A Virgem de Guadalupe: desafio à ciência moderna - Parte 2

g23. O rosto - O rosto é de uma jovem, recém-saída da adolescência, nem índia nem espanhola, mestiça. De rosto mexicano, ou melhor, hispano-americano. Neste período histórico ainda não existiam meninas hispano-americanas desta idade, e nem os índios nem os espanhóis aceitavam o fruto de sua união; desprezavam-nas - eram, na verdade, os primeiros mexicanos e hispano-americanos -, e este foi o estereótipo biológico que a Mãe de Ometeotl adotou para manifestar a sua missão e função: “...darei todo o meu amor... porque, de verdade, eu sou vossa Mãe compassiva, tua e de todos os que nesta terra estão e das outras estirpes de homens, que me amam... ” (vv. 28-31). Um rosto em que cada um dos progenitores, o espanhol e a índia, ou vice-versa, podem reconhecer, com orgulho, um terceiro rosto, com perfil próprio e original, nem espanhol nem índio, um outro rosto, síntese do velho mundo -semítico, ibérico, romano, godo e africano- e do novo mundo, índio-americano, fortemente ligado à Ásia e à África.

Eu vi, recentemente, um casal de jovens mexicanos visitando a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe:

- “Olha o rosto dela”, dizia o jovem à namorada, “é como o teu e como o meu”. E ficavam extasiados olhando para ela.

Esta é a grande obra de Tenontzin Guadalupe, a Mãe de todos, no México e em toda a América. É o grau supremo de inculturação, a sábia lei já enunciada por São Paulo: “Eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível. Para os judeus me fiz judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, me fiz como se eu estivesse de baixo da lei. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos”. (I Cor 9, 19-23). Nossa Senhora de Guadalupe se fez índia como a índia e como o índio, para levá-los a Cristo. Por isso, os bispos da América latina, em Puebla, escreveram uma página memorável:

“O Evangelho, encarnado nos nossos povos, nos congregam numa originalidade histórica cultural que chamamos América Latina. Esta identidade se simboliza muito luminosamente no rosto mestiço de Nossa Senhora de Guadalupe, que se ergue no início da evangelização” (nº446).

Na imagem, há também “jade e pluma preciosa” (in Chalchiutl in Quetzalli), símbolo de beleza e de riqueza para os índios. O jade do pequeno broche que Maria traz no peito, como as estátuas dos deuses, representa a sua própria alma. É uma cruz, na qual se repete a síntese da cruz cristã e da cruz indígena. Há também plumas de ave preciosa nas asas do anjo que conduz Maria, pluma preciosa de Quetzal, chamada pelos astecas de “sombra de Deus”.

4. A túnica.

A túnica “rosada ou avermelhada” evoca a aurora ou o entardecer; é a cor de Tonatiuh e de Yestlaquenqui, nomes diversos do deus sol. Tem o desenho do sinal ollin (origem da vida do universo), uma pequena flor de quatro pétalas, como um jasmim, que indicam os quatro rumos do mundo, e o de um grande botão de flor parcialmente aberto sobre um grosso talo, todo barrocamente estilizado. É o símbolo do monte Tepeyac; significa “no nariz do monte”, que durante certas épocas do ano se enchia de flores silvestres. É como se fosse uma lembrança da tradição de “flor e canto”, tão querida para o povo indígena.

5. O cinto escuro.

O cinto escuro representa o cinto de Coatlicue, cuja cor era o preto: Tecolliquenqui, “aquela que está vestida de negro”, outro nome de Ometeotl. O cinto escuro era o sinal com que as mulheres astecas indicavam seu estado “de boa esperança”. Podemos deduzir que Nossa Senhora de Guadalupe está representada como Virgem Mãe, não com o filho nos braços, mas no ventre; é um filho que vai nascer. É a imagem da mulher do Apocalipse 12, 1-4, vestida de sol e a ponto de dar à luz.

