras no Brasil com resultados positivos. Sabendo disso o produtor rural Jorge Dumont Villares, conseguiu com o governador Dionísio Bentes uma concessão de uma grande porção de terra para cultivar seringueiras. Tudo de graça. Quando soube que Henry Ford procurava uma região para sua cidade no Brasil, Villares ofereceu suas terras a ele por um valor equivalente a quase R$ 3 milhões atualmente.

No ano seguinte ele enviou suprimentos e funcionários para criar uma típica cidade americana no local. Em pouco tempo a cidade ficou pronta, com escolas, eletricidade, saneamento, clube social/recreativo e um hospital (onde viria a ser feito o primeiro transplante de pele no Brasil). O empreendimento, como se diz hoje, tinha tudo para dar certo se não fossem dois graves problemas.

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O ciclo da borracha no Brasil viveu seu auge entre 1879 e 1912 — quinze anos antes da compra da área por Ford —, e entrou em declínio depois que os britânicos levaram 70.000 sementes de seringueira da Amazônia para o Sudeste da Ásia e começaram a produzir látex com maior eficiência e produtividade devido às condições do solo.

Para deixar a situação ainda pior, Ford tentou impor a cultura americana de trabalho aos brasileiros, fornecendo uma alimentação tipicamente norte-americana, casas americanas, e os obrigava a usar crachás e a trabalhar sob um modelo ao qual não estavam habituados. Isso causou a insatisfação dos funcionários, que resultou em baixa produtividade e conflitos. O mais marcante deles aconteceu em 1930, quando os funcionários se revoltaram contra a dieta americana, que incluía espinafre e até hambúrgueres.

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Os americanos não tinham conhecimento prático algum em botânica e, além de não conseguiram prever o fungo do mal-das-folhas, as seringueiras eram plantadas muito próximas entre si, o que as tornava um alvo fácil para pragas, que dizimaram as plantações. A Ford ainda tentou realocar as plantações em Belterra, onde foi construída uma segunda cidade, mas em 1945, com o surgimento da borracha sintética — feita com derivados de petróleo — o empreendimento já não havia mais razão de existir e foi cancelado pelo presidente da companhia, Henry Ford II.

O Governo Brasileiro indenizou a Ford em aproximadamente US$ 250.000, e ainda assumiu as dívidas trabalhistas com os trabalhadores. Em troca, recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; um departamento de pesquisa e análise de solo; e a plantação de 1.900.000 seringueiras em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra.

Os detalhes desta história fantástica e do que aconteceu com Fordlândia depois do fracasso fordista são contados no excelente documentário Fordlândia, de Marinho Andrade e Daniel Augusto, que está disponível na íntegra no YouTube.


PATRIMÔNIO ABANDONADO NA SELVA

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CIDADE CRIADA POR HENRY FORD HÁ QUASE 90 ANOS, NO PARÁ, ESTÁ ESQUECIDA. IMÓVEIS ERAM A ESPERANÇA DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS PARA O PROCESSO DE TOMBAMENTO, MAS FORAM INVADIDOS POR COLONOS E COMEÇAM A SER MODIFICADOS

Daniel Camargos (texto)
Alexandre Guzanshe (fotos e vídeos)
Enviados especiais

Fordlândia – Duas pessoas jogam sinuca na varanda do Bar do Canhão e um aparelho de som toca alto uma canção de Leandro & Leonardo do início dos anos 1990. Uma menina bonita com traços indígenas assiste à disputa. “Ei, Canhão, mais uma”, um freguês grita e estica o braço esperando por uma dessas latas pequenas de cerveja, de 269ml. O calor é tanto no fim de tarde de sexta-feira no umbigo da floresta amazônica que uma lata maior esquentaria em poucos minutos. Tanto faz, naquele microcosmos do bar—na margem leste do Rio Tapajós, distante seis horas navegando em lancha de Santarém, no Centro-Oeste do Pará —, se os frequentadores estivessem em um lugarejo empoeirado do Vale do Jequitinhonha ou em uma bitaca no sertão de Goiás. Para a maioria dos moradores de Fordlândia, a vida segue indiferente à gigante sombra do passado que os cercam.

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O tempo, as ruínas e o descaso com o patrimônio da história quase inacreditável parece tão trivial quanto o cheiro acre das mangas caídas perto do campo de futebol, na parte alta da vila, onde garotos jogam bola e gritam emulando nomes de jogadores dos times do distante Sudeste do país. Surreal, fantástico e outros adjetivos para hiperbolizar as sensações não dão conta de descrever o que é o empreendimento de Henry Ford – um dos pais do automóvel e criador do pilar do capitalismo: o fordismo – no Centro-Oeste do Pará, no final da década de 1920.

Ford, o homem que dá nome à empresa, construiu uma cidade com a arquitetura cape cod, típica do interior dos Estados Unidos, à margem do Tapajós. Trouxe trabalhadores dos EUA, de outros países da América e de diversas regiões do Brasil, tentou criar uma plantação de seringueiras para abastecer suas fábricas de borracha, mas fracassou. Fez um acordo com o governo brasileiro e, em 1945, foi indenizado e abandonou o local que carrega até hoje seu nome.

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Setenta anos depois da saída da Ford, esse pedaço de história está completamente abandonado. Do hospital, que foi o maior da Região Norte do Brasil e o primeiro a realizar um transplante de pele no país, só restam algumas paredes, um aspecto macabro de abandono e o mato crescendo entre as brechas do concreto. As casas construídas para os trabalhadores foram modificadas, tiveram detalhes de madeira trocadas por paredes de tijolo e até uma praça, de gosto arquitetônico discutível, foi edificada, alterando a paisagem bem na entrada da vila para quem desembarca no trapiche.