6. O manto azul

O manto azul, cheio de estrelas, é a xiuhtilmatli ou tilma de turquesa, própria dos mais altos tlatoanime, ou seja, nobres e príncipes, e do deus Huiltzilopochtli, porque o Huilhuícatl xoxouhqui, ou seja, “céu azul”, era o sétimo dos treze céus, onde ele morava, e era o nome de seu templo no Tenochtitlan.

7. As estrelas 

As estrelas que no manto brilhavam traziam para a mente indígena a lembrança de Citlalinícue, “a deusa da saia de estrelas”, outro nome de Ometeotl num toque mais maternal.

8. O céu azul escuro

O céu azul estrelado é o céu noturno, a associação de Yiohualli Ehecatl, ou “noite vento”, isto é, “o invisível, o impalpável”, outro dos nomes de Ometeotl, que, na linguagem filosófica, chamaríamos de transcendência: aquilo que não pode ser visto nem tocado, porque fica além da realidade visível.

9. O resplendor do céu

Sobre o aspecto noturno se sobrepõe o diurno, pois a Senhora está vestida de sol, e, ainda mais, grávida do Sol, como podemos ver pelo ollin, a flor de quatro pétalas, pela colocação do cinto e pela intensidade dos resplendores que aumentam na cintura. Não é somente um sol astronômico, é uma aurora de um sol diferente, no momento de despontar: é o que significa Tonatiuh, “aquele que vai brilhando”, e Citlallatónac ou “astro que ilumina todas as coisas”. O sol é outro dos nomes de Ometeotl e seu símbolo.

10. O anjo

O anjo que sustenta a Senhora com os braços abertos é uma espécie de atlante indígena. Representa Cuauhtehuámitl, “águia que sobe”, e sustenta a Cihuapilli, que sai de uma nuvem. Suas asas são compostas de três cores, azul-esverdeado, branco-amarelado e vermelho. Também são cores sagradas. É um tipo de “serpente alada”, ou Quetzalcóatl, com postura de estátua tolteca, Tlahuizcalpentecutli, que quer dizer “senhor das estrelas da manhã”, outro dos nomes de Deus. Suas asas são pequenas, como um punhado de sacrifícios; são asas de águia: “A águia que sobe”, Cuauhtehuámitl, mais um nome de Huitzilpochtli, que sobe para ofertar a Senhora a Deus. Por outro lado, o anjo representaria a ordem dos guerreiros - águias e guerreiros - jaguares, os mais nobres da sociedade asteca.

11. As cores

O anjo, com a indumentária vermelha e com algumas asas também vermelhas, e Nossa Senhora, vestida de rosa, nos evocam a cor do sol quando nasce e morre. É a cor de Huitzilpochtli e de Yestlaquenqui, “aquele que está vestido de vermelho”, outro dos nomes de Deus. O branco e o vermelho das asas do anjo também falam de Tlatoc, o deus da água e de Xiutecutli, deus do fogo.

É admirável a sabedoria e audácia do misterioso tlacuio, ou pintor da imagem - seja Quem for -, ao colocar os principais deuses mexicanos como padrinhos da Mãe de Ometeotl! Isto nos faz lembrar São Paulo no areópago de Atenas, que, no seu discurso de evangelização, tem como ponto de partida a “profunda religiosidade” daquele povo (At 17, 22).

Para concluir, podemos dizer que o indígena que contemplava a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe podia deduzir da “leitura” de seu código guadalupano que a nobre Senhora trazia consigo tudo o que havia de bom na antiga religião e sabedoria indígena, e o levava a um nível novo e mais luminoso. Nossa Senhora de Guadalupe era a Mãe do Verdadeiríssimo Deus, que nos dá vida e nos torna filhos de Deus Pai.

Termimenos esta reflexão com alguns versos, escritos originariamente em náhuatl, de Francisco Plácido, senhor índio de Atzcapotzalco, compostos poucos anos depois das aparições, inspirando-se em formas de expressão pré-hispânicas e dedicado à Mãe de Deus:

“Eu me divertia com o conjunto policromado de várias flores de tonacaxóchtl que se espalhavam, inquietantes e milagrosas, que se abriam na tua presença, ó Mãe nossa, Santa Maria! ".

“Nas margens das águas cantava (Santa Maria): eu sou a planta preciosa de frescos botões; sou obra do único, do perfeito Deus; a melhor das suas criaturas”.

“Tua alma, ó Santa Maria, é como se estivesse viva na pintura. Nós, os senhores, te cantávamos atrás do grande livro e te bailávamos com perfeição(4)”.

Como se vê, nosso trabalho não passa de uma simples leitura. Queríamos mostrar o método. Temos certeza de que outros, com mais inteligência, nos oferecerão, quando lerem o código de Guadalupe, não somente simples leituras, mas cantos de harmonia inaudita.

Notas:

1. Miguel Cabrera, “Maravilha americana e conjunto de raras maravilhas observadas na direção da arte da pintura na prodigiosa Imagem de Nossa Senhora de Guadalupe do México, com licença no México da imprensa do real e mais antigo colégio de São Ildefonso, ano de 1756”, apud Ernesto da Torre Villar e Navarro de Anda, em “Testemunhos Históricos... Maravilha americana”, p.52.

2. José Luis Guerrero, “Flor e canto do nascimento do México”, Ed. Realidade, Teoria e Prática, Cuautitlán, Edo. do México, 2000, p.395.

3. Citado em J.L. Guerrero, em “Flor e canto do nascimento do México”, Ed. Realidade, Teoria e Prática, Cuautitlán, Edo. do México, 2000, pp. 386-387.

4. Atribuído a Francisco Plácido, Senhor de Atzcapotzalco, em Cuevas Mariano, “Álbum histórico guadalupano”, década 1a, p.21. Cfr. também Torre Villar Ernesto e Navarro de Anda Ramiro, “Testemunhos Históricos: o Pregão de Atabal”, p.23.

Dados do autor:

O Pe. Javier García, L.C. é catedrático de cristologia, no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma, e consultor da Pontifícia Comissão para a América Latina.


O enigma de Nossa Senhora de Guadalupe


2007 - Nossa Senhora de Guadalupe, ou Virgem de Guadalupe, é um culto mariano originário do México. É considerada a Patrona da Cidade do México, do México (País) e da América.

Sua orígem está na aparição da Virgem Maria a um pobre índio da tribo Nahua, Juan Diego Cuauhtlatoatzin, em Tepeyac, noroeste da Cidade do México, em 9 de Dezembro de 1531.

Nossa Senhora apareceu a Juan Diego e identificou-se como a Mãe do Verdadeiro Deus, instruindo-o a dizer ao Bispo que construísse um templo no lugar. O Bispo, porém, não acreditou na estória que o índio lhe contou. Por isso, Nossa Senhora pediu a Juan Diego que se dirigisse ao alto de uma montanha árida e lá colhesse flores para levar ao Bispo em sinal de que era a própria Mãe de Deus que lhe pedia a construção do templo. O índio, então, se dirigiu ao local indicado e, para sua surpresa, encontrou muitas flores. Colheu-as e encheu a sua tilma com elas. Depois, dirigiu-se à residência do Bispo. Ao ser recebido por ele e por sua comitiva, disse que trazia rosas como um sinal vindo do céu. Ao "abrir" o seu manto, soltando-o da cintura, todos viram as flores, mas também viram a linda estampa que Juan Diego trazia estampada na tilma.

Foi um espanto geral! A imagem da Virgem Maria estava impressa milagrosamente em seu tilma (manto), um tecido de pouca qualidade (feito a partir do cacto), que deveria se deteriorar em 20 anos, mas que até hoje não mostra sinais de deteriorização, desafiando qualquer explicação científica sobre a sua origem.

Em ampliações feitas posteriormente, da face de Nossa Senhora, com o auxílio de poderosos aparelhos científicos e de computadores, percebeu-se que há em Seus olhos uma imagem gravada, a qual parece refletir as pessoas que estavam à Sua frente (à frente da Virgem Maria), em 1531, naquela sala:

* Juan Diego,
* o bispo,
* além de outras pessoas.
O assunto tem sido objeto de inúmeras investigações científicas.

É venerada no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e a sua festa é celebrada em 12 de Dezembro.

PARTE 3

 

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