As cinco casas que compunham a Vila Americana, dispostas em uma alameda de mangueiras e com hidrantes ianques vermelhos nas calçadas, abrigavam a diretoria da empresa e eram a esperança da Prefeitura de Aveiro e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombar a vila. Porém, quatro casas estão ocupadas por colonos. Da quinta residência só restam ruínas.

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As casas estão em uma avenida que era chamada à época da Ford de Palm Avenue, mas as mangueiras frondosas denotam uma concessão da Ford às nuances da selva, como pontua o professor de história da Universidade de Nova York Greg Grandin, no livro Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva (Editora Rocco, 2009), obra mais completa sobre o empreendimento.“Olmos ou bordos teriam definhado no clima quente e úmido. Contudo, calçadas de concreto, luzes elétricas e os hidrantes vermelhos confirmam que a Ford fez aquelas concessões com relutância”, escreveu Grandin.

“O Iphan tem clareza de que apenas tombar não adianta, pois não há ninguém que possa fazer a gestão do local”, afirma a superintendente do Iphan no Pará, Maria Dorotéa Lima. Já se passaram mais de cinco anos desde que foi cogitada a possibilidade do tombamento de Fordlândia, que pertence ao município de Aveiro. Porém, após a decisão ser tomada, as casas da Vila Americana foram ocupadas.

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MINHOCA Daniel Dias Pereira, de 37 anos, ocupa uma das casas. Ele nasceu em Ji-Paraná, Rondônia. “Sou filho de colono e você sabe como é. Só anda atrás de terra. Igual minhoca”, explica. Antes de chegar em Fordlândia, Daniel e a família moravam no Mato Grosso. A ideia inicial dele foi ir para Itaituba, cidade de 100 mil habitantes e referência no Centro-Oeste do Pará, também às margens do Rio Tapajós. “Fiquei 30 dias lá, mas me assustei com a terra branca. Estava acostumado com a terra vermelha”, recorda. Foi quando ouviu falar de Fordlândia. Até então, Daniel não fazia ideia da existência da cidade e muito menos da história do local. Conseguiu uma motocicleta e encarou os 100 quilômetros de estrada de terra precária para conhecer. “Andar de barco? Deus me livre”, explicou por que não fez o trajeto mais simples e corriqueiro na região.

Fordlândia foi construída pelo idealismo de Henry Ford e depois vendida ao governo brasileiro. Entre as décadas de 1950 e meados de 1980, funcionaram no local instalações do Ministério da Agricultura, com fazendas de diversas raças de gado. As casas foram habitadas por funcionários do ministério e a maioria segue com as famílias desses funcionários, já aposentados e que continuam na região. Com a desativação da operação, o local ficou abandonado. As pessoas ocupam as terras, mesmo sem ter a documentação, e com o passar dos anos tentam conquistar a posse.

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O plano de Daniel quando chegou, em 2008, era conseguir um terreno, construir uma casa pequena e começar a plantar. Porém, em 2011 uma das quatro casas da Vila Americana foi ocupada por um morador da cidade, aposentado do Ministério da Agricultura e que na ocasião era presidente da comunidade, uma espécie de representante do local para pleitear os interesses junto à Prefeitura de Aveiro.

Daniel aproveitou a deixa e ocupou uma casa. O local era só mato e lar de mais de mil morcegos. “Eles ficavam triscando a orelha da gente”, recorda. Ele conta que, para tornar o local habitável, depois de desbastar o mato e se livrar dos animais ele lavou a casa três vezes com desinfetante, para eliminar o cheiro das fezes dos morcegos. Antes de a reportagem do Estado de Minas entrar na casa, Daniel pede gentilmente que fotógrafo e repórter tirem os sapatos. O chão está tão limpo que seria uma crueldade sujá-lo com o barro carregado nos calçados.

Quando o historiador Greg Grandin escreveu o livro, as casas ainda não haviam sido invadidas, e ele encontrou um cenário mais tétrico na Vila Americana: “Os edifícios emoldurados em madeira são protestantes e não muito rebuscados, com telhados de madeira fina, pisos de tábuas, banheiros de tijolos, refrigeradores elétricos e arandelas nas paredes. Decrépitas e tomadas por ervas daninhas, como se poderia esperar, as casas são hoje o lar de colônias de morcegos, que deixaram uma pátina de fezes nas paredes e nos pisos”.

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“A comunidade aqui fez rastro de onça. Disse que a Polícia Federal viria atrás e sofri uma pressão muito grande. Mas agora que está tudo arrumado eles respeitam”, entende Daniel. Nos quatro anos de ocupação da casa, plantou 200 pés de maracujá e no ano passado produziu 500 quilos de polpa para suco. Na horta, plantou também açai, jiló, pimentão, alface, cebolinha, coco, banana, abacate, murici, carambola, laranja, caju, araçá, pitanga, couve e tomate. Os três filhos e a esposa ajudam a cuidar da plantação e a maior parte da produção é vendida para a escola da vila reforçar a merenda dos alunos.

Desde que ocupou a casa, Daniel restaurou o assoalho por conta própria, sem nenhuma orientação do Iphan ou de algum especialista em patrimônio histórico. No banheiro, as louças são originais, incluindo uma banheira e as torneiras. Só trocou a descarga. Também pintou a parede e ainda aproveita alguns móveis da época dos norte-americanos, como uma cômoda na sala.


Fonte: http://www.flatout.com.br/

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